Sociedade e Cultura

Contribuições de Albert Camus para tempos de peste

 

16/04/2020 14:26

Edição de 'A Peste' em francês (Reprodução)

Créditos da foto: Edição de 'A Peste' em francês (Reprodução)

 

Eu gostaria de abordar aqui duas questões em torno da obra A Peste (1947), de Albert Camus. Primeiro farei uma breve incursão no contexto em que a obra foi publicada. Em segundo lugar, gostaria de apresentar uma opção interpretativa desta obra que considero pertinente ao nosso contexto atual, o contexto da disseminação do corona vírus. Essa opção interpretativa é uma leitura ético-existencial, o que considero imprescindível para sermos capazes de ressignificar a situação que estamos vivendo sem sucumbirmos a uma racionalidade lógico-matemática que se vale de justificações que nos colocarão, na História, não ao lado das vítimas, mas dos assassinos.

Muito bem. Uma opção interpretativa corriqueira para se ler A Peste é a aquela que a toma como uma tradução literária do que se passava na França de 1942, onde uma fragilizada, mas brava Resistência fazia frente a então irresistível Ocupação nazista. Muitas vezes esse contexto de onde a obra deriva é retomado para se interpretar um ponto de vista político oferecido nas entrelinhas por Camus, sobretudo na construção das trajetórias dos personagens Jean Tarrou e do médico Bernard Rieux.

Evidentemente esse modo de leitura é extremamente enriquecedor para os leitores de hoje que, por sorte, não vivenciaram os episódios mais terríveis do século XX, como o Holocausto – quem sabe mais terríveis de toda a história humana até aqui. Quem se interessar por esse modo de leitura, poderá se aventurar nos fervorosos embates que provocaram até mesmo desavenças contundentes entre Merleau-Ponty, Sartre, Camus e também Roland Barthes. Dessa chave de leitura política deriva uma série de argumentos e contra-argumentos, acusações e contra-acusações, que nos permitem ter um pano de fundo consistente, muito superior às simplificações e vulgaridades que muitas vezes tendem a pairar sobre algumas apressadas interpretações daquele conturbado e complexo contexto mundial.

Independentemente dos méritos e deméritos que se pretenda atribuir às posições políticas que Albert Camus assumiu ou deixou de assumir em sua obra, ao nos distanciarmos da temporalidade muito específica em que A Peste foi escrita, podemos nos aproximar de um de seus aspectos atemporais que ainda tem muito a nos dizer sobre nosso presente, talvez nos dizer mais do que sobre nosso passado. Refiro-me aqui especificamente à dimensão ética da obra, ou melhor, à sua dimensão ético-existencial. Claro que nos dias de hoje o termo ética foi banalizado a ponto de ter se tornado mero adjetivo, mas no momento em que Camus escrevia, tal termo ainda remetia a um problema filosófico, ou melhor, a um problema ético-existencial.

Não é por acaso que esta obra de Camus não envelhece, e passados mais de setenta anos desde sua publicação, ela ainda é capaz de ser lida hoje, em 2020, e nos arrebatar profundamente, como se tivesse sido escrita para nós. Essa atemporalidade não se deve apenas à genialidade artística de Camus, que é evidente, mas principalmente à sua perícia e ousadia ao lidar com o problema existencial. Se eu fosse traduzir isso, diria que, apesar de o mundo em que vivemos em 2020 ser completamente distinto daquele vivido quando A Peste foi publicada em 1947, esse curioso fato de vivermos, isto é, de existirmos, permanece sendo exatamente o mesmo. E isso suscita e continuará suscitando problemas muito semelhantes, perguntas e dilemas muito parecidos. E Camus foi um daqueles autores que ousou se debruçar justamente sobre isso.

Não é por acaso que hoje, quase que intuitivamente, muitos de nós estão recorrendo a esse autor franco-argelino. Na Europa, por exemplo, a procura por suas obras disparou. No Brasil, Camus não chaga a ser desconhecido, mas também nunca chegou a ser popular, o que é uma pena, porque, se pesquisarem sobre sua biografia, logo vão descobrir que ele tem muitas afinidades com os brasileiros, com os latino-americanos, mais até do que com os próprios franceses e europeus. Em todo caso, retornando ao ponto que quero abordar, é nessa outra leitura, nessa leitura desde o ponto de vista ético, existencial, onde considero residir a potência, não só de A Peste, como também de toda a obra literária e dramatúrgica de Albert Camus.

Para encerrar essa breve contextualização, eu queria apenas acrescentar um outro elemento que considero enriquecer a leitura deste livro em específico: acredito que para poder ser arrebatado pela contundência das obras de Camus é importante o leitor compreender o que cerca essa obstinação do autor por abordar temas que invariavelmente circulam em torno de perguntas como “Por que vivemos?”, “Como vivemos?”. Para descobrirmos algumas dessas razões mais profundas de sua obra podemos nos debruçar sobre um de seus ensaios mais poderosos: O mito de Sísifo (1941). Nele, Camus faz uma afirmação aparentemente inofensiva, mas que considero fundamental para extrairmos de A Peste um de seus sentidos mais profundos: “Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar”. Isso pode parecer singelo, mas é com essa afirmação que Camus aponta para o inimigo invisível que está sempre à espreita de todos nós: o hábito.

Começando aqui a abordar a opção interpretativa ético-existencial propriamente dita, precisamos dizer que, por um lado, o hábito assegura nossa sobrevivência, nossa tranquilidade, nossa segurança, nosso conforto; mas, por outro lado, ele nos poupa da angústia de pensar. Tudo isso nos parece ser muito bom, e de fato pode ser; mas isso tem um preço que às vezes se torna alto demais: sermos dilacerados por um desespero insondável quando tudo o que tomávamos como garantido, seguro, estável, previsível, sólido, simplesmente parece se desmanchar no ar.

É por isso que a “peste” pode ser considerada como tudo aquilo que provoca uma ruptura, uma crise, um momento no qual todos os hábitos são abruptamente dissipados e somos forçados a nos deparar com o fato bruto de que muitas das coisas que, até então valorizávamos acima de todas as demais, simplesmente se esvaziam de sentido. Do meu ponto de vista, essa é uma chave de leitura que nos permite extrair de A Peste uma interpretação que pode contribuir muito com o momento em que estamos vivendo. Mas se quisermos ver ainda mais concretamente como A Peste pode dialogar com a pandemia provocada pelo corona vírus, precisamos relembrar que Camus não advoga pela existência de fronteiras entre filosofia e arte, filósofo e artista. A consequência imediata disso é que, diferentemente de outros filósofos, que inclusive foram seus contemporâneos, a dificuldade das obras de Camus não está em decifrar os sentidos que elas carregam, mas em suportar sentir os sentidos que nos são expostos com tanta clareza por elas.

Como eu disse anteriormente, Camus aponta insistentemente para o papel que o hábito desempenha em nossa vida cotidiana, ele aponta para a facilidade com que nos habituamos a viver como vivemos, a raciocinar como raciocinamos, a desejar como desejamos. O hábito nos poupa de pensar e, portanto, ele também nos poupa de sentirmos vergonha de sermos como somos e fazermos o que fazemos. Em outras palavras, o hábito nos condena a sermos quem somos para todo o sempre, condenados, tal qual Sísifo em sua montanha, a um presenteísmo sem fim e sem sentido. Nunca esquecendo aqui que “sentido” remete a sentir.

Até poucas semanas atrás, por exemplo, muitos de nós estávamos tranquilos vivendo a vida que tínhamos a oportunidade de viver; de repente, alguma coisa invadiu nossas rotinas e destruiu nossos hábitos mais valorizados, arrancando de nós certezas sobre o futuro e nos fazendo colocar em questão o caminho que nos trouxe até aqui. Esse caminho repentinamente se mostrou não só individual, mas também coletivo. Até poucas semanas atrás, o que era tomado como natural, hoje é incerto. Esse sentimento é justamente aquilo que Camus denomina de “exílio” – outra temática muito presente desde seus primeiros escritos. O sentimento do exílio é retratado em A Peste como um vazio, um vazio que, graças aos hábitos, nós somos capazes de a ele nos mantermos indiferente, pelo menos até sermos acometidos por um evento como uma pandemia de proporções inimagináveis que nos obriga repentinamente a parar e pensar.

O exílio nos arranca das memórias do passado e nos impede de nos lançarmos em imaginações sobre o futuro; o exílio nos obriga a nos reconciliarmos com uma temporalidade em que a segurança suscitada pelo passado e a expectativa excitada pelo futuro são incapazes de nos retirar desse instante angustiante em que nos situamos, desse momento em que nos sentimos tão sós e desamparados diante de um temor que sequer conseguimos mensurar a dimensão.

Paradoxalmente, essa solidão e desamparo que “eu” sinto no mais profundo da minha alma, não é mais um sentimento “meu”, mas “nosso”. Até poucas semanas atrás cada um de nós se preocupava exclusivamente com seu próprio destino individual, mas bastou sermos obrigados a pensar fora de nossos hábitos para percebermos imediatamente que o destino mais individual de cada um de nós não se consuma sem necessariamente atravessar e ser atravessado pelo destino individual de tantos outros. Em resumo, não há mais indivíduo, apenas comunidade. O destino humano é “humano” porque é um destino comum, trilhado e moldado no mesmo solo, na mesma terra, no mesmo humos.

Diante dessa constatação derivada do mais profundo da obra de Camus, podemos afastar os equívocos de leituras rasas que tentam o retratar como um autor pessimista ou mórbido. Além disso – e para encerrar essa sugestão de que o referencial ético e existencial é uma opção de leitura conveniente para extrairmos da obra A Peste as contribuições mais significativas para esse momento de quarentena –, gostaria de salientar que, por conta de tudo isso, no âmago da obra de Camus pode ser identificada uma discussão em torno da solidariedade – ou, se preferirmos, do amor. Esses temas são fundamentais para nós nesse momento de incertezas porque eles não são abordados desde um ponto de vista abstrato, moralista ou religioso, mas do ponto de vista de um humano de carne e osso que pensa a vida na Terra como sendo feita e vivida por outros humanos também de carne e osso. Ou seja, a contribuição de Camus nesse momento é para nos ajudar a constatar que os caminhos de nosso destino comum sempre dependem única e exclusivamente de nós enquanto comunidade humana.

É por essa razão que pode parecer curioso ou provocativo o que vou dizer, mas considero que a mensagem que a A Peste pode nos auxiliar a enxergar neste momento é justamente o fato de que, a qualquer instante – tão imprevisível como foi o de sua chegada – essa pandemia que nos assola simplesmente poderá ter ido embora. Mas ao invés de nos despertar esperança ou tranqüilidade, Camus insistiria que essa possibilidade deveria nos inquietar. Aliás, é esse o alerta, a advertência, mais insistente de sua, uma advertência sobre os riscos do hábito e da anulação do pensamento.

Se é possível dizer que há algo positivo em uma tragédia como uma pandemia, é que ela nos liberta, à força, de nossos hábitos – muitos dos quais inclusive podem ter sido responsáveis diretos e indiretos por terem nos trazido até a situação dramática na qual chegamos. Essa libertação momentânea, apesar – mas também por causa – de toda a dor e sofrimento que ela provoca, termina nos oferecendo a possibilidade de nos aventurarmos nos caminhos do pensamento, o que normalmente nossas rotinas e tarefas não permitem. Estamos sempre muito atarefados, sempre em meio a um “falatório”, como diria Heidegger, ocupados demais para podermos simplesmente parar e pensar sobre nossa própria condição, sobre nosso próprio caminho, sobre nosso próprio destino, sobre o fato de que não sou “eu” ou “você”, mas que somos “nós” que vivemos na Terra. A primeira vítima dessa ausência sistemática do pensamento é a criação, a criatividade, a novidade. No lugar do pensamento, a incessante reprodução, repetição: Sísifo com sua pedra em sua montanha.

É claro que nós, enquanto sociedade, terminamos banalizando – assim como o termo “ética” – também o próprio termo “pensar”. Se voltássemos a nos interessar pelas condições do pensamento, em primeiro lugar constataríamos a necessidade de abandonarmos as muletas que nos prendem às certezas do passado e do futuro, essas fantasias que suprem com um sentido necrosado o vazio com o qual relutamos desesperadamente nos confrontar. Só a partir dessa obstinação por uma clarividência sem esteios é que podemos nos remeter a essa faculdade que nos possibilita enxergar com uma clareza sempre limitada o que está imediatamente à nossa volta. Mas aqui o pensamento não se trata mais daquilo que vai em direção àquelas coisas que podemos empilhar, coisas que, ao perderem sua funcionalidade instrumental – como os carros parados nas garagens –, perdem também o seu sentido; o pensamento aqui se trata daquilo que vai em direção a todas as coisas que são capazes de nos tocar profundamente, de transformar nosso existir presente e o nosso destino comum futuro.

O processamento de informações que adotamos como modelo para uma cognição lógico-matemática não é capaz de resolver os dilemas existenciais que uma peste, uma pandemia, uma crise, nos coloca. Apesar desse modelo ser capaz processar tarefas, diante de uma crise as tarefas são interrompidas, as máquinas param, a rotina e os algoritmos perdem sua funcionalidade. Quando todos os hábitos são suspensos e as tarefas interrompidas, o que nos resta é a faculdade do pensamento. Somos confrontados com exigência, diante desse repentino esvaziamento das ordenações de nosso destino comum, de inventarmos novos sentidos, novos caminhos, uma nova materialidade simbólica e imaginária que sirva de berço para os nossos novos caminhos. Enquanto, porém, nos mantivermos presos a modelos estereotipados que nos prometem tranquilidade e conforto em meio ao caos, seremos incapazes de perceber a notícia que as pestes nos trazem, a mensagem de que algo mudou e de que a história está grávida novamente.

É claro que em nosso mundo contemporâneo conseguimos desenvolver recursos técnicos e tecnológicos maravilhosos para que nossas tarefas operem vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, então raramente somos acometidos por esses lapsos onde a exigência do pensamento se manifesta. O que, como disse, pode ser muito bom, mas não deixa de ter um preço que pode ser alto demais. Temos cada vez mais capacidade para nos mantermos atarefados, mas, ao mesmo tempo, temos cada vez menos força para lidar com dramas inerentes ao existir. Qual é o resultado disso? Desespero. Não é por acaso que, ao invés do adoecimento físico, é o adoecimento mental que se torna cada vez mais a preocupação central de nosso tempo. Camus e toda a geração que veio pouco antes ou logo depois dele pressentiam tudo isso, e em relação a isso se punham a debater em suas obras. Vejamos que agora toda essa discussão do passado passa a repercutir agora em nossa situação, não só a do Brasil, mas a de todo o mundo.

O que está colocado para o debate público é a polarização “vidas versus economia”. Mas Camus certamente rejeitaria essa dicotomia por uma única razão: ele apelava insistentemente para que nos livrássemos das abstrações que, ao preço de nos darem segurança, retiram de nós nossa humanidade. Como artista, ele apelava para a estética, dizendo que, independentemente do que nos ordenava a racionalidade lógico-matemática, utilitária, não poderíamos por nenhum segundo desconhecer que o significado de uma única morte jamais pode ser reduzido a um número. Quantificar uma morte é matar duas vezes uma vida.

Camus vai dizer, por exemplo, que não se pode saber do que se trata um fuzilamento até se ver de perto o buraco deixado no peito do condenado. O que ele quer dizer com isso? Que o significado de uma única morte já é impronunciável para quem a vivencia. Quando passamos à abstração, à contabilidade (dez, vinte, cem, quinhentos mil, um milhão...) já não estamos mais falando de viver ou morrer, são meros exercícios matemáticos. Estamos aí longe do pensamento. É o que Camus exemplifica com a pergunta “quem conhece dez mil rostos?”. Em outras palavras, quando pensamos, quando nos despojamos de nossos hábitos, de nossos raciocínios estereotipados, não temos mais o privilégio de significar a morte em números. Só a mãe que perde um filho, um filho que perde um pai, um amigo que perde um companheiro pode compreender que os números só são capazes de significar a morte daqueles desconhecidos que estão distantes o suficiente para não sentirmos o sentimento que brota quando esfria o calor daquela pele e enxergamos esmorecer o brilho daqueles olhos. Aliás, aqui encontramos uma forte afinidade entre Camus e Zygmunt Bauman, quando este, em sua obra Modernidade e holocausto (1989), especialmente em sua “pós-reflexão”, Racionalidade e vergonha, alerta para o risco que corre uma sociedade que faz a racionalidade e a moralidade andarem em sentidos opostos, isto é, em que a ação mais racional se torna a menos moral, e vice-versa.

Fomos ensinados a deliberar nossas ações em função de uma estrita quantificação de resultados, de uma racional ponderação custo-benefício; entretanto, a subjetividade do homo economicus introjetada em nós ontem e com a qual educamos nossos filhos hoje, apesar de ser capaz de elevar ao máximo a eficácia e eficiência dos negócios, também tem um poder inigualável de reduzir ao mínimo nosso comprometimento ético e existencial para com a humanidade. Jamais esqueçamos que o Holocausto foi um dos empreendimentos mais eficazes e eficientes deixados por nossos avós e bisavós na História.

Antes de encerrar, se ainda precisasse h­­­­aver uma motivação específica para que A Peste fosse lida em nossa quarentena, eu diria que ela tem uma capacidade de nos golpear. Ela suscita que tomemos a situação com a qual nos defrontamos atualmente – com esse nosso exílio – como um desses raros eventos capazes de nos libertar momentaneamente de nossos hábitos e nos confrontar com a obrigação de pensarmos. Entretanto, o maior desafio que Camus nos lançou vai além dessa confrontação imediata suscitada pela peste, ele nos interpela com a seguinte questão: seremos capazes de, uma vez resolvida essa pandemia, não nos esquecermos do que pensamos, do que sentimos, do que vivenciamos quando nosso futuro ainda era incerto e o desamparo nos fazia constatar a comunidade de nosso destino?

A peste torna irresistíveis e aparentemente indestrutíveis o desamparo e o sofrimento; ao mesmo tempo, porém, ela nos desvela a solidariedade como o terreno mais sólido e fértil de onde os seres humanos criam e compartilham o seu destino comum nessa nossa aventura na Terra. Não por acaso é nas palavras do médico Bernard Rieux que Camus vai dizer que, aos corações honestos, durante a peste, as únicas certezas que eles terão em comum é o exílio, o sofrimento, mas também o amor. E, apesar de tudo, é sobre o amor de que trata a obra de Camus. Não o amor enquanto uma abstração, mas enquanto uma prática cotidiana de quem reconhece a impossibilidade da santidade (não produzir o mal jamais), mas que, ao mesmo tempo, também não se deixa, por oportunismo ou fraqueza, sucumbir ao flagelo como uma fatalidade inevitável (aceitar que o mal seja produzido indiscriminadamente).

A mensagem mais difícil de Camus em A Peste é que, diante de uma crise, conseguimos ver com maior clareza o que realmente importa, mas que, logo depois, uma vez retomada a “normalidade”, conseguimos esquecer sem remorso o que outrora era tão evidente: que nossos hábitos, rotinas e tarefas estão sempre ameaçados e que, a qualquer momento, uma cidade feliz pode ser assolada por uma peste, uma peste para a qual os hábitos, rotinas e tarefas dos próprios cidadãos podem ter contribuído direta ou indiretamente, refletida ou irrefletidamente, para a sua chegada.

Apesar da dificuldade de suportarmos esse sentido que a obra nos expõe, ao lermos A Peste podemos nos sensibilizar para o fato de que, na ausência da possibilidade da santidade e de uma vitória definitiva sobre o mal, ainda sempre nos restará a faculdade do pensamento. É com esta capacidade que, tal qual o médico Bernard Rieux, podemos dizer “não” e rejeitarmos sucumbirmos ao convite à fatalidade do flagelo, colocando-nos sempre, em solidariedade, não ao lado dos assassinos, mas das vítimas.

André Guerra é Psicólogo e Mestre em Psicologia Social pela UFRGS

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