Sociedade e Cultura

Até quando a brutalidade será o norte do ser humano?

 

25/02/2019 12:28

 

 

Vinte e quatro de fevereiro de 2019. Data do meu aniversário – algo que para você, leitor, certamente não tem nenhuma importância, afinal, além de chato e melancólico, sou um ilustre desconhecido que sonha com uma sociedade menos desigual, tamanha pretensão ante a atual conjuntura –, dia de jogar videogame madrugada adentro e sentir um pouco mais do lugar-comum de quem está à beira dos 40.

Albert Einstein (1879-1955), discutindo o gesto mais emblemático da estupidez de nossa espécie, em sua obra Como Vejo o Mundo (1934), afirmou: “[...] A guerra é a coisa mais desprezível que existe. [...]. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político [...].” É triste ver, nas palavras do gênio que revolucionou a física moderna, uma das instituições mais importantes para nossa sociedade – e, justamente, aquela na qual sou profissional há 10 anos – ser, ao lado de outras, responsabilizada pela guerra: a escola. Entretanto, não vejo maneira de contradizer Einstein: a escola, e não apenas a escola brasileira, atua como (re)produtora da (des)informação, afastando-se do pensamento crítico. A educação que temos, principalmente nos primeiros anos de vida, colabora para que as pessoas se tornem incapazes de analisar as sutis desigualdades presentes no cotidiano.

Desejo, nesse meu 37º níver de existência neurótica obsessiva, porém, pacifista – momento de alegria, tornado, com a iminência de um confronto bélico entre Brasil e Venezuela, instante de profunda tristeza – refletir com brevidade sobre os caminhos que levam a um conflito entre nações, além de ponderar sobre se há possibilidade de evitar qualquer esforço de guerra em nosso belo lar denominado Terra.

Temos, desde 2011, assistido governos autoritários e extremistas, com discursos ultraconservadores, saindo vitoriosos das urnas. Em nossa opinião, a crise econômica irrompida nos Estados Unidos (EUA) em 2008, é o principal fator para a ascensão de grupos políticos que, através do voto, desmoronam a democracia. Exemplo típico é o presidente dos EUA, Donald Trump, que, com seus discursos xenófobos, sexistas e bélicos, fomenta conflitos entre países da América Latina. Especificamente em relação à Venezuela, sabemos que, como nação com maior reserva oficial de petróleo do mundo, além de eleita para presidir a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) ainda esse ano, aguça nos EUA, o instinto de dominação. Com esse intuito, países-satélite já estão sendo utilizados pelos ianques: nos últimos dias, conflitos envolvendo Brasil e Colômbia contra a Venezuela têm se intensificado, o que indica a proximidade de um confronto de maiores proporções.

Não obstante, qual a situação política da Venezuela? Nicolás Maduro foi eleito presidente, com quase 6 milhões de votos e com mais de 200 organizações internacionais de observação afirmando que o processo eleitoral ocorreu com total transparência. A despeito de concordar com a governança de Maduro, está em jogo a soberania de uma nação que foi às urnas e escolheu seu presidente. Nesses termos, qualquer forma de deposição de um governo democraticamente eleito, constitui-se em golpe ainda mais violento em relação àquele ocorrido no Brasil em 2016, principalmente diante do embuste da autoproclamação do líder oposicionista, Juan Guaidó, que se diz presidente interino, entretanto, tão somente é um fantoche a serviço do governo estadunidense.

A partir de tal cenário, perguntamos se é possível evitar esse e outros conflitos armados. Voltemos a Albert Einstein: a 30 de julho de 1932, o físico que revolucionou a ciência com sua Teoria da Relatividade, escreveu para o neurologista e pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939). O intuito era pensar uma direção para desvencilhar a humanidade da guerra. Freud respondeu com uma rápida análise histórica, argumentando que aquilo que chamamos de civilização foi construído na passagem da violência de dominadores sobre dominados para o surgimento de legislações, com o objetivo de regular a sociedade, para obter e manter a paz. Todavia, as leis, com frequência, são fraudadas para atender os interesses de quem, detendo o poder, se coloca acima dos vetos legais. Nesse ínterim, quem está em condição de desigualdade, se une em grupos, a fim de acessar um sistema judiciário igualitário. Exatamente aqui, o primeiro grupo, formado pelos proprietários do poder, não aceita os pleitos do segundo grupo, integrado por aqueles que reivindicam leis sendo aplicadas igualmente para todos, e uma guerra se torna inevitável, até que um novo sistema legal seja instaurado.

A síntese da troca de correspondência entre Einstein e Freud, intitulada Por que a Guerra? (1932) pode ser empregada com precisão nas ações dos EUA em vários momentos da História. Em busca de assegurar seus interesses, o Tio Sam apoiou o golpe militar de 1964 no Brasil e autocracias em toda a América Latina, a exemplo da ditadura de Augusto Pinochet (1915-2006), que governou o Chile entre 1973 e 1990, sob um regime sanguinário. Mais recentemente, a invasão ao Iraque e ao Afeganistão, para manter sua hegemonia político-econômica, comprova a visão freudiana: há um grupo de detentores do poder que, quando lhe convêm, se coloca acima das exigências legais que devem ser cumpridas por todos.

Em uma perspectiva psicanalítica, nossos instintos de dominação e união tendem a agir em conjunto. Na prática, o ser humano para se preservar, por vezes, recorre à agressividade: na tentativa de autopreservação, nossa espécie age de forma destrutiva contra si própria! Algo aparentemente antagônico, contudo, na ofensiva dos EUA contra a Venezuela, temos esta comprovação: a fim de conservar a si mesmo como a maior economia mundial, Washington investe com ímpeto contra Caracas.

A única forma de evitar essa e outras operações militares, repousaria, para a abordagem psicanalítica – a qual abraçamos, por enxergá-la como ferramenta importante para compreender amor e ódio, a todo o momento, caminhando juntos –, no desenvolvimento e utilização da nossa capacidade intelectual, apreendendo que toda pessoa tem o direito de viver, que a guerra é sempre o caminho mais curto para a desesperança, e que, uma vez inserido nela, o ser humano é arrastado à condições humilhantes, rumando rapidamente para sua extinção. Infelizmente, estamos longe disso. Parece-nos clara uma ofensiva militar ocorrendo na Venezuela nos próximos dias, e, como de hábito, inocentes perdendo suas vidas. Resta, então, a esperança do triunfo da razão sobre os instintos, da vitória da negociação pacífica sobre o ódio, do sucesso do diálogo para além da hostilidade.

Infelizmente, estamos muito longe disso...

Armando Januário dos Santos Sexólogo. Psicanalista em formação. Graduando em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 

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