Sociedade e Cultura

Clássicos em podcast: Keynes: Contra a asfixia da nação, a eutanásia do rentista

Com Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo

07/06/2020 14:28

 

 
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CLÁSSICOS EM PODCAST
apresenta:

John Maynard KEYNES

CONTRA A ASFIXIA DA NAÇÃO, A EUTANÁSIA DO RENTISTA

Com os professores e economistas LUIZ GONZAGA BELLUZZO e GABRIEL GALÍPOLO

Uma conversa profunda e didática sobre o intelectual que inspirou Roosevelt e o New Deal, apontando a atualidade keynesiana na encruzilhada brasileira.

Por Saul Leblon (coordenação desta edição), Joaquim Palhares e Carlos Tibúrcio.

***

Reflexão para a ação. Esse é o propósito da Rádio Carta Maior com o programa ‘Clássicos em Podcast’, que traz obras e pensadores indispensáveis à compreensão dos impasses da sociedade em nosso tempo e da ação engajada para transformá-la.

Os teóricos da série Clássicos em Podcast são apresentados por grandes intelectuais brasileiros que já conduziram os ouvintes às obras e ideias de Marcuse, Adorno, Hannah Arendt, Horkheimer, Gramsci e Karl Marx.

Você poderá ouvir os episódios dessa coleção acessando o link do programa ‘Clássicos em Podcast’ no site da Carta Maior (https://bit.ly/3cvdhK9)

Neste novo capítulo do programa, vamos conhecer a vida e a obra de um economista cuja atualidade foi renovada pela desordem mundial do neoliberalismo, dramaticamente exposta agora na crise da pandemia.

Estamos falando de John Maynard Keynes.

O economista inglês, cuja obra mais conhecida é a 'Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda', nasceu no ano em que Marx morreu, 1883.

Sua vida e obra foram marcadas por alguns dos acontecimentos fundadores dos séculos XX e XXI.

Keynes tinha 34 anos quando aconteceu a Revolução russa, que instituiu o primeiro poder operário do mundo.

Viveu duas guerras mundiais mediadas pela Grande Depressão de 29.

Assistiu à ascensão do nazismo nos anos 30 – para cujas causas alertou, premonitoriamente, em um livro de 1919, ‘As consequências econômicas da Paz’, no qual critica as reparações asfixiantes impostas à Alemanha ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Fez parte da representação inglesa em Bretton Woods, na conferência que redesenhou o mundo depois da Segunda Guerra (1939-1945).

Culto, avesso ao falso puritanismo vitoriano, casou-se com a bailarina Lydia Lopokova, frequentou círculos libertários e intelectuais, leu Freud e foi influenciado por Marx --mais do que gostava de admitir.

Suas ideias inspiraram Roosevelt e o New Deal, mantendo-se influentes mesmo depois de sua morte, em 1946. Elas estavam presentes na arquitetura do Estado do Bem Estar Social, que permitiu avanços econômicos e humanos efetivos por mais de três décadas – os chamados ’30 anos dourados do capitalismo’, do fim da Segunda Guerra até meados dos anos 70.

As bases do bem -estar social, ancoradas em mercados regulados pelo Estado, ampla rede de proteção social e o pleno emprego como meta (hoje a meta é o equilíbrio fiscal para solver os títulos da dívida pública, que dão lastro à riqueza financeira), começaram a ser demolidas com a chegada de Margareth Thatcher ao poder, na Inglaterra, em 1979.

Com a ‘Dama de Ferro’ sobreveio o mundo comandado pela supremacia dos mercados financeiros desregulados, como preconiza, ainda, o agendamento neoliberal da sociedade.

‘Não há alternativa’ (à soberania dos mercados), dizia Thatcher, seguindo-se a sua explicação para isso: ‘A sociedade não existe, o que existe são indivíduos’.

A ‘coesão dissolvente’ pelos mercados e o desmanche do princípio da solidariedade, desbancado pela miragem da meritocracia num deserto de equidade, produziu a sociedade na qual vivemos.

Nela, torna-se cada vez mais difícil respirar.

A percepção da asfixia que não afrouxa o garrote – agrava-o, mostra a pandemia-- trouxe de volta o interesse pelas ideias de Keynes.

Trata-se de salvar a vida debaixo do joelho pesado da ganância argentária.

O ouvinte deste Clássicos em Podcast terá o privilégio de ser conduzido às ideias de Keynes pelas vozes dos professores Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo, economistas e parceiros em livros (‘Escassez na abundância capitalista’, é um deles) e artigos .

Belluzzo domina o tema como ninguém: estuda e escreve sobre Keynes e Marx há mais de 40 anos.

Um de seus livros mais recentes, ‘O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo’ (Editora Contracorrente) teve a primeira edição esgotada, caminho provável da segunda fornada diante do pertinente interesse pelo tema que debate.

Reconhecido como um dos maiores intérpretes de Keynes no mundo, Belluzzo distingue-se de outros como o interlocutor equiparável, que estendeu as fronteiras do autor e da obra ao enxergar na radiografia keynesiana do circuito do capital pontos essenciais de contato com Marx.

A ponte belluzziana entre os dois faróis gigantes que jogaram luz no sistema capitalista converge para o núcleo duro do sistema, a acumulação financeira, que liberou os detentores da riqueza da irrevogabilidade do investimento produtivo.

Marx e Keynes viram aí o cérebro do sistema.

Um cérebro que, deixado à própria lógica, atinge a obsessão pelo acúmulo da riqueza abstrata –o dinheiro, a liquidez, os ativos imediatamente solváveis.

Nessa espiral, ele destrói todas as formas de regulação à frente: a sociedade, toda ela, é um estorvo à dinâmica ensandecida. Projetos de governo, soberania, direitos, escrutínios democráticos, o meio ambiente ... Tudo o que é sólido deve ser dissolvido no ar.

A riqueza abstrata, comme il faut, abstrai a passagem do capital pelas incertezas inerentes ao processo produtivo .

A reprodução celibatária se faz na ciranda financeira: em vez da tríade Dinheiro- Mercadoria- Dinheiro (D-M-D), salta-se o chão do investimento em nova capacidade produtiva --o que não exclui privatizações predadoras e participações rapinosas nas já existentes: Dinheiro -Dinheiro (D-D).

As consequências são dramáticas para a vida em sociedade.

Mas não se trata de uma anomalia, ensina Belluzzo.

Ao contrário.

Vivemos o apogeu de um sistema que atinge seu ápice na acumulação da riqueza abstrata, elevando exponencialmente os vetores da desigualdade no acesso a bens e ao poder.

É um pouco isso que as ruas estão gritando em várias esquinas do mundo.

Como fazer com que as promessas de liberdade, justiça e autonomia, inerentes ao potencial desenvolvido por esse maquinismo do desequilíbrio dinâmico, que gera ‘escassez na abundância’, se cumpram?

É justamente a busca dessa resposta que levou Keynes e Marx a se debruçarem na dissecação do seu núcleo duro, o cérebro financeiro que comanda o sistema.

Não apenas para entendê-lo.

A proposta keynesiana para enfrenta-lo está ancorada na firme ação indutora do Estado no circuito do dinheiro na economia.

Em síntese, trata-se de promover ‘a eutanásia do rentista’, diz Galipolo, citando uma máxima de Keynes na gravação deste Clássicos em Podcast.

Implica baixar a taxa de juro até tornar inviável a opção pela liquidez rentista.

Mas não só.

É preciso também irrigar com muito dinheiro o circuito da produção, garantindo que os bancos cumpram seu papel de produzir e distribuir crédito –oferecendo-lhes o lastro de um fundo garantidor que imponha limites às taxas de juros e contrapartidas ao tomador. Entre elas, não demitir trabalhadores.

Ao mesmo tempo, adianta Belluzzo, é preciso um programa de investimentos públicos diretos em infraestrutura e logística social, para dar tração indutora a essa engrenagem.

O recursos necessários devem ser reforçados com uma terceira perna política: a tributação progressiva da riqueza, de modo a elevar a receita pública e induzir o investimento produtivo.

Como arremate, Belluzzo e Galípolo advogam a instituição do controle de capitais.

Sem ele, todo esforço produtivo redundaria em evasão de divisas e saque das reservas – no caso brasileiro elas somam hoje US$ 350 bilhões de dólares, US$ 30 bilhões abaixo do total deixado pelos presidentes Dilma e Lula.

Alheio a essa arquitetura de um Estado democrático altivo, o governo Bolsonaro joga todas as suas cartas em uma impossível volta ‘ao normal’. Por isso entende precipitar o fim do isolamento em pleno auge da pandemia, na esperança de que os mercados façam o resto: reativem a economia e promovam o crescimento.

‘Não vai acontecer’, adverte o professor Belluzzo nesta apresentação de Keynes.

A saída atabalhoada da pandemia, indica o intelectual, tornará os investidores ainda mais reticentes e fugidios, abrigados na liquidez estéril.

A espiral recessiva persistirá.

A alternativa é a que o conservadorismo brasileiro rejeita, mas o mundo cada vez mais incorpora.

Políticas keynesianas.

Boa audição e, não se esqueçam: as forças progressistas estão apenas no começo da árdua elaboração de um projeto de reconstrução nacional.

Ele só acontecerá com a organização popular capaz de sustentá-lo. E com uma mídia contra-hegemônica, com independência crítica para debate-lo e divulga-lo.

Organize-se, isso é crucial para o passo seguinte da história brasileira.

E, se puder, seja parceiro de Carta Maior nessa caminhada (contribua aqui https://www.cartamaior.com.br/pages/sejaparceiro/)

Joaquim Palhares, Saul Leblon e Carlos Tibúrcio



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