Sociedade e Cultura

Cesarianas viraram moda no Brasil. E, também, agora, suas festas extravagantes para observá-las

 

17/06/2019 16:04

Os membros da família tiram as primeiras fotos do bebê de Mariana Casmalla, Lorena, entregue por cesariana no Hospital Maternidade Albert Einstein, em São Paulo, Brasil. (Pétala Lopes/Washington Post)

Créditos da foto: Os membros da família tiram as primeiras fotos do bebê de Mariana Casmalla, Lorena, entregue por cesariana no Hospital Maternidade Albert Einstein, em São Paulo, Brasil. (Pétala Lopes/Washington Post)

 
As mulheres de luvas brancas colocaram chocolates e bolos em bandejas de prata. Elas encheram os vasos de cristal com rosas. Agora os convidados começavam a chegar . Mariana Casmalla havia sido enfeitada, escovada e ajeitada em preparação para esse momento.

Ela estava pronta para sua cesária.

"É uma ocasião especial”, explicou Casmalla, uma cirurgiã-dentista de 28 anos, fechando os olhos profissionalmente maquiados.

“Não nos vestimos para festas e datas especiais? É a mesma coisa.

As cesarianas agendadas são há muito tempo um símbolo de status entre a elite brasileira, uma forma de algumas das mulheres mais ricas do país evitarem a imprevisibilidade do parto natural. O país tem uma das taxas mais altas de partos cesarianos no mundo - eles respondem por 55,5% de todos os partos no Brasil, chegando a 84% em hospitais privados, de acordo com o Ministério da Saúde. A taxa nos Estados Unidos para todos os hospitais é de 32,9%.

Agora, o fenômeno está inspirando uma nova indústria de planejadores de festas, maquiadores e fornecedores, focada em transformar essas operações altamente orquestradas em espetáculos de casamento, produzidos para o público.

O evento principal: o nascimento em si, visto por familiares e amigos de uma galeria construída para esta finalidade.

Uma sala está preparada para uma Celebração de cesaria na Maternidade do Hospital Albert Einstein. (Pétala Lopes/ Washington Post)

A sala presidencial do hospital São Luiz, em São Paulo, tem seu aluguel na faixa de US $ 500 por dia. (Pétala Lopes /Washington Post)
 

Membros da família esperam no São Luiz. (Pétala Lopes /Washington Post)

No hospital privado São Luiz, em São Paulo, uma futura mãe pode fazer o cabelo e a maquiagem no próprio quarto do hospital. Por 2.000 reais por dia - cerca de US $ 500 - sua família pode alugar a suíte presidencial, com sala de estar e banheiro para os convidados, com varanda e frigobar. As mães podem solicitar suas flores e revistas favoritas, e até mesmo trocar os móveis, caso entrem em conflito com as decorações planejadas. Uma maternidade de 22 andares, agora em construção, incluirá uma adega e um salão de festas.

“É cultural”, disse Marcia da Costa, diretora do hospital. “Os brasileiros querem planejar tudo. Eles não querem enfrentar o trânsito a caminho do hospital. Eles querem fazer as unhas, se depilar, planejar como se fosse um evento.”

Ainda assim, da Costa e outros profissionais de saúde são ambivalentes. A Organização Mundial da Saúde há muito faz campanha para reduzir as cesarianas agendadas, que são quase duas vezes mais letais para as mães do que os partos naturais e exigem mais tempo de recuperação para mães e bebês.


Porcentagem de cesárias dentre todos os nascimentos por país

No Brasil, autoridades de saúde pública e alguns dos principais médicos do país têm trabalhado para curar a classe alta de sua predileção para o procedimento.

Os custos variam, mas as cesarianas geralmente são mais caras que os partos naturais. Embora o risco de morte materna em hospitais privados bem equipados seja baixo, a hemorragia e a infecção são mais prováveis em uma cesariana agendada do que em um parto natural. Para os bebês, as cesarianas têm sido associadas a taxas mais altas de desconforto respiratório, diabetes e pressão alta.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 10 por cento dos nascimentos exigem uma cesariana.

"Aqui nós tivemos as estatísticas opostas", disse Rodrigo Aguiar, diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar do Brasil, que regulamenta hospitais privados.

Os números foram ainda mais altos durante os meses de férias, disse ele, quando as mulheres e os médicos agendam cesarianas antes que o bebê estivesse pronto para nascer. Isso elevou a taxas de problemas respiratórios em bebês e permanências hospitalares prolongadas tanto para mães quanto para bebês.

“Vimos que precisávamos reavaliar esses percentuais e garantir que as decisões de nascimento estivessem voltadas para a saúde da mãe e da criança, e não por conveniência”, disse Aguiar.


Cesárias no Brasil pelo nível de educação

O Ministério da Saúde do Brasil tomou medidas para reduzir o que chama de “epidemia” cesariana. Em 2016, o governo proibiu cesarianas clinicamente desnecessárias antes de 39 semanas.

As mulheres brasileiras historicamente tiveram bons motivos para temer o parto natural. O sistema de saúde pública sobrecarregado do país faz com que que os médicos e enfermeiros não tenham recursos para monitorar de perto as mulheres através de horas de trabalho. As cesarianas permitem que a equipe monitore de perto as mães por um período de tempo mais curto.

Nos hospitais privados, o procedimento ganhou tanto entre as mães - que querem que seus médicos, e não a equipe de plantão do hospital, realizem o parto de seus filhos - e entre os médicos que fazem malabares com suas agendas lotadas.

Olímpio de Moraes Filho, membro da Federação Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia, diz que as cesarianas se encaixam em alguns estilos de vida.

"As cesarianas hoje são muito mais seguras do que há 30 anos", disse ele. "As coisas estão mudando As mulheres estão no mercado de trabalho. Casais estão se planejando para criar uma família."

No Hospital Maternidade Albert Einstein, em São Paulo, a festa começa antes do nascimento do bebê. Uma janela fosca que dá para a sala de cirurgia fica transparente para a cirurgia, permitindo que as visitas vejam o momento do nascimento.

 A família de Casmalla espera pelo bebê Lorena para chegar. (Pétala Lopes /Washington Post)
 
As famílias se preparam para ver o parto de Casmalla no hospital. Na foto estão a avó paterna Marisol Casmalla, 54, e a bisavó Nadir Pereira da Silva, 78 anos. (Pétala Lopes/Washington Post)
 

Um quarto luxuoso em Einstein. (Pétala Lopes/Washington Post)

Quando Casmalla foi levada para a sala de cirurgia, 15 de seus familiares e amigos mais próximos ficaram para trás. Eles se reuniram em torno da janela, ouvidos pressionados contra a parede, ouvindo o primeiro gemido do bebê.

Quando o médico puxou Lorena da incisão no abdômen de Casmalla, a janela ficou transparente. Casmalla fez ao público um sinal de positivo.

"Ela está aqui!", disse a sogra de Casmalla, Marisol, chorando. Parentes assistindo no FaceTime pediram para ver mais de perto.

Paula Ascar Baracat é co-fundadora do Estudio Matre, um serviço de planejamento de festas que é especializado em maternidades. Ela diz que as novas mães preferem cada vez mais receber visitas no hospital, em vez de em casa.

"A mãe acabou de dar à luz, ela está aprendendo a amamentar, ela não quer receber ninguém em casa", disse Baracat. "Então, enquanto ela está se preparando para o nascimento, estamos nos preparando para receber."

Os clientes da Baracat gastam mais de US $ 10.000 em serviços que incluem arranjos florais, livros de visitas, lençóis bordados, garrafas de água personalizadas e lembranças em prata para os convidados.

As mulheres que têm partos naturais muitas vezes também procuram esses serviços. Nina Materna, outro serviço de planejamento de festas, tem três linhas diretas que as mulheres podem ligar quando entram em trabalho de parto. A empresa promete ter esterilizado completamente as decorações dentro de oito horas. Mas as cesarianas permitem às mães outro nível de planejamento.
 

Nina Materna anuncia seus serviços de organizador de festas em uma feira de produtos para bebês. (Pétala Lopes/ Washington Post)
 

Nina Materna, outro serviço de planejamento de festas, tem três linhas diretas que as mulheres podem ligar quando entram em trabalho de parto. (Pétala Lopes/Washington Post)

Em 2015, Linus Pauling Fascina, diretor da maternidade de Einstein, reuniu médicos, doulas, parteiras, ativistas feministas e autoridades do governo para discutir maneiras de aumentar a taxa de partos naturais nos hospitais privados brasileiros.

O grupo lançou o Projeto de Nascimento Apropriado, uma parceria entre 35 hospitais para priorizar os partos naturais entre a elite do país.

Um de seus primeiros passos foi trazer o luxo e a experiência familiar associados às cesarianas para o parto normal.

O hospital Einstein abriu cinco novos centros de parto natural com chuveiros e banheiras privadas. No hospital São Luiz, as mulheres que dão à luz naturalmente podem escolher a cor da iluminação de suas banheiras de hidromassagem nos quartos. As luzes de fada (Led) no teto podem ficar azuis ou vermelhas, dependendo do humor do paciente. Todos os quartos estão equipados com leitores de MP3 que os pacientes podem carregar com listas de reprodução personalizadas.

E os resultados vieram rapidamente! Em quatro anos, a taxa de nascimentos naturais no Einstein subiu de 18% para quase 50%. O programa se expandiu para mais de 200 hospitais.

"As mudanças devem ser simultâneas para todos: mulheres, suas famílias, seus locais de trabalho, médicos, enfermeiras”, disse Fascina. “Quando o marido chega e diz: 'Estou trabalhando, preciso saber a data do nascimento' - é aprender a planejar o não-planejado."

Para Bruna Viera, 32, um parto natural esteve sempre fora de questão.

"Não se encaixa com o nosso estilo de vida", disse ela. Sou médica e meu marido também. Temos uma vida muito planejada e tivemos que tirar férias para o bebê nascer”.

Bruna Viera, 32 anos, esquerda, recebe os membros da família depois de entregar o filho por cesariana. (Pétala Lopes /Washington Post)

Viera passou semanas planejando as bebidas e decorações para seu quarto de maternidade no São Luiz. Quando o bebê Arthur fez sua estreia no mês passado, seu quarto de hospital estava decorado com balões azuis e brancos, a geladeira estava abastecida com rum e com barril de cerveja envelhecida e a mesa de sua luxuosa suíte era forrada de suculentas - lembrancinhas para 80 convidados que ela esperava naquele fim de semana.

"Eu amo isso”, disse ela. “Você sente a ternura que as pessoas têm por você. Muitas mães sofrem de depressão pós-parto e se sentem isoladas. Seus hormônios estão à flor da pele. Mas estar cercado pelas pessoas que você ama, as pessoas que viram você crescer, é extraordinário”.

Quando meia dúzia de amigas de sua mãe murmuravam meiguices para o bebê, o marido abriu uma garrafa de vinho.

A avó Lucimeire Viera balançava o bebê Arthur em seus braços enquanto segurava um copo de merlot.

"Você vê, querido”, explicou ela para o bebê. "A vida é uma festa."

Correção: Olímpio de Moraes Filho é membro da Federação Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia - e não o presidente, como publicado originalmente. Esta peça foi atualizada.

Fernando Tagliarine, 32, segura o filho recém-nascido, Arthur. (Pétala Lopes/Washington Post)

*Publicado originalmente no The Washington Post | Tradução de Cristiane Manzato



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