Sociedade e Cultura

Borba Gato: Uma estátua em Perigo

Inspirados nos movimentos antirracistas internacionais, autoridades e grupos antifascistas paulistas se unem com o objetivo de demolir monumento do bandeirante escravocrata.

09/07/2020 13:29

(Zanone Fraissat/Folhapress)

Créditos da foto: (Zanone Fraissat/Folhapress)

 

A região de Santo Amaro vive um dilema sem precedentes. Desde que eclodiram os atos antirrascistas por todo os Estados Unidos – em seguida em escala mundial --, consequenciais à morte do negro George Floyd, asfixiado pelo joelho de um truculento policial branco durante abordagem na cidade de Minneapolis (Estado de Minnesota, nos Estados Unidos), em 25 de maio deste ano, a população do bairro, que ostenta com orgulho a estátua do bandeirante Manuel Borba Gato, obra-mestra do artista Júlio Guerra, falecido em 2001, agora encara a gigante armação de 13 metros e 20 toneladas, erguida em plena avenida Santo Amaro, com olhos menos benevolentes.

Muito pelo contrário. Na manhã do último sábado, 4 de julho, por exemplo, um grupo ultrapartidário reuniu centenas de pessoas entre militantes de partidos políticos (PT, PSOL, PCO), a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), ativistas do movimento negro e da OAB, além de diversos simpatizantes, todos imbuídos de uma única finalidade: protestar contra a permanência da figura do bandeirante considerado responsável pela dizimação de índios e escravos durante o processo de expansão territorial promovido por São Paulo no período colonial brasileiro.

A manifestação teve início por volta das 10h no largo 13 de maio, centro ‘nervoso’ de Santo Amaro, com a chegada dos participantes, que após ouvirem instruções a propósito do comportamento a ser adotado a partir dali, seguiram em passeata, a pé ou de automóvel, em direção a localização da estátua, tomando como trajeto as avenidas Santo Amaro e Adolfo Pinheiro.

O movimento, oficialmente organizado pela Frente Antifascista e Antirracista da Zona Sul, acompanhado por Carta Maior, transcorreu inteiramente de forma pacífica e com o cuidado necessário do uso de máscaras, sob monitoração constante da Polícia Militar de São Paulo, com duração aproximada de 2h30min, encerrado exatamente às 13h40. Os manifestantes foram puxados por um carro de som, sobre o qual estava o diretor de base do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes, conhecido como Carlão, cuja voz possante e resistente incitava todos a entoar frases de ordem do tipo “Fora Bolsonaro”, “Vidas Negras Importam”, entre outras.

Compreendendo os motivos

Em meio à manifestação, ouvia-se de pedestres e pessoas em janelas de prédios, gestos de apoio e repetidos gritos das palavras de ordem ali proferidas. Contudo, ainda que conduzida de forma ordeira e democrática, havia vozes dissonantes, alguns declarados bolsonaristas, indignados com o objetivo da passeata, qual seja, a derrubada da estátua que é um dos símbolos arquitetônicos mais célebres da cidade. Esse receio é tão latente no município que o prefeito Bruno Covas e o governador João Dória determinaram que a Guarda Municipal e a Polícia Militar realizem vigília constante em redor do monumento, a fim de evitar depredações e tentativas de sua derrubada, uma vez que chegou a ser pichada recentemente. Isso, inclusive, impediu que os participantes chegassem mais proximamente do local exato da estátua, sendo o evento paralisado na rua da Paz, uma transversal a avenida Santo Amaro.

Mas teria esse temor realmente fundamento? Em se tratando de Brasil talvez seja cedo ainda fazer uma aposta. O fato é que o histórico de derrubadas de estátuas, decorrentes dos movimentos antirrascistas deflagrados pelo indecoroso homicídio -- compartilhado em imagens amplamente difundidas pelas redes sociais -- de George Floyd, é uma realidade, iniciado no Reino Unido, em 7 de junho, com a queda da estátua de bronze que homenageava Edward Colston, um traficante de escravos, inaugurada em 1895.

Desde então, verificamos uma série de atos verdadeiramente iconoclastas, que culminaram com a destruição de estátuas de personagens históricos ligados à triste memória escravagista ou genocida, como diversas, no sul confederado dos EUA, do descobridor da América Cristóvão Colombo, notabilizado por sua postura em favor da aniquilação das populações indígenas.

Regressando a nossa realidade local, já corre por aqui um projeto de lei protocolado em 24 de junho pela deputada estadual Erica Malunguinho, do PSOL, sugerindo “retirar monumentos, estátuas e bustos” que homenageiem figuras históricas escravocratas das ruas da capital paulista, dentre as quais justamente a de Borba Gato.

Roberval Lima é Jornalista, graduado na (ECA) Escola de Comunicações e Artes/USP

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