Sociedade e Cultura

Andaluzia compra passagem para ''internacional populista''

A extrema direita tem sido ressuscitada em sociedades democráticas, criando nova cartografias políticas e desafiando movimentos de resistência

14/01/2019 13:17

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
O movimento feminista espanhol celebra massivamente seu território político antagônico neste dia 15 de janeiro, diante da sessão parlamentar que promete da posse, à Junta de Andaluzia, o candidato Juan Manuel Moreno, nome pactuado entre Partido Popular (PP), Ciudadanos e a recente formação de ultradireita VOX. Na barganha pelos 12 votos dos neófitos, entrou na pauta a derrubada da Lei Integral contra Violência de Gênero, aprovada por unanimidade em 2004. A reivindicação organizada por quase 200 agrupações feministas projeta uma das faces mais evidentes da essência humanista da jornalista e tradutora sevilhana Pilar del Río, para quem “o maior avanço, nos últimos anos, é a visibilidade das mulheres e o repúdio a serem sujeitos passivos nas agendas estabelecidas pelo patriarcado”. Presidenta da Fundação José Saramago e responsável por materializar os princípios da instituição declarados dia 29 de junho de 2007 pelo único Nobel de Literatura da Língua Portuguesa, Pilar acredita que “as manifestações das mulheres no mundo são o ar limpo e puro que estávamos necessitando”.

Nascida em 1950, Pilar atravessa cada momento histórico como Blimunda, personagem da obra Memorial do Convento, publicada em 1982 por José Saramago, e que inspirou a revista digital gratuita editada pela fundação desde 2012. A sensível mulher que competia com a Santíssima Trindade, ao lado de Baltasar e do Padre Bartolomeu, já havia sido cotada por Pilar para encarnar o radiofônico “Blimunda não se rende”, programa abortado, tamanha era a audácia em se contrapor àqueles que vendem como fúteis os interesses de metade da população planetária. A identificação é sutil: “As dificuldades não a fazem desistir de seus projetos e sonhos, por isso a escolhi. Poderia haver optado por outras mulheres da obra de José Saramago, já que são sempre personagens de dignidade, mas o valor literário do nome de Blimunda também influenciou”.

Pilar resiste a um sistema que oprime milhares em todos os continentes. E é cada vez mais explícito o avanço político e organizativo das mulheres no enfrentamento à guerra informal contra suas existências. A denúncia coletiva e testemunhal tem se dado de forma potente e os meios de comunicação convencionais são atropelados pela difusão virtual de consignas como “Me too”, nos Estados Unidos, “Ni una menos”, na Argentina, e “Cuentalo”, na Espanha. As campanhas têm evidenciado, majoritariamente, a cultura da violência sexual, mas os movimentos feministas escancaram a ampla agenda de direitos sonegados secularmente. Foi assim com o “Ele não”, no esdrúxulo Brasil de 2018, e agora com o “Ni un paso atrás”, na inauguração da Andaluzia de 2019.

Eclosões estruturais passam ainda por iniciativas mais silenciosas, e não menos transformadoras das formas de relações sociais. Em 2017, a Fundação José Saramago foi até a pequena Azinhaga, cidade portuguesa onde nasceu seu patrono, em 1922, e lá recuperou a antiga Escola Básica do 1º Ciclo da aldeia, edifício que estava fechado desde 2007. Por meio do projeto, resultado da parceria com a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal da Golegã, a sede da função mantém biblioteca, livraria e auditório capacitado para receber diversos tipos de atividades culturais. Nas palavras de Pilar, “o que, sim, queremos, é que, em todas as escolas, exista vida com maiúscula, ou seja, que se ensine a pensar, a discordar, a dissentir, sem repetir dogmas ou modelos. Que a ciência se assente no humanismo, não nos interesses do mercado. Que a literatura e a arte não sejam privilégio de poucos; que se ensine a ler os meios de comunicação, para que eles não sejam instrumentos de manipulação; que o respeito ao outro, suas necessidades, a biodiversidade e a pluralidade sejam o paradigma, não a exaltação irracional de si mesmo”. O relato é de quem ostenta ousadia numa conjuntura de marcha à ré.

O alerta do movimento feminista espanhol, que conta com a adesão da plataforma associativa interuniversitária de estudos de gênero, Eufem, anuncia o ingresso da região do Velho Mundo a uma cartografia global em que figura uma dezena de líderes da extrema direita ressuscitada em sociedades democráticas, e que apostam numa sorte de internacional populista, fatal para diversos grupos sociais. Entre as nações que já embarcaram na aventura, estão Itália, com Luigi Di Maio e Matteo Salvi; Áustria, com Sebastian Kurtz e Heinz-Christian Strache; Filipinas, com Rodrigo Duterte; EUA, com Donald Trump; e Brasil, com Jair Bolsonaro. O desastroso rumo, no entanto, enfrentará resistência certa muito além das urnas, de forma escancarada ou por meio de estratégias mais sutis.



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