Sociedade e Cultura

Conversando com os netos 3

A invenção de Bolsonaro (ou os impasses do presidencialismo)

21/06/2020 13:42

(Arquivo pessoal)

Créditos da foto: (Arquivo pessoal)

 
“a ilha ninguém achou,
porque todos a sabíamos”
Jorge de Lima

A invenção, originalmente, estava ligada a novas tecnologias, mas recentemente tinha também a ver com a criação e o surgimento de novos estilos de ação, muitos deles caricaturas. Jorge de Lima, em a Invenção de Orfeu, escreveu um longo poema, de certa maneira uma paráfrase da saga portuguesa.

Theodore White escreveu uma tetralogia com o mesmo título, cada volume com uma data diferente: The making of the president, 1960, 1964, 1968 e 1972. Ali ele estudou em detalhe como foram feitas (construídas, inventadas) as candidaturas vitoriosas nos Estados Unidos por ação de assessores, especialistas em comunicação, fruto de trabalho de grupos de pressão, de tendências políticas e  a própria máquina do partido vencedor. Até se chegar a uma convenção partidária de onde sairia o candidato vitorioso, havia um trabalho do em mil espaços sociais, políticos e inclusive econômicos. Vimos recentemente a atividade febril de jovens da equipe de Bernie Sanders, querendo propor um candidato de esquerda, numa opção política nova, sem conseguir superar Joe Biden, antigo vice de Obama, representando a posição  democrata clássica.

Assim foi no passado. Um cuidadoso trabalho de assessores, lobbyistas, clubes de opinião, tendências dentro do partido, em 1960, fizeram vitoriosa a chapa de John Kennedy,  que venceu dois obstáculos: ser o primeiro candidato católico e vir de origem irlandesa,  ainda que pertencendo à  elite bostoniana. Venceu por pequena   margem o bem menos sofisticado Richard Nixon. Assassinado Kennedy, em 1964 elegeu-se sem muito esforço seu vice-presidente, o texano Lyndon Johnson, apesar de serem tão diferentes. 1968 foi um ano dramático.  O candidato democrata natural, Robert Kennedy, foi assassinado como o irmão. Num momento de perplexidade, venceu o perdedor de 1960, o republicano Richard Nixon. Este, para se reeleger, em 1972, usou métodos pouco ortodoxos, como denunciados por dois jornalistas do Washington Post, no chamado escândalo Watergate.  Diante das denúncias, Nixon, reeleito, renunciou mais adiante para evitar um impeachment. White descreveu minuciosamente os processos. Faltam no Brasil estudos acurados como este.

No México, o historiador e diplomata Daniel Cosío Villegas analisou a sucessão mexicana, inventada dentro de um estrito espaço oligárquico. O candidato era escolhido pela máquina do partido no governo, o Partido Revolucionário Institucional, (PRI), com a decisão final do presidente anterior, no que ali se chama o destape.  Apesar de cartas marcadas, em 1994, o candidato que despontava, Luis Donaldo Colosio, foi assassinado.

A estrutura presidencialista unipessoal não deixa de ser traumática. Entre nós, tivemos um presidente que se suicidou (Vargas, 1954), um que renunciou por causas nunca claras (Janio, 1961),  outro deposto num golpe militar (Jango 1964) e uma presidente que sofreu impeachment (Dilma, 2014). Juscelino, FHC e Lula conseguiram terminar seus mandatos.

Com isso queremos indicar como o presidencialismo pode ser, em muitos casos, de difícil desenlace. No parlamentarismo cai o gabinete e assume outro que consegue maioria.

Vamos ver de perto a presente presidência no Brasil, desde que foi sendo construída (inventada), até uma dramática situação atual de perigoso impasse.

Jair Messias Bolsonaro, um obscuro deputado por 7 mandatos, de 1991 a 2016, até então quase desapercebido, venceu em 2018 de roldão a presidência e nas eleições, à sua sombra,  foram varridas lideranças históricas como Flavio Suplicy (São Paulo), Dilma Rousseff (Minas Gerais), Roberto Requião (Paraná), Jorge Viana (Acre) e ainda conseguiu eleger dois de seus filhos,  com grande votação e  governadores do Rio de Janeiro e de Minas Gerais praticamente desconhecidos. O partido pelo qual se elegeu, Partido Social Liberal (PSL) e que abandonaria logo adiante, teve a segunda bancada na Câmara (52 deputados), depois do PT (56). Em outros 30 partidos se distribuíram os restantes 405 deputados.

Que aconteceu nesses anos, para que esse deputado de extrema direita, sem maior importância até pouco antes, se elegesse em 2018 por significativa maioria?

Comecemos analisando o caso da extrema direita brasileira. Grupos autoritários e intolerantes sempre existiram, mas não devidamente organizados. Isso apenas ocorreu com a Ação Integralista Brasileira, criada, em 1932, por um escritor e ativista de direita, Plínio Salgado, com a influência portuguesa de Oliveira Salazar e a italiana de Benito Mussolini. Reuniu um número significativo de católicos conservadores, com uma forte presença até no episcopado, influenciado pelo apoio espanhol da Igreja ao caudilho Francisco Franco na Espanha. A AIB alcançou nos primeiros anos uma certa visibilidade, os chamados despectivamente “galinhas verdes”, com seus desfiles ruidosos, o  sigma, sinal de totalidade (totalitarismo),aos gritos  de Anauê, palavra supostamente tupi. num arremedo  das saudações fascistas e nazistas. Getúlio, no começo do Estado Novo autoritário, em 1938, os colocou com facilidade na ilegalidade. Na verdade eram bem mais fracos do que suas concentrações levavam a  crer. Mais adiante, no retorno democrático, os integralistas se organizaram como um pequeno Partido de Representação Popular (PRP) e, em 1955, Plínio Salgado se apresentou como candidato a presidente, conseguindo apenas 8,28% dos votos.

Uma associação de católicos integristas monárquicos, com o lema Tradição Família e Propriedade (TFP), era um grupo de pressão sem organização partidária, chefiado pelo professor Plínio Corrêa de Oliveira, na companhia de dois bispos, Antonio de Castro Mayer (Campos) e  Geraldo Proença Sigaud (Diamantina). Foram ativos no apoio civil ao golpe de 1964.

Um outro partido de direita, o Partido Ecológico Nacional (PEN), com seu presidente ligado à Igreja Pentecostal Assembléia de Deus, registrado em 2012, mudou de nome para Patriota em abril de 2018. Partido de ideologia conservadora, era sobretudo uma sigla de aluguel,  que tentou filiar Marina Silva, naquele momento sem partido. Assim, até então, uma extrema direita não tinha maior significado.

O político Jair Bolsonaro, que vai ocupar esse lugar, tinha sido, por anos, como indicado, um deputado sem importância. Ele começou no Partido Popular (PP), dissidência da ARENA e do MDB. Tentou passar para o PEN, mas por conflitos internos no partido, em janeiro de 2018 desistiu de filiar-se. Já antes, no segundo semestre de 2017, tentara entrar no Partido Social Democrata Cristão (PSDC), mas esse não se interessou em recebê-lo. Então, em janeiro de 2018, Bolsonaro filiou-se ao Partido Social Liberal (PSL), de onde saiu presidente vitorioso, mas que abandonaria mais adiante, em luta com a dirigência histórica.  Enquanto tenta criar um outro partido, no momento é um político sem filiação.

Tentara por três vezes, sem sucesso, candidatar-se a presidente da Câmara de Deputados (2005, 2011 e 2017). Na última eleição teve apenas 4 votos (Rodrigo Maia se elegeria com 293 votos).

Desde 2015 ambicionava ser candidato, seja ao senado ou mesmo  à presidência. Dias depois da eleição que elegeu Dilma Rousseff, em 2014, em formatura de cadetes militares, indicou sua intenção de ser candidato a presidente. Por quatro anos seguintes repetiu a declaração em cerimônias semelhantes. Em novembro de 2016 anunciou finalmente que disputaria a presidência. Para fazer-se notar, foi tomando posições polêmicas, como ataques violentos aos grupos LGBT, e declarações laudatórias  à ditadura militar de 1964. Passou a insistir no problema da segurança e na necessidade de armamento defensivo da população. Pediu a revisão da Lei de Desarmamento, considerada por ele leniente. Insistiu numa campanha contra a corrupção, à sombra da Lava Jato e anunciou, sem maior precisão, uma nova maneira de fazer política, contra o estilo tradicional.

Um núcleo duro, com seus três filhos hiper-agressivos e um pequeno grupo de fieis, ligou-se ao pensamento de um suposto filósofo, Olavo de Carvalho, que tinha sido astrólogo e que vivia na Virgínia, nos Estados Unidos, de onde administrava cursos em linguagem violenta e chula, com um número de seguidores incondicionais.

Aí começaram os gritos de mito, criados por esse núcleo duro de seguidores de extrema direita; passou a participar de orações em grupos pentecostais fundamentalistas, de quem se aproximara através de sua nova esposa;  com um passado militar, insistia no Hino Nacional e na cor verde-amarela. Começava a desenhar-se, aos poucos, o perfil  de sua candidatura.

Vejamos sua evolução pelas pesquisas: no Datafolha de 30  de agosto de 1917, Lula teve 36% dos votos, Bolsonaro 16% e Marina Silva da Rede 14%.

Em abril de 2018 a Lava Jato, falsamente equidistante, realizou a prisão super oportuna de Lula e Bolsonaro logo vai passar na frente. Em 20 de junho, alcançou 17%, Marina 13%, Ciro 8%, Alckmin 6% e Haddad, naquele momento ainda vice na chapa de Lula que se mantinha candidato, com apenas 2%.

Dia 14 de agosto de 1918, Bolsonaro registrou sua candidatura pelo PSL e, no dia seguinte, o PT registrou Lula, já condenado, mas ainda não tendo sido barrado como candidato. O PT manteria essa candidatura até o último prazo legal possível, em 10 de setembro, quando então Lula foi declarado finalmente inelegível. Tempo perdido para uma candidatura Haddad, substituto de Lula, poder sair fortalecida.

Em 6 de setembro, numa manifestação em Juiz de Fora, Bolsonatro recebeu uma facada, ao que tudo indica por um  agressor solitário. Passou por duas cirurgias na Santa Casa de Juiz de Fora, depois transferido para São Paulo. Há detalhes não bem explicados: como o agressor acompanhou o candidato por um certo período, com uma arma escondida por um pano  num braço, sem ser interpelado pela guarda pessoal do candidato? Um transporte preparado levou-o rapidamente à Santa Casa, onde uma equipe estava a postos. Muitas hipóteses foram levantadas desde então. Foi inclusive aventada a idéia de que tinha sido previsto um atentado menor, que um agressor desequilibrado  extrapolou e feriu mais fundo do esperado.

Em todo o caso, isso o afastou de possíveis debates com  outros candidatos, onde teria ficado evidente sua enorme falta de preparação e, além disso, lhe imprimiu um sinal de vítima, politicamente super-oportuno. Um fato significativo: ao entrar na Santa Casa, um de seus filhos teria afirmado que, “hoje meu pai se elegeu presidente”.

Dia 10 de setembro, quatro dias depois da facada, Bolsonaro estava em primeiro lugar na intenção de votos e Haddad em segundo, mas ambos no momento ainda com uma alta rejeição de 40%.

Nesse meio tempo, pelo caráter misógino de sua candidatura, realizou-se uma manifestação feminina, com o lema: #Ele Não. Entre as mulheres mantinha uma rejeição de 50%.

Em 5 de outubro, no debate organizado entre os candidatos  pela  TV Globo, não compareceu, por seu estado de saúde. Mas no mesmo dia, curiosamente, concedeu uma entrevista exclusiva à TV Record, de seu amigo Edir Macedo, bispo da Igreja neo-pentecostal  Universal do Reino de Deus. No dia seguinte, 6 de outubro, ele alcançou, nas pesquisas, 40% dos votos válidos, Haddad crescendo para 25%, Ciro com 15%.

No último debate antes do primeiro turno, Bolsonaro já estava fora do hospital, mas não participou, por alegada e novamente oportuna “recomendação médica”. Livrou-se assim, para sua tranquilidade, de outro debate.

No primeiro turno, Bolsonaro teve 45,03% votos e Haddad 39,28%. Dia 10 de outubro, entre os dois turnos, aquele não participou uma vez mais de debates. Não agüentaria enfrentar um Haddad inteligente e bem preparado. Mas no segundo turno, teria 55,13 dos votos válidos e Fernando Haddad 44,87%. Nos últimos dias a diferença vinha diminuindo.

Vejamos elementos que podem explicar o fenômeno Bolsonaro. Foi-se desenhando um voto útil  anti-petista e anti-Lula, preparado pelos grandes meios de comunicação,   que já tinham denunciado, em 2005, o  mensalão, possível compra de votos que ameaçou derrubar o governo Lula. Vinha agora o petrolão, corrupção na Petrobrás. A operação Lava Jato estava totalmente direcionada nessa direção. No texto anterior nos referimos a isso. O site Intercept, do conhecido jornalista americano Glenn Greenwald, no chamado Vaza Jato, mostrou o viés anti-Lula do trabalho do juiz curitibano Moro e seus procuradores. Inclusive entre os dois turnos, deixou vazar seletivamente informações que corriam em segredo, para prejudicar o candidato do PT.

Jornal Nacional da TV Globo, praticamente todos os dias, ao falar do PT, apresentava a imagem de um cano de esgoto, de onde jorrava dinheiro. Charges e artigos insistiam em apresentar Lula e filhos aproveitando-se  da coisa pública.

Na verdade, Lula e Dilma tiveram uma posição ética exemplar. Claro que outros, no governo, num país com corrupção sistêmica, se aproveitaram do poder. Caso lamentável, o Ministro da Fazenda de Lula, e Chefe da Casa Civil de Dilma, Antonio Palocci, que numa vergonhosa delação premiada relatou um número enorme de malfeitos, com o fim traiçoeiro de incriminar o presidente, para alegria dos promotores de Curitiba.

Elites atrasadas e preconceituosas não toleravam ter um presidente operário. Já lembramos Luís Fernando Veríssimo, que dizia termos sido governados até então por braganças (a casa real portuguesa) e agora chegava, para escândalo de muitos, um simples da Silva, operário migrante.

Mas a invenção bolsonaresca teve outros ingredientes. Uma pequena equipe, da qual faziam parte seus três filhos, soube utilizar as redes sociais, twitters, youtubes, instagram, whatsApps e facebooks, na produção de fake news, isto é, falsas informações. Descobertas suas falsidades, elas passaram a ser retiradas pelos administradores dos meios de comunicação, mas já tinham sido impulsionadas aos milhares, através de robôs, em verdadeiros ataques cibernéticos. Em muitos espaços sociais menos críticos, essas informações falsas, multiplicadas à saciedade, passaram a ser consideradas verdadeiras.

Isso já tinha sido testado na eleição de Donald Trump, pela equipe de Steve Bannon. Este, em 2016, foi estrategista chefe da campanha de Trump. Ali começou seu estilo de propagar notícias falsas, ao mesmo tempo difundindo uma ideologia de extrema direita, antisemita, anti-imigrantes, xenófoba. Vencida a eleição, Bannon foi nomeado estrategista-chefe da nova administração. Logo entrou em choque com o estilo centralizador de Trump. Deixou a política americana e tentou então coordenar movimentos de extrema-direita em muitos países, através de uma publicação, Breitbart News e criou uma organização internacional de direita, baseada em Roma, The movement. Esteve próximo, entre outros, de Matteo Salvini  na Itália e de Viktor Orbán na Hungria, políticos de direita radical. Católico conservador, desenvolveu forte campanha contra o Papa Francisco.

Em agosto de 2018, encontrou Eduardo Bolsonaro, que com seu inglês tatibitati queria fazer carreira internacional. Seu pai, Jair, tentou sem êxito fazê-lo embaixador junto a Trump, idolatrado por Eduardo, que ostentava um gorro com o nome de presidente americano.

Bannon serviu como assessor informal na campanha de Bolsonaro, com sua experiência de manipular a opinião pública e produção de informações falsas. Em 2019, depois da eleição brasileira, Eduardo passou a ser o representante do The movement para a América do Sul. Em março de 2019, Bolsonaro pai e filho participaram de uma comida, em Washigton, com Bannon e Olavo de Carvalho. As direitas se encontravam. Um estudo mais acurado poderá mostrar talvez a influência de Bannom no estilo bolsonaresco de governar.

Essas movimentações eleitorais continuaram durante a administração Bolsonaro. Na saída do Palácio da Alvorada pela manhã, o presidente, contra a quarentena exigida pelo Corona Virus que ele negava, ia ao encontro de seguidores ruidosos, que empunhavam faixas pregando o fechamento do Congresso e do STF, chamando abertamente por um golpe. Na sua maneira primária e incoerente de falar, típica de um comportamento psicopata, como diagnosticou um importante psiquiatra, aproveitava para atacar meios de comunicação e desafetos. Sempre se sentia vítima de alguma maquinação que povoava sua mente. O mais grave foi quando esse encontro se deu na frente da sede central das Forças Armadas, com faixas golpistas fotografadas à profusão. Não aprovou diretamente, mas pelo silêncio diante delas, tinha um comportamento pelo menos ambíguo.

Mais adiante, uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, no Parlamento Brasileiro, investigou ataques cibernéticos que atentavam contra a democracia e o debate público, com a utilização de perfis falsos que já vinham da campanha eleitoral, quando influenciaram os resultados da eleição de 2018, com a prática de cyberbullying sobre os usuários mais vulneráveis das redes sociais. Este último é o comportamento repetido com o intuito de assustar aqueles que são suas vítimas. Essa comissão está estudando materiais da campanha de Bolsonaro e manifestações posteriores, para detectar fake news difundidas em profusão, em todo o período.

Ao mesmo tempo, a partir de violentos ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a alguns de seus membros, foi criada uma investigação para detectar notícias falsas e ataques que ameaçavam, por exemplo, o Ministro Alexandre de Morais, indicado aliás para o posto pelo presidente Temer, onde uma enlouquecida advogada gaucha  ameaçava persegui-lo em sua residência e atentar contra suas filhas. Outros fanáticos ameaçavam incendiar o STF. Dia 13 de junho fogos de artifício foram lançados por meia hora contra o edifício, simulando possível destruição.

Na esplanada dos ministérios, um grupo intitulado 300 Brasil, na verdade menos de trinta celerados em apoio irrestrito ao presidente, montaram um acampamento e faziam movimentações ruidosas contra o Congresso e o STF. O governador do DF os desalojou e fechou a esplanada. Eram dirigidos por uma militante que se intitulava Sara Winter, fotografada com dois revólveres, pose agressiva, lançando insultos de baixo-calão. No momento já está na prisão.

Ao mesmo tempo, o Procurador Geral da República, Antonio  Aras, aliás escolhido pelo próprio presidente, em maio, solicitou ao Ministério Público diligências no sentido de averiguar crimes de injúria e ameaças ao Poder Judiciário, determinando quebra de sigilo, apreensão de documentos e logo prisão de um senador ( Arolde de Oliveira ) e dez deputados bolsoranistas, entre os quais a violenta Carla Zambelli.

Além disso, o procurador da república, Sérgio Pinel, indicava “fortes indícios” de lavagem de dinheiro por parte de Flávio Bolsonaro, na ordem de 2,27 milhões, em operações fraudulentas na compra de imóveis. Já antes, Flavio esteve envolvido em operações de assessores-laranja que deixavam boa parte do que ganhavam sem trabalhar, com o motorista e assessor da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz. Este movimentou milhões e permaneceu foragido por um ano, até ser encontrado e preso na casa do advogado da família presidencial, Frederick Wassef, no momento em que escrevo.

O Ministro Alexandre de Morais, no STF, foi relator de um inquérito para desvendar “uma associação criminosa dedicada a disseminar fake news’”. Varios dos imputados foram nomeados, em fevereiro de 2019, assessores da presidência e da Secretaria de Comunicação Social, próximos a Carlos Bolsonaro, o 02, responsável informal no governo para as mídias sociais, com a produão de um twitter diário. Formou-se assim, dentro do Planalto, o que seria conhecido mais adiante na imprensa como o Gabinete do Ódio, encarregado de conduzir ataques violentos contra adversários e a produção de novas fake news. Além dos três filhos do presidente, estava Felipe Martins, assessor internacional da presidência e discípulo incondicional de Olavo de Carvalho. Dali partiram ataques contra o Congresso e o STF, na própria sede do poder executivo.

As várias pesquisas apontam por proximidade da família do presidente com o crime organizado. Os que assassinaram Marielle Franco pertenciam a esses grupos criminosos e um deles era inclusive visinho de Jair Bolsonaro no condomínio residência deste no Rio de Janeiro.

O insuspeito Merval Pereira, em sua coluna em O Globo, perguntava em 16 de junho: “a investigação do STF leva a perguntar quem financia esses movimentos, em ação já antes da eleição e que ajudaram ilegalmente a campanha de Bolsonaro e Mourão, no que caracterizaria uma ilegal caixa dois.”

Na campanha eleitoral podemos assim ver a importância das mídias sociais e da disseminação de fake news. Essas atividades eram extremamente dispendiosas e foram bancadas por muitas empresas e empresários. No Brasil tivemos um precedente em 1964, quando empresários reunidos no Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) financiaram a preparação do golpe, nos meios de comunicação de então, organizando  além disso as Marchas da Família, com Deus e pela Liberdade (ver o bem documentado livro de Réné Armand Dreifuss, 1964, a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe, Vozes, Petrópolis, 1981).

Agora novamente, empresas que apoiavam Bolsonaro dispararam pacotes de mensagens, em financiamento não declarado, o que caracterizava caixa dois. Entre as empresas, estavam Horota Supermercados, Habib’s, Óticas Carol, redes de restaurantes Coco Bambu, etc. Das mais conhecidas foi a Havan, com seu diretor Luciano Hang, talvez um dos principais organizadores destes financiamentos. Outro é o blogueiro Allan dos Santos, investigado por organizar grupos antidemocráticos, agora com mandato de busca e apreensão. Ele chamou o Ministro Alexandre de Morais de “verme imoral”. Junto a eles estavam o publicitário Sérgio Lima, o empresário Luís Felipe Belmonte e o deputado federal Daniel Silveira (PSL RS), responsável por ter quebrado uma placa de Marielle Franco e, ao que tudo indica, ligado ao crime organizado que a matou.

Pedro Cafardo, editor-executivo do Valor Econômico escreveu: “Empresários só pensaram no próprio quintal e passaram a aceitar ‘qualquer’ desde que não fosse o PT”.

Muitas dessas atividades foram denunciadas por ex-bolsonaristas arrependidos, como a deputada Joice Hasselmann (PSL SP), que tinha sido lider no congresso do governo Bolsonaro e Alexandre Frota (PSDB SP). Ambos  depuseram na Comissão Parlamentar descrevendo como o processo da fake news funcionava no próprio congresso.

Há evidências mais que suficientes para um processo de impeachment contra o presidente. Correm 27 pedidos, sem que sejam minimamente analisados. O governo se blindou negociando postos com os deputados do centrão.

Bolsonaro se elegeu com dois pontos do seu programa: luta contra a corrupção, e esta mina as bases do governo. Denunciou uma velha política de favores e não faz outra coisa para evitar um processo contra ele.

Voltando ao início, este nosso presidencialismo leva a impasses sem saída. Há incógnitas no ar: como vêem as Forças Armadas tantos desatinos? Elas não são um poder moderador, servem ao Estado, não ao governo. Mas este, no momento, está recheado de militares da ativa e da reserva. E sabemos da presença do Exército na vida pública no passado. Discutir isso, seria outro artigo.

E a oposição política onde está? Dividida em pequenas diferenças em hora tão grave ou cria vergonha e constrói uma Frente Ampla pela Democracia em perigo?

Há momentos em que minha esperança fraqueja. Por isso tenho me dirigido aos netos nestes textos. Proseando com eles, trazendo minhas experiências, tantas vezes frustradas, mas com tantas “utopias surgindo no meio de nós”. Pedindo que, com sangue novo, abram caminhos do amanhã.

Tudo o que posso dizer, com o velho índio de Gonçalves Dias:

E à noite nas tabas,
se alguém duvidava
do que ele contava,
dizia prudente:
-“Meninos, eu vi”.



Conteúdo Relacionado