Sociedade e Cultura

Anarquistas: pela terra, liberdade e contra a moral burguesa

Hoje, o segundo episódio da série para a TV , Uma História do Anarquismo, mostra como a divisão dentro do movimento libertário enfraqueceu a sua força

20/04/2018 09:24

Cena do documentário 'História do Anarquismo' - Divulgação

Créditos da foto: Cena do documentário 'História do Anarquismo' - Divulgação

 

Por Léa Maria Aarão Reis
 
Terra e liberdade, ou seja, desapropriação de terras pelos camponeses e populações rurais, e liberdade de novas formas de vida – desde a educação das crianças aos modos de vestir e de viver a sexualidade - Terra e Liberdade foi o slogan que perpassou o período notável das lutas libertárias do movimento anarquista entre 1840 e 1906.
 
Tempos turbulentos do começo do século 20 que antecederam a Primeira Guerra Mundial e sacudiram ruas, avenidas e praças de cidades de todos os continentes, com milhões de anarquistas organizados em federações nacionais, nas Casas Populares (precursoras das sedes dos atuais sindicatos) recém fundadas por eles, e mobilizados em greves gigantescas, em busca da alegria conforme preconizava Nietzsche.
 
Os anarquistas estavam nas grandes levas de imigrantes que desembarcavam nos Estados Unidos, entre os milhões de cidadãos da diáspora judaica, no Japão, na Palestina, África e América Latina (Brasil inclusive) e bradavam contra os fundamentos da moral burguesa, contra o trabalho imposto pelos ricos e contra a pátria e a família através de greves e insurreições.
 
Anunciavam a morte de um ‘’mundo velho’’ que parecia estar nos seus estertores.
 
Terra e Liberdade todos esses lances. Além de ter sido batizado assim pelo cineasta britânico Ken Loach, no belo filme clássico sobre a guerra civil espanhola, vem a ser justamente o título do segundo episódio da série para a TV, A História do Anarquismo, do documentarista e cineasta francês Tancrède Ramonet exibido no Brasil, hoje, no Canal Curta.*
 
Anarquismo: amor livre, união livre, mulheres abandonando os chapéus e espartilhos, e os homens, todas as roupas coercitivas; nas escolas anti-autoritárias e laicas, a educação para um ‘’novo homem’’ pregava a igualdade nas relações professor-aluno. A independência intelectual das crianças era o objetivo da educação. “Desconfiamos sempre do poder que temos sobre as crianças’’, dizia-se.” Queremos fazer delas pessoas livres. ’’
 
Na Palestina, era fundada a primeira colônia rural agrícola, Degania, mãe dos futuros kibutzim. E no Brasil, floresceu uma única colônia, Cecília, criada por Giovanni Rossi e companheiros anarquistas italianos imigrantes, auto intitulada ‘’comunidade anárquica experimental. ’’ Dela sobrou apenas uma imagem histórica mostrada no documentário.
 
Reprimidos como de hábito com grande violência, os humanistas voltaram ao revide agressivo, aos assaltos e aos atentados.
 
Marius Jacob, famoso anarquista francês, costumava deixar bilhetes irônicos quando assaltava as casas parisienses dos burgueses ricos. “Roubei de vocês um lenço de 250 francos’’, escreveu em um deles. ‘’Um lenço de 250 francos não é um insulto à miséria? ’’
 
O documentário mostra que foi Marius o modelo para a criação do personagem de Arsène Lupin.
 
Outro evento, esse trágico, apresentado por Ramonet, se deu em Londres, em 1911, com a repressão a uma grande revolta conduzida por anarquistas revolucionários que acabaram cercados por 800 policiais. Dois atiradores resistiram, do alto de um prédio logo depois incendiado. Acabaram queimados vivos.
 
A ‘’curiosidade’’: quem ocupava a pasta do ministério do Interior, na época, era certo Winston Churchill. Uma imagem de um filmete precioso registra o jovem ministro dando a ordem para incendiar o imóvel, à frente do seu pelotão. Sem o charuto.
 
Outra vinheta importante, registrada com imagem no documentário: um jovem professor, na Praça da Paz Celestial, em Pequim, assistindo as sessões de tortura públicas de revolucionários anarquistas. O nome? Mao-Tse-Tung.
 
Esse segundo episódio apresenta também dois marcos da história dos anarquistas. A Revolução do México, em Chiapas, com Zapata lutando junto de centenas de milhares de camponeses que se apropriavam de terras de uma meia dúzia de donos e as redistribuíam entre os agricultores. “Os lavradores devem pegar suas terras e não devem esperar que o proletariado as conquiste por eles’’ – era o lema precursor, até os dias de hoje, das reformas agrárias efetuadas na ação direta.

Cena do documentário “História do Anarquismo” - Divulgação

Antes de o filme chegar à revolução dos sovietes, um dos acadêmicos que comentam os eventos, lembra: “A historiografia marxista ignorou a participação dos anarquistas na Revolução Russa. ’’ No entanto, foram eles os primeiros a denunciarem o stalinismo. Em 1917, vemos no doc, a estátua de Bakunin já tinha sido erigida em Moscou. E se menciona a homenagem a Kropotkin, outro russo, ícone anarquista, quando a ele foi entregue a pasta de um ministério.
 
Na Argentina e na Colômbia – onde a repressão ficou conhecida como ‘’massacre dos bananeiros’’ – quem financiou e organizou a violenta repressão, foi, é claro, a United Fruit Company.
 
A força do movimento anarquista foi derretendo, nesse período, com a divisão interna que se deu entre os libertários do campo, semi-analfabetos, miseráveis e famintos, e os proletários anarquistas intelectualizados das cidades, os do anarco-sindicalismo, das Casas Populares e da Internacional Anti-Autoritária.
 
Cena do documentário “História do Anarquismo” - Divulgação

Talvez tivesse sido o embrião da grande revolução, na América Latina, na direção de um comunismo libertário, não fosse a divisão que fez o movimento perder a força.
 
É uma lição que fica, ao assistir o doc de Ramonet, tão necessária e urgente, nos dias de hoje, no Brasil, mas que o tempo parece, infelizmente, ter se encarregado de apagar.


 *Horários alternativos: canal Curta. Domingo 22, à meia-noite. Segunda-feira 23, às 17 e terça-feira 24, às 11. Terceiro e último episódio, sexta-feira, dia 27, às 23 horas e sábado, 28, às 03 e às 12 horas. Domingo 29, meia-noite.  Na próxima semana, capítulo três: A paixão por destruição.



Conteúdo Relacionado