Sociedade e Cultura

Clássicos em podcast: A barbárie que pulsa dentro de nós

 

24/01/2020 09:27

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Rádio Carta Maior 2020

CLÁSSICOS EM PODCAST
apresenta:

 A barbárie que pulsa dentro de nós

 Com a filósofa ALÉXIA BRETAS

Por Joaquim Palhares,  Saul Leblon e Carlos Tibúrcio .

***

E leia o texto de Saul Leblon:



 A nova barbárie do século XXI: sociedade como insumo do mercado; genocídio fiscal como virtude suprema; e carne humana barata fruto da concorrência e da automação.

Os intelectuais da Escola de Frankfurt  flagraram uma peça vital do mecanismo de enraizamento nazista: o aparelhamento ardiloso da Razão para servir de instrumento (hoje também de álibi) à barbárie.  Sobretudo atual ecoa a temática num Brasil onde a elite se uniu a extrema direita para erradicar qualquer espaço de democracia social na nação onde o 1% mais rico detém a maior fatia de PIB (28%) da face da terra.

Em nome da superior racionalidade dos livres mercados opera-se aqui a nova barbárie do século XXI: a defesa da sociedade como insumo do mercado, do genocídio fiscal como virtude suprema e da carne humana barata como decorrência irrecorrível da concorrência e da automação.

Por Saul Leblon

Por que a humanidade em vez de inaugurar um estágio verdadeiramente virtuoso da história  --embalado na singular abundância dos meios materiais agora disponíveis -- flerta com assustadoras modalidades de regressão e barbárie?

Os avisos luminosos às vezes cegam, tão literais se apresentam. Como o do pastiche do então secretário da cultura brasileiro que acabou de saltar do anonimato para a repugnância ao personificar a ressurgência disso que passou a ser a marca do Brasil na cena mundial: a asfixia da sociedade por um garrote  virulento no qual se entrelaçam as elites, o dinheiro e a força-bruta de uma escória fascista perigosamente alçada ao comando do Estad0 brasileiro.

O corpo e a alma do nosso tempo reverberam a constatação que adquire aqui angustiante pertinência: a barbárie já pulsa dentro de nós.

É urgente retomar o comando do nosso destino, antes que fique escuro demais.

Que chance tem a transformação social nesse círculo de ferro e, sobretudo, como construí-la?

Foi essa inquietação –formulada pioneiramente nos anos 20, na Alemanha--  que celebrizou o pensamento da Escola de Frankfurt, formada no Instituto para a Pesquisa Social --criado em 1924 naquela cidade alemã, e que imantaria vozes célebres do mal estar da civilização, entre elas as de Adorno, Horkheimer, Walter Benjamin, Marcuse e outros.

Karl Marx já havia previsto a abundância a partir da interação entre a ciência e o capital fixo, como deixou exposto nos Fragments of Machine, uma das anotações reunidas nos seus  ‘Grundrisses’, de 1858, que serviu de roteiro a ‘O Capital’.

Mas foi esse punhado de intelectuais alemães que teve a oportunidade de constata-la na prática, ao mesmo tempo em que vivenciaria a sua inesperada contrapartida sombria: a ascensão do horror nazista em uma das sociedades mais ricas, cultas e organizadas da face da terra, a Alemanha dos anos 30.

A barbárie nacional socialista e a subsequente tragédia da Segunda Guerra mundial viriam arguir o fulgurante horizonte da esperança iluminista expandido entre 1789 e 1917 pelas revoluções francesa e russa.

O diálogo da Teoria Crítica frankfurtiana –avessa a qualquer ‘certeza’ histórica— com a revolução e o marxismo deixou cicatrizes abertas.

Muitas  fricções porém ficariam datadas pelo efeito corretivo que o próprio desenvolvimento capitalista exerceria no campo das ideias progressistas, tornando difícil  falar atualmente em uma ruptura entre caminhos antagônicos.

A verdade é que a suposta crença na espiral inexorável do progresso  --a fé cega na ciência como tutora do futuro— carimbada pelos frankfurtianos como uma das armadilhas da Razão, a rigor nunca foi anuída pelo pensamento marxista.

É possível que o encantamento da Razão  --conforme Theodor Adorno e Max Horkheimer denunciariam em sua obra mais importante, ‘Dialética do Esclarecimento’, escrita a quatro mãos, em 1947—  possa ter seduzido Marx, Lênin e o resto do mundo diante da expansão esfuziante da técnica e da produtividade, leia-se da riqueza socializável, que a industrialização propiciaria a partir do século XVIII, abrindo espaço objetivo à transformação das formas de viver e de produzir a salvo da servidão da escassez.

Fazer do fatalismo da Razão um atributo conceitual marxista, porém, borra a divisa entre debate intelectual e calúnia.

Como mostram os pensadores alemães na obra citada, a racionalidade e a irracionalidade (o mito, por exemplo)  já se entrelaçavam nos primórdios da narrativa humana, como se observa em personagens heroicos e sobremaneira astutos diante dos fatos, caso do ladino Ulisses, na ‘Odisseia’ de Homero.

A precedência dessa mescla chamou a atenção de Adorno e Horkheimer por desmentir a ruptura Iluminista e, ao mesmo tempo, expor uma ambivalência que no seu entender favoreceria o aparelhamento da racionalidade como instrumento da barbárie.

“Para os frankfurtianos o nacional socialismo foi a prova cabal de que a civilização e o Ocidente fundados no esclarecimento iluminista tinha um problema.



E ele  não se resolveria apenas com mais progresso, mais ciência e mais Razão’, explica a filósofa Aléxia Bretas, professora da Universidade Federal do ABC, que nesta quarta edição da série Clássicos em Podcast, da Carta Maior, apresenta aquela que considera uma das obras mais importantes do século XX: a ‘Dialética do Esclarecimento’, de Max Horkheimer e Theodor Adorno.

Inaugurada com o iconoclasta pensamento de Herbert Marcuse, apresentado pelo economista e professor Márcio Pochmann, a série Clássicos em Podcasta debruçou-se em seguida na atualíssima tese da banalidade do mal, de Hanna Arendt, discutida pela filósofa Olgária Matos e, mais recente, trouxe o pensamento divisor de Karl Marx na reflexão do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, a partir dos Grundrisses  --- os rascunhos nos quais  o filósofo alemão  mapeou seu magistral plano de voo para escrever ‘O Capital’.

Marx antecipa ali os dois vetores que se confirmariam determinantes em nosso tempo: a supremacia tóxica do capital fictício --a chamada financeirização; e a prodigiosa automação tecnológica gerada pelo ‘intelecto coletivo’ –do qual o investimento estatal em pesquisa e inovação é indissociável-- que colocaria a humanidade hoje no limiar de uma abundância, apenas sonegada pela apropriação privada da fartura apta a instaurar a sociedade do bem comum entre nós.

Nessa perigosa noite escura de uma página da história represada por massas de interesses gigantescos navega a transgressiva nau das oportunas arguições intelectuais entre marxistas e frankfurtianos.

O ponto cego nas promessas do estirão da ciência, do progresso e da civilização é o tema desta nova edição dos ‘Clássicos em Podcast’.

O rigor intelectual do think tank alemão não ignoraria a dominação de classe que interdita a correnteza da história humana nos limites atuais.

Herbert Marcuse, um dos expoentes de Frankfurt, deixa muito clara a percepção de um futuro politicamente obstruído ao discorrer sobre o fim da utopia –‘não por ser impossível’, mas desnecessária, dado que qualquer idealização protelatória nega o que já está consumado do ponto de vista material.

O subtexto dessa página subtraída da história é justamente a virulência dos meios necessários para manter vazio o oco onde balança a palavra ‘revolução’.

‘Existem hoje todas as forças materiais e intelectuais necessárias à formação de uma sociedade livre’, afirmava Marcuse às plateias dependuradas num desses trapézios sem rede da história –a rebelde década de 60 na Europa.

‘O fato de que não sejam utilizadas deve ser imputado exclusivamente a uma espécie de mobilização geral da sociedade (para resistir) a sua própria libertação.

Mas isso não basta de nenhum modo para tornar utópico o projeto de transformação’ (‘O fim de utopia’, H. Marcuse, 1967).

A persistência da interdição três séculos depois das promessas das Luzes é fruto da repressão –não apenas policial, mas racional que o esclarecimento faculta a uma ordem dominante congestionada pela superprodução, ora sobretudo de capitais fictícios, mas também de capital fixo ocioso.

Expor a complacência iluminista diante do seu uso como freio à transformação  é o alerta frankfurtiano a qualquer  plataforma comprometida com a renovação das formas de viver e de produzir reclamadas –e tecnicamente possíveis— mas sonegadas pela ordem dominante.

A progressiva convergência entre frankfurtianos e marxistas no diagnóstico da barbárie atrás da porta não elimina o conflito de ideias quanto ao seu enfrentamento e superação.

Um parafuso espanado reside justamente na porosidade original que teria levado o esclarecimento (Iluminismo) a se tornar um instrumento da ordem, uma espécie de ‘uber verdade’ a serviço da naturalização de absurdos que fazem da sociedade de massas um redil de embrutecimento social e subjetivo.

Estamos falando de hoje, não da Alemanha dos anos 30. A necessidade desse esclarecimento fala por si da pantanosa ressurgência do horror, protagonizada agora como farsa por uma escória de aprendizes do diabo.

As possibilidades de manipulação da sociedade nunca foram tão ubíquas e letais.

Terraplanismo e negacionismo ambiental são apenas duas atrações dessa galeria alucinógena encapsulada em fake news que editam a política, a mídia, o governo, a moral, a lei, a religião, a ética, as estatísticas, as imagens e os sentimentos, fazendo tábula rasa da história e da subjetividade.

Os intelectuais da Escola de Frankfurt identificaram na Razão instrumental o fruto amargo de uma violência que concluíram ser intrínseca ao Esclarecimento.

Para Adorno, Benjamin, Horkheimer entre outros, a supremacia da Razão iluminista embutiria uma pretensão totalizante que esmagou três dimensões da natureza, tratadas como inferiores pelo Esclarecimemto, a saber: I) a dominação implacável sobre a esfera vegetal e animal; II) a dominação das pulsões e dos desejos íntimos e subconscientes, tidos como sentimentos menores pelos iluministas, e III)  o corolário dos anteriores, a dominação do homem pelo homem, que passa a ser racionalmente estruturada, a exemplo de todo o Ocidente.

O conjunto ergueria em pedra e a cal os alicerces da sociedade totalmente administrada do nosso tempo, ou a sociedade unidimensional de Marcuse na qual a manipulação da subjetividade e do subconsciente teria um papel crucial no controle das rupturas, incluindo-se entre esses freios a mídia e a indústria cultural.

O bafo da barbárie sopra continuamente desse imenso panóptico de Foucault  ‘avant la lettre’, que manipula os dotes da Razão para induzir, vigiar, premiar, punir e fragmentar – esmagar o discernimento crítico e prostrar a subjetividade.

Somente assim é possível sustentar que, justamente quando a abundância se instaurou  no apogeu capitalista da fusão da ciência com o maquinismo, venda-se como racional -- mais que isso, inexorável,  que a civilização não possa mais arcar com seus idosos, não tenha outra  meritocracia a oferecer à infância pobre que não o salve-se quem puder e nenhuma notícia aos deserdados exceto a reiteração de um futuro igual ao presente de sangue, suor e lágrimas.



É nessa escalada sem esperança que ‘absurdos respaldados em dogmas religiosos, econômicos ou no discurso de autoridades, enfim, as fake news operam diuturnamente na sedimentação das novas verdades, racionalmente propagadas’, explica a filósofa Aléxia Bretas.

A manipulação das pulsões humanas pela publicidade –seja para induzir o consumo de massa, o conformismo religioso ou a mansidão política--  confirma o recurso alienante da razão instrumental na formatação das novas necessidades e dependências que levam a servidão a se retroalimentar pela ação dos próprios servos.

A Adorno e Horkheimer não passariam desapercebidos os pontos em comum entre a sociedade nazista alemã e a sociedade afluente norte-americana dos anos 50, ambas atadas à manipulação racional e publicitária dos desejos,  gerando concentrações humanas totalmente administradas, ou unidimensionalizadas na denominação de Marcuse –alienadas, resumiria o marxismo.

Cabe um esclarecimento sobre os limites do esclarecimento.

Se ele foi adestrado pelo capital, como se evidencia,  nem por isso o ardil foi suficiente para extirpar a contradição e o conflito na carne viva de uma sociedade estruturada na lixiviação de uma parte sobre a outra.

Dessa fricção inclemente sangram sobras humanas, angústia, desigualdade e desespero.

Novas necessidades devem ser providenciadas em vertiginosa espiral para assegurar que os oprimidos reforcem a própria opressão.

A cordura do pescoço é a peça chave do garrote.

A engrenagem perversa é midiaticamente polida para irradiar a sensação de um moto perpétuo inoxidável.

Mas há ferrugem nas dobras retorcidas do vil metal que enfeixa a cadeia.

A corrosão irrompe em um detalhe menor, subestimado pelos serviços de manutenção da ordem e do lucro. Num átimo, porém, tudo se  revira em  insurgência desgarrada movida por massas gigantescas de insatisfação, ressentimento e sonhos reprimidos.

Vivemos a era das rebeliões.

Mas ainda sem expressão política –sem programa e desassombro organizativo-- à altura do seu poder transformador.

Quem pensou no Chile entendeu os limites da razão instrumental e da sociedade totalmente administrada.

Como é possível que surjam novos portadores sociais da transformação se a existência de forças revolucionárias é descartada, nos seus próprios termos, pela ubíqua administração da subjetividade?

‘Os portadores da transformação social se formam no curso do próprio processo de transformação não se podendo contar jamais com a existência de forças revolucionárias pré-fabricadas’ (Herbert Marcuse).

Essas prefigurações do futuro são vitais para deixar marcas de sua viabilidade na subjetividade do presente.

O novo panfleto subversivo do nosso tempo são as práticas que afrontam a razão instrumental e escancaram as condições técnicas e intelectuais à superação da barbárie cotidiana (ad) ministrada pelo capitalismo.

O arrocho neoliberal é apenas mais um aparelhamento da Razão para perpetrar a barbárie.

O oposto disso não é a mitigação, mas a negação inteiriça das bases da sociedade desumanizada.

Um programa que dê à opressão o seu nome não nega a negociação: a negociação é uma decorrência da correlação de forças.

Mesmo no longo curso, porém, o rumo não pode  ser amesquinhado sob pena de não se chegar a lugar nenhum, exceto ao descrédito e à indiferença.

O rumo é o que Marx, Marcuse, Horkheimer e outros sinalizam como o passo seguinte da nossa história: a sociedade do bem comum.

Irrealismo?

Atentem para o que tem dito o Papa Francisco.

Extrapolem para outras frentes o projeto do MST de plantar 100 milhões de árvores a contrapelo da devastação sancionada pela escória no poder.

E ouçam a filósofa Aléxia Bretas.

Ela  vai nos falar disso. Da importante contribuição da Teoria Crítica desenvolvida pela Escola de Frankfurt, em especial de Adorno e Horkheimer, para o entendimento do sofisticado sistema de dominação no qual vivemos. E dos desafios e requisitos à transformação da sociedade totalmente administrada do nosso tempo.

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