Sociedade e Cultura

Brasis que sufocam, brasis que matam

 

22/07/2020 11:24

Da casa grande à senzala, passados mais de 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, essa mesma estrutura escravagista persiste como uma ferida aberta no corpo político e social brasileiro (Guilherme Pinto/Agência O Globo)

Créditos da foto: Da casa grande à senzala, passados mais de 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, essa mesma estrutura escravagista persiste como uma ferida aberta no corpo político e social brasileiro (Guilherme Pinto/Agência O Globo)

 
A nossa história enquanto nação é tributária da fratura. É sempre bom insistirmos que não é possível falarmos em "povo brasileiro" porque a constituição histórica deste país é marcada por segregações e exclusões, produtoras da nossa miséria cotidiana, da nossa naturalização da barbárie, da nossa desigualdade brutal.

A estrutura societária brasileira carrega os traços de uma sociedade escravagista que se fez a partir do rebaixamento de largos setores populacionais à dimensão de coisa. Nesse sentido, o que chamamos de nação brasileira se produziu à custa da divisão entre seres e não-seres, como nos aponta Sueli Carneiro, entre, de um lado, cidadãos respeitáveis e, de outro, meros objetos, mercadorias a serviço das necessidades dos senhores do dinheiro e do prestígio.

Da casa grande à senzala, passados mais de 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, essa mesma estrutura escravagista persiste como uma ferida aberta no corpo político e social brasileiro. É essa estrutura que permite ao Bope "entrar pela favela e espalhar corpos no chão", que permite a um candidato à presidência da república dizer que “[O policial] entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado" e, mesmo assim, ser eleito presidente do país.

Talvez tenha sido por isso mesmo que Bolsonaro foi eleito, pois se ancorou em uma plataforma política baseada no medo da morte e na vingança contra os possíveis portadores da barbárie. Ele soube mobilizar os medos mais fundamentais da população brasileira para oferecer uma solução que tinha o caráter marcadamente bélico e eugenista.

Basta nos lembrarmos de um dos seus slogans campanha: "bandido bom é bandido morto", o qual reativava – e isso não por acaso – a figura nefasta do capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite, sucesso nacional entre 2007 e 2010, que "subia o morro pra deixar corpos no chão". Esse filme conseguiu exibir de forma fantástica algo de sintomático que corria por baixo da sociedade brasileira, a qual, ao se identificar com o Capitão em sua missão de guardar "o sono do papa", ou seja, de todo o "cidadão de bem", não via qualquer problema em deixar rastros de sangue pelos guetos e ruelas das favelas brasileiras.

Essa estrutura binária da nossa sociedade, cortada entre os verdadeiros cidadãos e os inimigos dos quais é preciso se defender, tornou-se mais manifesta, cada vez mais evidente em seus traços cruéis a partir da eleição de Bolsonaro, do seu clã 01, 02, 03 e de seus cúmplices da bíblia, da bala e dos bois, alcançado o máximo da sua expressão na pandemia.

De um lado, e desde a época da constituição do Brasil, nós temos pessoas que, quando morrem, têm direito ao luto, ao funeral, ao nome, à narrativa, têm direito a ter sua história e sua memória contadas: são notáveis e notados. De outro lado, nós temos uma massa de indigentes, largados a própria sorte, decaídos à condição de coisa que, quando morrem, não têm direito ao luto, à narrativa: mera estatística na trajetória dos banais.

Dos notáveis aos banais, essa gramática do extermínio brasileiro produziu e continua produzindo mortes incessantes nas periferias brasileiras. São os corpos matáveis, aqueles que podem ser mortos sem que se cometa homicídio, sem que haja qualquer responsabilização penal efetiva do executor, como teoriza Giorgio Agamben. São aqueles cujas mortes não são pranteadas, como prefere Judith Butler. Não há choro, não há justiça.

A questão é que quando autorizamos, enquanto sociedade constituída, a circulação desse tipo de discurso, quando pactuamos com esse nível de perversão social, nós também corremos o risco de sermos tragados e transformados em coisa e virarmos, portanto, mera estatística. É isso que vem acontecendo no Brasil pandêmico. Todos, absolutamente todos nós, se morrermos hoje, não teremos direito a um funeral e aos rituais que possibilitam a passagem ao luto. Seremos só mais um na estatística dos mais de 80 mil mortos pelo coronavírus.

Quando o governo brasileiro se recusa a reconhecer a gravidade do problema e, pelo contrário, veta itens básicos para uma proteção adequada, ao mesmo tempo em que incita a população a abandonar o isolamento social, comprovadamente a medida mais eficaz contra a propagação disseminada do coronavírus, o que ele faz é dizer, em todas as modulações e tons possíveis, que as mortes não são importantes: "E daí? Vão morrer muitos, vão, paciência!"; "é o destino de todo mundo".

A vida é desprezada, a vida em sua absoluta fragilidade. Se antes da pandemia havia uma separação, uma distinção entre as vidas matáveis e aquelas que deveriam ser preservadas, essa fronteira perde seus contornos.

Neste ponto encontramos a enorme contradição atual do governo Bolsonaro: eleito prometendo segurança à população, segurança, sobretudo, contra os riscos da morte face à violência, ele agora revela seu desprezo mais absoluto em relação à vida, àquelas que ele prometia proteger. Se antes a liberdade se subordinava à segurança, agora a liberdade se sobrepõe à vida.

Mas essa contradição é apenas aparente e logo se dissolve a medida que os platôs populacionais adquirem novas consistências. A pandemia, assim como a exposição à morte ontem e hoje, não é a mesma para todos. Enquanto as gentes que precisam de leitos em hospitais públicos agonizam sem ar, enquanto o número de infectados cresce nas áreas mais carentes do Brasil, enquanto se multiplicam os números de pessoas em situação de rua, os niilistas das "zonas sul" espalhadas pelo país exibem com soberba os seus privilégios, reivindicando o direito "fundamental à liberdade", afinal, o pico da Covid-19 há muito que passou nas classes altas, como vaticinou o presidente da XP investimentos dois meses atrás, e o empreendedor, esse homem da "destruição criadora", não pode parar.

Obviamente que nem todos os cérebros dessa classe média e elite brasileira, herdeiros da tradição escravagista, concordam com os inocentes do Leblon ou com as madames endinheiradas do Morumbi e seus chicotes Prada à mão. Mas, o que pensa essa gente? Onde estavam quando se elegia essa horda de homens nefastos, adoradores da tortura, da morte e do horror?

Em 1850 o escritor russo Ivan Turguêniev cunhou o termo lichnie tcheloveki, o homem supérfluo que dominaria a literatura russa na segunda metade do século e no século seguinte. Designava uma espécie de homem que orbitava as estruturas de poder sem, no entanto, compô-la. Era o homem idealista e bem instruído, que teve acesso formal à educação num contexto de brutal desigualdade social, em que a servidão era instituída na Rússia Czarista, entretanto seu idealismo e valores humanitários não eram capazes de mobilizá-lo e de mobilizar as estruturas de poder.

O homem supérfluo era a outra face, o reverso do niilista, tipo também talhado pelo mesmo Turguêniev uma década depois, no ruir da servidão no país. O niilista era a representação do homem sem qualidades, orientado pelo "nada" como valor, mas provido de ideias práticas e de ação. Posteriormente o termo adquiriu novas nuances; apropriado por ninguém menos que Friedrich Nietzsche, passou a designar a destruição de todos os valores, de modo a solapar o ethos comum a partir do qual uma sociedade historicamente determinada pode se pensar e ser pensada.

Se, de um lado, em solo brasileiro, temos a distinção bem marcada entre os nefastos de sempre e o matáveis de toda hora, os acontecimentos Bolsonaro-pandemia nos apresentaram a outros modos de subjetividade, antes escamoteadas por essas bandas: o supérfluo e o niilista tupiniquim, obviamente guardadas as devidas distâncias históricas, políticas e sociais do contexto em que os termos foram forjados; aqui, esses tipos se imbricam, confundem-se, rebatem-se, compondo uma massa que flutua ao sabor dos acontecimentos. Há uma dança constante entre aqueles que, idealizando um futuro possível, detêm-se nas impossibilidades do momento, e um tipo outro o qual, não acreditando em mais nada, busca destronar a política e desmantelar a sociedade num "tudo vale". É esse homem niilista que tem sido mobilizado constantemente em altos níveis de afeto.

Certamente um dos maiores legados de Bolsonaro foi o de ter agudizado as distâncias históricas, sociais e econômicas que rasgam o tecido social. Mais ainda, o grande mérito do bolsonarismo é o de conseguir exercer um poder que não cessa de incitar a liberação de sentimentos sob a forma de ação a partir da mobilização violenta de fluxos de energia, de desejos inconscientes e de comportamentos reprimidos. Afetos gerados no caldo do ressentimento social dos brancos que viram na última década suas prebendas ameaçadas, das brancas que perderam suas "escravas domésticas", dos jovens que tiveram que dividir a sala da universidade com os pretos, os pobres e os nordestinos, ainda que com desequilíbrio ou assimetria.

Se o medo foi mobilizado pelo bolsonarismo para ganhar as eleições, o ódio é o afeto que o mantém e o sustenta, como alguns pesquisadores brasileiros já apontam, o ódio a qualquer outro mundo cuja diferença é percebida como portadora de desejos que ameaçam o seu mundo de privilégios. O bolsonarismo é, sobretudo, a revolta do macho hétero de classe média, questionado em suas expressões fundamentais.

 Essa problemática foi bem analisada pela cientista política Wendy Brown no contexto dos Estados Unidos. Segundo a sua hipótese, a eleição de Trump revela a combinatória do niilismo, provocado pelo neoliberalismo que fez ruir os valores sociais, como a democracia, a igualdade e a solidariedade, com uma dessublimação repressiva, ou seja, a liberação dos afetos mais primordiais e indizíveis – agora gritados sem qualquer traço de vergonha em praça pública – que gera essa espécie de "humanidade sem projeto senão a vingança".

Qual a concepção de homem, de vida e de mundo que o bolsonarismo escancara na pandemia?

Nessa visão de mundo, o homem se reduziu à busca feroz dos próprios valores, constituídos, sobretudo, no apelo à liberdade desenfreada que reduz o outro, qualquer outro, a mero instrumento de seus desejos. A vida, assim transformada na busca dos próprios interesses, achatou-se à sobrevivência do mais apto, reativando o ideal liberalista de Herbert Spencer para quem as leis da evolução seriam aplicáveis, também, ao campo social, numa torção magnífica do darwinismo, pervertendo-o em darwinismo social. O mundo, por fim, tornou-se a arena da selvageria moderna com seus átomos sociais orbitando em torno da barbárie.

O tipo nefasto, que cultua a violência e a sordidez, somou-se ao niilista. A destruição é o princípio organizativo da ação de Bolsonaro e de seus seguidores.

Do Leblon ao Palácio dos Bandeirantes, o absurdo, na visão de mundo bolsonarista, não é a destruição do que ainda nos resta de civilidade, mas sim que questionemos as suas práticas. O absurdo é tentarmos sair na inação que tenta nos capturar nesses dias de angústia, pois seu projeto político fundamental é transformar-nos: a uns, em supérfluos, incapazes de ação política efetiva; a outros, ainda mais matáveis, historicizados na medida das suas quantidades.

Não estamos, agora com a pandemia, normalizando as mortes, porque a morte de segmentos específicos da população sempre foi normalizada na soma das nossas barbáries, sob o silêncio cúmplice dos idealistas de ocasião.

Mais que tecido social, essa imagem de um plano inteiro e coeso, poderíamos falar em uma costura de retalhos na qual as emendas compõem um todo fragmentado que não se reconhece exceto pela junção arbitrária de suas partes: essa é a imagem formada e refletida no espelho da nossa história.

Obviamente, qualquer "povo" é formado por diferenças e heterogeneidades, as quais devem ser respeitadas se se leva a sério a tarefa humana da coabitação. A nossa miséria histórica, agora tão bem refletida, é a de uma tentativa de sutura que exclui componentes massivos da população cujo reconhecimento só é possível, quando é, na fria estatística dos banais

Tatiane de Andrade é Graduada em Psicologia, Mestra em Psicologia Social e Política pela UFS, Doutoranda em Teoria Psicanalítica pela UFRJ




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