Sociedade e Cultura

As igrejas cannábicas dos Estados Unidos: sacramento ou sacrilégio?

A legalização da maconha medicinal e recreativo em alguns estados do país anglo-saxão propiciou o nascimento das ''igrejas cannábicas'', que se amparam em princípios religiosos para consumir e distribuir a que consideram como uma ''planta sagrada''

23/07/2019 12:15

A Internacional Cannabis Church - 'Igreja Internacional da Cannabis', em tradução literal - está localizada em Denver, no Colorado (International Cannabis Church)

Créditos da foto: A Internacional Cannabis Church - 'Igreja Internacional da Cannabis', em tradução literal - está localizada em Denver, no Colorado (International Cannabis Church)

 

É uma manhã de calor no vale central da Califórnia, quando a irmã Kate se coloca um hábito branco, caminha até a horta situada na parte traseira da propriedade, ascende um ramalhete de ervas com um isqueiro e começa um ritual que a leva a um pequeno caminho dentro da plantação de maconha medicinal. Os cânticos que entoa harmonizam a granja localizada em um lugar secreto, no condado californiano de Merced, sede da congregação das Irmãs do Vale (The Sisters of The Valley LTD).

Tudo isso é uma simpática encenação, um exercício original coreografado, parte de uma estratégia de marketing que vem dando frutos: os produtos que se elaboram aqui, e que só contém CBD (ou seja, não contém THC, que é o princípio psicotrópico da maconha), são vendidos e distribuídos por todo o mundo. O surgimento deste negócio é parte de uma tendência que também viu nascer, nos últimos anos, as chamadas “igrejas cannábicas”, na Califórnia e em outros estados – alguns vendem produtos psicotrópicos e outros não. Algumas delas têm permissão legal, outras não. Algumas são entidades realmente religiosas, outras não.

“Nossa missão central é fazer com que a medicina baseada no uso das plantas chegue às mãos do maior número possível de pessoas, de uma forma sustentável e honorável, além de criar carreiras profissionais cheias de espiritualidade e opções para as mulheres”, assegura a irmã Kate, que é fundadora da empresa, e cujo verdadeiro nome é Christine Meeusen.

O nascimento da irmandade, há quatro anos e meio, está ligado à história pessoal, às crenças e à evolução política de Kate. Antes de chegar aos 30 anos, ela trocou o consumo de álcool pela maconha recreativa, ao perceber que a planta não gerava ressaca e somente a relaxava. Também passou de ser eleitora de Ronald Reagan e se tornou “a monja dos protestos” contra Wall Street, e chegou até a votar em Bernie Sanders nas eleições internas do Partido Democratas. Sua estadia em Amsterdã, e os ensinamentos que extraiu das beguinas (congregação de mulheres religiosas surgida na Bélgica, no Século XII) consumaram a metamorfose de sua visão, que gira em torno do importante lugar do matriarcado na sociedade, a presença da mulher na estrutura de negócios privados e na ajuda aos necessitados.

Sobre as Beguinas, ela diz que “eram as primeiras enfermeiras organizadas nos castelos da Europa. Nós somos as primeiras fitoterapeutas organizadas no sistema moderno de castelos (...) não se filiavam com nenhuma religião, porque eram acadêmicas de todas as religiões, e criticavam a corrupção e os líderes corruptos das religiões da época, que eram como os da nossa”, conta ela, enquanto denuncia as companhias farmacêuticas, e recalca a importância de consumir produtos procedentes da mãe natureza.

Desde que iniciaram suas operações, Kate esclarece que as monjas fazem votos, embora não religiosos, e que a cannabis não forma parte de suas crenças espirituais nem costumes.

“A irmã Rosa, por exemplo, é alérgica à cannabis. Outra irmã não fuma, e muitas estão saudáveis, e não o necessitam”, explica. “Pedimos às irmãs que estejam a serviço das pessoas, que obedeçam os ciclos da lua, que vivam de forma simples e dediquem tempo cada semana ou mês ao avanço das causas do ativismo progressista, à castidade (privatização sexual) e à ecologia (reduzir o rastro anual)”.

A popularidade das monjas nos últimos anos tem crescido. Em sua estrutura está a irmã Sierra, uma ex-monja franciscana, e com ela a organização expande sua presença fundando outras sedes secretas em Humboldt, no México, na Bélgica, no Reino Unido, na Nova Zelândia, na Suécia e na Dinamarca. Porém, na sede central, só vivem atualmente cinco irmãs e dois irmãos, dos dez que havia.

Ataques bancários

“Perdemos duas irmãs e um irmão recentemente devido aos desafios bancários e ameaças do governo local de fechar nossas operações”, explica Kate.

A redução da equipe se produziu depois do congelamento da conta bancária da irmandade depois do lançamento do trailer de Breaking Habits, um documentário dirigido por Rob Ryan, que mostrava Kate portando uma arma de fogo e que a retratava como se fosse um gangster, e que Kate denunciou em um podcast difundido por meios alternativos estadunidenses.

Sem acesso aos fundos corporativos, e em situação extrema, Kate decidiu criar uma campanha de financiamento. Em questão de duas semanas, conseguiu arrecadar o dinheiro necessário para restabelecer a operação da empresa. “Ainda estou com estresse pós-traumático por todo o ocorrido. Vamos estar bem. Tive que navegar por muitas situações complicadas, até retomar a segurança”, comenta.

Apesar dos estragos, neste mês, a irmã Aminatu se incorporará à ordem da Califórnia em uma cerimônia não religiosa, na qual estarão presentes duas irmãs mexicanas e outras duas de Humboldt. Com esses reforços, poderão seguir cultivando uma horta com cerca de 36 plantas de alto conteúdo de CBD, de onde extraem tinturas, unguentos e outros produtos medicinais.

Embora a companhia tenha venha operando sem uma licença desde o seu início, Kate está há anos professando publicamente que paga os devidos impostos sobre as vendas, e assegura que “implementar estratégias para evadir impostos” é algo contrário à sua filosofia.

Mas na Califórnia nem todos os negócios mantêm uma política de transparência. O mercado ilegal de maconha no estado dourado existe desde 1995, quando a indústria da maconha medicinal era incipiente, segundo detalha um informe publicado em fevereiro de 2019 pelo Departamento de Controle de Cannabis de Califórnia.

Após 21 anos, no dia 8 de novembro de 2016, os eleitores californianos aprovaram a Proposta 64, na qual foi legalizada a posse de certas quantidades, o cultivo e o consumo de maconha recreativa para adultos maiores de 21 anos, em lugares privados. A Califórnia, assim, ingressava na lista de estados como Oregon, Washington e Colorado, que despenalizaram a droga, desafiando a lei federal, que continua proibindo sua posse e consumo.

Porém, em 2018, no primeiro ano em que as vendas de maconha medicinal e a posse entre adultos estavam reguladas, o mercado negro na Califórnia estava em plena ascensão. A maconha recreativa era vendida em qualquer lugar sem permissão, e sem pagar impostos sobre as vendas. A perda econômica foi grande: o Estado esperava arrecadar cerca de dois bilhões de dólares em impostos com a legalização, e acabou recebendo somente 345 milhões.

“O mercado sem licenças continua florescendo, em parte devido à vantagem comparativa financeira de tais operações sobre os negócios legais de cannabis, os quais estão comprometidos a pagar o custo das licenças e impostos”, segundo o informe. “O descumprimento está criando um ambiente de alta para o não regulado”.

Oportunidade de mercado para as igrejas cannábicas

É precisamente nesta conjuntura que as igrejas cannábicas podem ser determinantes, já que, como organizações religiosas, estão isentas de pagar impostos. Ainda assim, não estão em situação ideal.

Em 15 de novembro de 2017, vários membros do departamento de controle do condado de Los Angeles invadiram a igreja cannábica Hundred Harmonies, situada na localidade californiana de La Puente, e que pertence à Associação de Ministérios Sacramentais. Numa das salas, se encontra o santuário. Em outra, o dispensário, onde os devotos compram maconha em gramas, antes de iniciar as cerimônias religiosas.

A diligência terminou com a apreensão de quase 300 dólares em dinheiro e cerca de 30 mil dólares plantas, diferentes tipos de maconha, cannabis concentrada, cera cannábica e produtos comestíveis elaborados com maconha, como barras de chocolate. A polêmica estava servida, porque onde as autoridades viram um “armazém ilegal” de maconha, os devotos viam “cannabis sacramental”.

“Os Ministérios Sacramentais possuem uma área de sacramento, distinta em cada um deles, onde esses membros têm acesso ao sacramento que o ministério provê”, explica Brent David Fraser, fundador da Associação de Ministérios Sacramentais.

Fraser, que também é ator, e esclarece que a igreja não “vende” cannabis, mas sim recebe doações, e que a cannabis sacramental segue protocolos estritos de cultivo realizados pelos jardineiros espirituais, que velam pela terra, o meio ambiente e a limpeza. Asseguram que se trata de um cultivo que se realiza em “terra sagrada”.

A igreja e a associação não tardaram em contra-atacar, com a ajuda do advogado Matthew Pappas, que iniciou um processo contra as autoridades, alegando violações constitucionais e reivindicando o direito à liberdade religiosa, ao uso de cannabis sacramental nas cerimônias religiosas, assim como o direito a receber doações que ajudem a igreja a manter suas atividades.

“A demanda continua tramitando e o julgamento começara no final deste mês, ou possivelmente em meados de agosto”, assegurou Fraser.

Outra prova do tenso clima entre autoridades e os negócios cannábicos na Califórnia, estado conhecido como um dos mais liberais dos Estados Unidos, ocorreu há algumas semanas em Redondo Beach, cidade da costa do Pacífico. Lá, a Igreja Oceânica de Cura Alternativa (Seaside Church of Alternative Healing) fechou suas portas após fechar um acordo extrajudicial com a prefeitura, para que esta retirasse quase 20 processos judiciais contra a organização e todos os seus trabalhadores.

Porém, o movimento das igrejas cannábicas não está restrito à Califórnia. No Colorado, onde o consumo de maconha é legal desde 2012, todos os domingos às 19h, um grupo entre 20 e 60 “elevacionistas” se congregam na Igreja Internacional da Cannabis, para participar do Ritual Cerimonial de Acender a Vela, donde uma vela é acesa enquanto se lê uma oração de gratidão, em um ato no qual se permite aos membros embarcar em uma viagem ao descobrimento transcendental deles mesmos, em uma experiência comunitária. Tudo cortesia de sua flor mais sagrada, a cannabis.

“Acender a vela representa o descobrimento do fogo e da maneira na que nós, os humanos, nos reunimos ao redor do fogo para contar histórias, para celebrar os deuses e orar por suas ações”, explica Lee Molloy, co-fundador da organização. “É o rito natural no qual acendemos nossos baseados”.

A história dos “elevacionistas”

A organização, que abriu suas portas no dia 20 de abril de 2017, admite membros de qualquer religião ou crença, não permite a entrada de menores de 21 anos, não se pronuncia sobre o tema da criminalização da maconha, e se rege pela chamada regra de ouro: “trata os outros como gostaria de ser tratado quando sua mente está saudável”.

As reuniões e rituais transcorrem em um edifício histórico do bairro de Washington Park, em Denver. Uma sólida fachada de tijolos marrom custodia a capela onde o teto e os muros interiores estão decorados com coloridos murais do pintor espanhol Okuda San Miguel, uma obra artística que contribui para elevar a experiência visual e sensorial dos membros da igreja e de seus visitantes. Aliás, a organização está aberta ao público no horário comercial, período no qual, contudo, não se permite o consumo de maconha.

Molloy conta que, devido às suas operações, os co-fundadores enfrentam processos judiciais, tendo que defender seu “direito a praticar a liberdade religiosa” e comemorando que “ganhamos um caso importante”.

Na igreja não há líderes. Tampouco um papa, porque não acreditam numa estrutura autoritária nem consideram que uma pessoa tenha uma maior capacidade espiritual ou de liderança que outra. E quando perguntado sobre sua opinião a respeito da Igreja Católica e ao que essa possa pensar das igrejas cannábicas, sua resposta é clara: “creio que é melhor que o Vaticano dedique seu tempo à tarefa de por sua própria casa em ordem, e a acabar com os abusos contra crianças”.

*Publicado originalmente em publico.es | Tradução de Victor Farinelli

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