Sociedade e Cultura

Anti-globalismo global, dois lados do mesmo extremo

 

15/12/2019 13:18

Bolsonaro e o professor Marco Antônio. De acordo com o próprio professor, ele não queria se assemelhar a Hitler...

Créditos da foto: Bolsonaro e o professor Marco Antônio. De acordo com o próprio professor, ele não queria se assemelhar a Hitler...

 
“Servem pessoas como Borghezio e Bannon”. Mario Borghezio é um político italiano filiado ao partido ultradireitista Lega, deputado eleito no Parlamento Europeu, e que, em sua juventude, havia militado no movimento monarquista, se juntando àqueles que eram contrários à República italiana. Ao correr do tempo, foi parar no partido liderado pelo ex-ministro do Interior, Matteo Salvini. Já Steve Bannon dispensa apresentações: se sabe, desde a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, e a crescente influência que exerce em figuras-chave de diversos movimentos ultra-conservadores de países europeus e americanos — como a Hungria, os Estados Unidos e, claro, o Brasil —, quem é a personagem referida.

O que essa frase significa e, além do mais, quem a proferiu? A identidade da remetente não nos é revelada. Contudo, o essencial é a destinatária: Francesca Rizzi, a responsável por coordenar ações do movimento neonazista na Itália. Em reportagem de 6 de dezembro, o jornal La Repubblica desvela, por meio de interceptações do serviço antiterrorismo interno da polícia italiana, que a principal articuladora neonazista — carinhosamente chamada de Miss Hitler —, planejava atentados em órgãos públicos e, além do mais, aumentar o número de “filiados”.

O segundo questionamento é óbvio: por que, em um país que foi destroçado pelo fascismo e perdeu milhares de pessoas — seja pela violência da guerra, pela agrura da fome, pela simples emigração de seus cidadãos; ou todos os fatores somados — se vê, atualmente, no meio do ressurgir de um movimento ultradireitista com tantos adeptos? Sim, tantos. E não fenômenos isolados, como se poderia supor do exemplo acima. No mês de julho, em Turim, sucessivas investigações da polícia levaram à apreensão de armas de guerra e até mesmo um míssil, que pertenciam a um grupo local de extrema-direita. O jornal local La Stampa divulgou ainda, na sequência, que mais armas pertencentes ao mesmo grupo foram apreendidas pouco tempo depois em uma cidade-satélite. Como a Miss Hitler, a adoração pelo Führer encontrava-se presente: havia inúmeras placas com suásticas entre o material apreendido.

E não para por aí: alguns professores universitários italianos encontraram atividade mais saudável a desenvolver no ambiente acadêmico, ao invés de plantar extensivamente maconha e desenvolver drogas sintéticas, como se passa no Brasil de acordo com Abraham Weintraub, monarquista como o supracitado Borghezio. O exemplo mais recente foi o professor de Filosofia do Direito Emanuele Castrucci, que na semana passada, em seu twitter, publicou uma foto de Hitler ao lado de seu pastor alemão, com a seguinte frase, em tradução literal: “Tinham dito à vocês que fui um monstro para não fazê-los saber que combati contra os verdadeiros monstros que hoje vos governam dominando o mundo”. A síntese da frase é um libelo contra o globalismo, que faria o professor Olavo regozijar. Até porque um outro argumento defendido pelo mestre Castrucci é que o que é descrito na obra Os Protocolos dos Sábios de Sião está correto. O que acontece hoje no mundo é a prova de que querem (os hebreus) dominarem o mundo. O jornalista Paolo Berizzi — que vive sob escolta policial, já que suas sucessivas reportagens e livros sobre o avanço da extrema-direita na Itália o levaram a receber inúmeras ameaças de morte —, na edição de 3 de dezembro do La Repubblica enuncia outros casos de menções antissemitas e ultradireitista por professores; um dos quais, inclusive, chegou a ser afastado do liceu em que lecionava por questionar o Holocausto e sustentar o argumento que alguns campos de concentração tinham até piscinas para o divertimento dos prisioneiros. Ou um professor que reprimiu alunos na aula de história por comparar a ascensão de Salvini com a de Mussolini nos anos 1920.

As postagens com imagens de Hitler e saudações nazistas são recorrentes no Twitter do professor Castrucci.

Por que esses fatos ocorridos na Itália possuem paralelos com o que se passa no país e poderiam ocorrer no Brasil sem nos deixar surpresos? Em primeiro lugar, a citação e o contato, entre membros de grupos da extrema-direita italiana, com Bannon. As relações mais que frequentes que possui com Eduardo Bolsonaro são também frequentes com Matteo Salvini. Os dois países, Brasil e Itália, representam a porta de entrada de seus ideais anti-globalistas a nível global — paradoxos a parte — em duas regiões extremamente estratégicas para a política externa norte-americana: a América do Sul e a Europa ocidental. No mês passado, em entrevista para a BBC Brasil reproduzida nesta mesma Carta Maior, ao ser questionado sobre a probabilidade de esfacelamento da onda de direita nacionalista que sustenta, o norte-americano, logo após afirmar que esta onda não arrefecerá facilmente pois é uma “revolução global”, afirma com toda a certeza que “Salvini vai voltar”, apesar que haja obstáculos no caminho. Bolsonaro & família e o político italiano, líderes em seus respectivos sub-continentes dessa onda, não saem da cabeça do articulista, e o oposto também. Até houve o encontro entre o marionete quase-embaixador com o então Ministro do Interior Salvini, que foi posteriormente agradecido em tribuna pelo 03, citando-o erroneamente como ainda ocupante do cargo do qual já havia deixado, e que retribuiu, desejando boa sorte ao “irmão” Bolsonaro após o anúncio de formação da Aliança pelo Brasil.

A segunda convergência é a culpabilização do globalismo pelas mazelas que afligem os respectivos países. É comum ver Salvini beijando um crucifixo em comícios e defendendo fechar fronteiras para conter a entrada de imigrantes árabes e africanos para manter a tradição e os valores italianos frente a irrefreável islamização do país, de acordo com eles. O responsável — ou os responsáveis — é a “esquerda”, que abre as portas do país para pessoas que nada tem a ver com as tradições religiosas e culturais italianas e que, além do mais, “roubam” o trabalho da população local. Vale ressaltar que, nos anos de maior fluxo imigratório, entre 2014-2017, foi o Partido Democrático, de centro-esquerda, responsável por firmar um acordo com a Líbia em 2017, renovado este ano, que deixou mais de 800.000 imigrantes sujeitos à lagers, durante o governo de Paolo Gentiloni, buscando atender eleitores cada vez mais avessos à imigração na pele de refugiados. Não deu certo, e a derrota acachapante da centro-esquerda nas eleições para o Parlamento Europeu e na região da Umbria, que foi governada por mais de 50 anos pela esquerda, evidenciam isto.

Aqui no Brasil, o globalismo tem em Lula sua força principal. Steve Bannon, na mesma entrevista, o classificou como “o esquerdista mais celebrado da história do mundo”, tendo atrás de si “uma rede da esquerda marxista e cultural”. É aí que as coisas complicariam pro lado bolsonarista: além do marxismo cultural, Lula e outros próceres da esquerda brasileira são também críticos ao neoliberalismo, almejando políticas trabalhistas e distributivistas. A tarefa do capitão era mais árdua que de seu par italiano. Mas tirando Lula de cena em 2018 em julgamento pra lá de ilegítimo, ventilando para a população a iminência de terem filhos homossexuais pois assim previa a cartilha — inventada — denominada kit gay, prometendo dar o direito à todo cidadão de bem portar uma arma de fogo, e, após a eleição, ter chamado o super-homem para Ministro da Justiça, a extrema-direita tupiniquim atingiu seu objetivo e chegou ao poder. Ao ponto de levar boa parte da classe média a defender nas redes sociais e nas ruas a reforma da previdência.

O chamado globalismo penetrou no Brasil, de acordo com os próceres bolsonaristas, por meio da subversão da sexualidade e da família tradicional, incentivando o aborto, e no campo econômico “querendo tirar de quem produz para dar a quem não produz”. Seu mote econômico de campanha, de que “o trabalhador terá que escolher entre todos os direitos e nenhum emprego, ou menos direitos e emprego”, vingou. Os árabes anti-cristãos de Salvini são encontrados dentro do próprio Brasil: homossexuais, a população negra e pobre da periferia das grandes cidades, sem-terras. Se quer até mesmo enquadrar determinados movimentos sociais — como o MST — como terrorista.

A terceira convergência entre os movimentos de extrema-direita em ambos os países se deve ao antissemitismo — aberto em um local, velado no outro. Ao ser questionado sobre o crescente antissemitismo na Itália, Salvini afirma que, em linhas gerais, isso não é tão significante, já que faz parte do passado. O passado é passado, precisa-se olhar para o futuro. Quando antissemitas e neonazistas saem às ruas junto com a Lega, o que importa é o compartilhamento da maioria dos princípios, que são comuns, e visam a união do povo italiano contra a influência sórdida anti-italiana e anti-cristã. Diferente é a posição bolsonarista neste caso, até a segunda página. Se apresentam como fortes defensores de Israel, amigos do povo judaico. Mas até onde? Todo mundo sabe que neonazistas brasileiros se identificam com Jair. Quem não sabe, deveria saber, pois é tão claro como a água. João Filho, colunista do The Intercept Brasil, em abril deste, publicou um excepcional artigo evidenciando, retrospectivamente, a adoração que possuem pelo mito e seus herdeiros, com declarações de líderes destes grupos em apoio ao capitão porque “ele representa a família brasileira”. Ainda no longínquo 2011, em ato de neonazistas em apoio de Bolsonaro, o mesmo diz não poder, infelizmente, estar presente, mas se sentia representado pelas pautas defendidas, contra o homossexualismo e a preparação de jovens brasileiros para a pedofilia — a homossexualidade (na acepção correta) é assim definida por Jair. Os princípios fundamentais do grupo Ultra Defesa, de acordo com João Filho, é “Deus, Brasil e Família”; praticamente um Deus acima de tudo, Brasil acima de todos. E, por último mais não menos importante, se no sul da Europa existe a miss Hitler, no sul do continente americano existe o professor Hitler. Não apenas como os citados acima, que defendem ideias nazistas e negam o Holocausto — um evento perdoável, como já declarou uma vez Jair Bolsonaro. É um professor que se veste como o ditador alemão, e foi candidato nas últimas eleições municipais do Rio de Janeiro pelo PSC, ex-partido do capitão e onde ainda hoje se encontra Carluxo. De nome Marco Antônio, foi convidado à discursar na Câmara municipal do Rio pelo próprio Carlos, e recebeu, em sua campanha, doação financeira do 01, senador Flávio Bolsonaro, o mesmo que condecorou com a Medalha Tiradentes, mais alta honraria do legislativo carioca, Adriano da Nóbrega — apontado como o cabeça da milícia Escritório do Crime —, enquanto o ex-BOPE se encontrava preso por suspeita de assassinato.

Sempre disposto a defender o chefe, o Ministro Ernesto Araújo publicou um texto vergonhoso em seu blog pessoal Metapolítica 17 (que agora deverá passar a 38, provável número da Aliança), defendendo a tese de que o nazismo é de esquerda. Afirmando que os principais fatores que aproximam esquerda e nazismo é que ambos são anti-liberais e anti-conservadores, no parágrafo seguinte o (mau) aluno do professor Olavo vai se contradizendo feito um pato. Classifica então o nazismo como “amálgama esquerdista e conservador”, até que finalmente entrega o ouro de vez, ao dizer que o nazismo capturou e utilizou para seus fins o nacionalismo. Conservadorismo, nacionalismo, e, sim, caro Ministro, liberalismo econômico não estava ausente nos regimes europeus dos anos 1930, dentre os quais o nazismo[1], e foi defendido por um de seus principais defensores. Dizendo sem querer dizer e jogando a batata-quente no colo do inimigo, o vômito semântico do ministro entrega que, no fundo, compartilha de ideais muito próximos daquele fenômeno que justamente tenta negar. Já o mestre de todos, ideólogo-mór do governo, descobridor do grande segredo do rock mundial, ou seja, que Adorno é o verdadeiro autor das composições Lennon/McCartney, foi desmascarado por João Carlos Magalhães e Bruno Sousa, também do Intercept Brasil, que tiveram o estômago e a paciência de lerem detidamente obras do grande filósofo Olavo. O resultado? Nada muito diferente do defendido pelo professor Castrucci e que não esteja presente no Protocolo. Uma colaboração judaica para a desgraça do mundo; a corrupção pelo mundanismo e modernismo na comunidade judaica que muito contribuiu para o Holocausto…

Ao realizar estas comparações, deve-se, contudo, ter o cuidado conceitual e histórico. O capitalismo mundial se alterou significativamente nas últimas décadas; obviamente, a estrutura de poder e dominação diverge muito dos anos 1930. Seu locus central de poder tem se deslocado cada vez mais do Atlântico em direção ao Pacífico. A crise de 2008 parece ter nocauteado a economia italiana. O fim do boom das commodities, a brasileira. Desemprego, recessão, queda da qualidade de vida e aumento de índices de criminalidade formam o cenário ideal para a criação de inimigos da parte de grupos políticos radicais. Torna-se fácil apontar o dedo em algumas direções. Ódio a judeus e muçulmanos aberto lá, a negros da periferia, homossexuais, sem-terra e sem-teto aqui, com um antissemitismo velado. Afinal de contas, vale dizer que Israel é, para as crenças religiosas de Bolsonaro & companhia, o local geográfico exato onde os judeus finalmente aceitarão Jesus como Messias, como previsto na Bíblia. Não tem nada de amizade, é profecia mesmo. A “revolução” de Bannon não está mesmo arrefecendo. O que cresce cada vez mais em Brasil e Itália é um sinal de alerta.

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[1] Para tal elucidação, trago citação de Ludwig Von Mises, ídolo dos neoliberais brasileiros, reproduzida por Jones Manuel em artigo de 25 de outubro no blog da Boitempo: “Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miram no estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções e que suas intervenções, no momento, salvaram a civilização europeia. O mérito que o Fascismo ganhou por isso viverá eternamente na história. Mas apesar de sua política ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode trazer sucesso contínuo. Fascismo é uma mudança de emergência. Ver como algo mais que isso, seria um erro fatal”. https://blogdaboitempo.com.br/2019/10/25/contra-o-revisionismo-historico-o-pacto-de-nao-agressao-germano-sovietico-e-a-segunda-guerra-mundial/

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