Sociedade e Cultura

As desigualdades expostas por esta pandemia estão prestes a piorar

O bloqueio nos mostrou as rachaduras que separam poucos privilegiados da maioria. À medida que diminui, veremos sua ampliação

02/06/2020 13:59

Placa orienta distanciamento social em shopping center em Braintree, Essex (Gavin Ellis/Foto TGS/Rex/Shutterstock)

Créditos da foto: Placa orienta distanciamento social em shopping center em Braintree, Essex (Gavin Ellis/Foto TGS/Rex/Shutterstock)

 
À medida que assistimos ao início do fim do bloqueio na Inglaterra, um novo medo deve estar tomando forma. Entramos na pandemia como uma sociedade grosseiramente desigual; vamos sair dela com essas desigualdades acentuadas e multiplicadas.

Esta é uma pandemia de duas metades. Se na primeira começamos a ver as linhas de falha que nos separavam, na segunda essas fendas se abriram. O primeiro tremor começou a sacudir o campo político na semana passada - quando um governo vacilante, que atingiu a segunda maior taxa de mortalidade no mundo, desprezou o público que não conseguiu proteger, a fim de salvar um dos seus. O que começou como uma recusa firme, mas contida, de admitir qualquer irregularidade por parte de Dominic Cummings se transformou em ameaça e zombaria. Boris Johnson está agressivo e irritado durante os briefings diários. Ministros como Matt Hancock e Michael Gove riem e zombam em entrevistas. É hora de seguir em frente, nos dizem.

Se havia alguma dúvida sobre a verdadeira natureza desse governo, ela desapareceu: o país é conduzido por um pequeno grupo unido de privilegiados arrogantes e sem talento. Além de conduzir o público para conseguirem chegar ao governo, eles não têm qualquer interesse em nossa segurança - ou em nos respeitar. Devemos cumprir nosso dever e nos submeter, porque essas são as novas regras da pandemia, reduzidas a uma essência que em tempos normais seria mais cuidadosamente obscurecida. Em resumo: conheça seu lugar.

Todas as ilusões, de que alguma vez fomos protegidos do desprezo generalizado de nossos governantes pela lógica da democracia - porque o governo personifica a vontade do povo que o elegeu - agora se foram. A única preocupação deles era com a vontade que os levou ao poder. E agora, muitas outras proteções que imaginávamos ainda existir - do desemprego, da falta de moradia, dos riscos à saúde no local de trabalho - se tornarão poeira, à medida que nossa sociedade se divide, ainda mais decisivamente, em um pequeno grupo de vencedores e uma grande massa de perdedores.

As divisões estão se tornando mais evidentes a cada semana. A força de trabalho já se dividiu entre aqueles que podem trabalhar em casa e os que precisam sair e estar na linha de frente do experimento do governo para facilitar o bloqueio; entre aqueles que podem continuar em casulos e aqueles que não têm recursos para fazê-lo, porque são pagos à medida que executam cada tarefa física - uma casa limpa, um dia em uma obra, uma refeição quente entregue à sua porta.

Existem trabalhadores que possuem contratos formais, que tratam seu trabalho como um serviço prestado por um ser humano que tem o direito a aviso prévio, indenizações e proteção contra abusos. E há aqueles que não têm proteção contra os caprichos de seus chefes para ditar seu tratamento e destino. À medida que a recessão prevista ataca e o desemprego aumenta, o poder que os empregadores têm, sobre os trabalhadores com contratos que permitem tempo de trabalho variável, gratos por terem qualquer renda, produzirá cada vez mais abusos, especialmente para trabalhadores indocumentados.

Esses trabalhadores fazem parte de um grupo maior de migrantes cujo status legal e formal não os fortalecerá contra os tremores secundários da pandemia. Acostumados a pagar sobrepreços por seus vistos, autorizações de residência e acesso ao NHS (Sistema Nacional de Saúde), eles contribuíram com impostos e taxas ao longo dos anos que ainda não lhes permitem acesso a fundos públicos. Para eles, não há rede de segurança.

Mas ainda há muitos que têm ainda menos sorte do que os trabalhadores aptos a ganhar uma vida precária: aqueles para os quais não há um fim claro do bloqueio à vista. A suspensão de nossas vidas não terminará tão repentina e decisivamente quanto começou. Seremos libertados de volta para nossas vidas em lotes. Os saudáveis, os jovens, os aptos e os privilegiados o suficiente para ter ajuda e cuidado serão os primeiros.

Mas há outra nação de cuidadores, de pessoas ou de propriedades, para quem ainda não há clareza a longo prazo. Os conselhos de que eles podem sair de casa vieram repentinamente e sem explicação do perfil de risco ou preparação para a próxima fase. Embora sua vulnerabilidade tenha sido atenuada durante a fase universal do bloqueio, seja pela bondade de amigos e familiares em fornecer comida e cuidados, seja por meio de um esquema de licença que evitou a dor financeira, esses meios logo terminarão. Ajudantes que não cuidam de proteção retornarão a suas próprias vidas e empregos, e o esquema de licença diminuirá.

Com seu fim, a desigualdade mais dramática de todas surgirá, à medida que aqueles que foram colocados em licenças descobrirem que não há emprego para o qual possam voltar e que não há alívio para suas obrigações financeiras. O efeito do contágio do desemprego já está avançando na economia. O proprietário de uma pequena agência imobiliária, gerenciada por sua família, me disse na semana passada que ele passa a maior parte do tempo, desde que voltou ao trabalho, negociando entre proprietários e inquilinos que não pagaram o aluguel, tentando evitar despejos e rescindindo contratos apenas quando pessoas encontraram um lugar para ir. Quando perguntei a ele quanto pior ficaria depois do final do esquema de licenças, ele disse: "Eu fico cabelos em pé só de pensar nisso".

A pandemia rapidamente prosperou nas fendas da sociedade, reivindicando vidas e meios de subsistência de acordo com a raça, acesso à assistência médica, perfil de risco no trabalho e status econômico. Em seguida, abrirá fissuras ainda maiores. Considerando o trauma coletivo pelo qual passamos, podemos ter um momento de alívio quando um "retorno ao normal" começa a tomar forma. Mas pode ser breve: agora a tarefa será examinar o novo e implacável cenário de desigualdades acentuadas e - em vez de nos voltarmos uns contra os outros - fazer o possível para amenizá-las.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli



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