Sociedade e Cultura

Covid expõe o racismo estrutural nos EUA

Dados revelam ''desigualdades significativas de ordem racial na saúde'': negros, pardos e indígenas sofrem mais

09/07/2020 15:43

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
O coronavírus continua atingindo mais duramente as comunidades formadas por negros, pardos e indígenas, com dados federais mostrando que pessoas afro-americanas e latino-americanas têm probabilidade quase três vezes maior de serem infectadas e duas vezes mais chances de morrer do vírus em comparação com seus vizinhos brancos. Havia "disparidades de saúde bastante significativas entre raças" mesmo antes de a COVID-19 devastar o país, diz a Dra. Uché Blackstock, médica especializada em medicina de emergência em Nova York e fundadora e CEO da Advancing Health Equity, uma empresa que trabalha para combater o racismo e os preconceitos nos serviços de saúde . "O que vimos na pandemia, nos primeiros meses, é que essas iniquidades realmente significativas de fundo racial na saúde estão sendo expostas e até amplificadas". Também continuamos a falar com a premiada correspondente do New York Times, Dra. Sheri Fink.

Amy Goodman: Este é o Democracy Now! As reportagens da quarentena. Sou Amy Goodman, com Juan González. Estamos analisando a pandemia de coronavírus e as disparidades no tratamento e nas mortes. Dados federais recém-divulgados mostram que pessoas afro-americanas e latino-americanas têm quase três vezes mais chances de serem infectadas e duas vezes mais chances de morrerem pelo vírus em comparação com seus vizinhos brancos. O New York Times divulgou esses números depois de processar os Centros de Controle e Prevenção de Doenças para receber os dados federais. Em abril, o prefeito da cidade de Nova York, Bill de Blasio, reconheceu as disparidades raciais nas taxas de mortalidade por coronavírus da cidade.

Prefeito Bill de Blasio: Agora eu tenho informações que apontam que existem claras desigualdades, claras disparidades no modo como esta doença está afetando as pessoas da nossa cidade… As mortes por causa da COVID-19 na cidade, em primeiro lugar, afetaram a comunidade hispânica, com 34% das mortes. Essa comunidade representa cerca de 29% de todos os nova-iorquinos em termos de população, mas 34% das mortes. Novamente, essas são informações preliminares e continuaremos a agregar dados. É difícil falar sobre isso, como estatísticas. Isso significa seres humanos. Isso significa famílias. Mas temos que encarar essas disparidades que estamos tomando conhecimento. Então, a comunidade hispânica, 34%. A comunidade negra, 28% das mortes, em comparação com cerca de 22% da população total. (...) As disparidades que atormentaram esta cidade, esta nação, que são todas sobre desigualdades fundamentais, estão novamente causando tanta dor e fazendo com que pessoas inocentes percam suas vidas. Está suficientemente claro. É doentio. Épreocupante. É errado.

Amy Goodman: Então, esse é o prefeito de Blasio falando recentemente.

Ainda em Houston, está a Dra. Sheri Fink, jornalista vencedora do Prêmio Pulitzer, do New York Times, que recentemente co-escreveu uma matéria intitulada "Por que sobreviver ao vírus pode se resumir ao hospital que o admite".

Também nos juntamos a Dra. Uché Blackstock, médica especializada em medicina de emergência, e CEO e fundadora da Advancing Health Equity, uma empresa que trabalha com organizações de saúde para combater o racismo e preconceitos nos serviços.

Dra. Blackstock, muito obrigada por se juntar a nós também. Se você puder falar sobre as disparidades - quem vive, quem morre, quem fica doente e quem não morre?

Dra. Uché Blackstock: Claro. Sabe, acho que antes da pandemia, o que as pessoas podem não perceber é que havia disparidades entre raças na saúde bastante significativas neste país. Eu acho que muitas pessoas ouviram falar da crise de mortalidade materna negra, que recebeu grande cobertura da imprensa. Mas, o que vimos na pandemia, nos primeiros meses, é que essas iniquidades realmente significativas de saúde de fundo racial estão sendo expostas e até amplificadas.

Vimos que as comunidades negra, latina e indígena eram mais propensas a serem infectadas porque eram essencialmente colocadas em risco, devido aos tipos de empregos que tinham. Era mais provável que fossem trabalhadores essenciais e prestadores de serviços. Estes eram empregos públicos. Eles foram principalmente expostos. Eles também eram mais propensos a usar o transporte público em áreas urbanas e mais propensos a viver em moradias superlotadas. Todos esses são fatores de risco para a infecção pela doença. Em seguida, temos que pensar quais comunidades carregam o maior fardo de doenças crônicas, diabetes, pressão alta, obesidade e asma, que são fatores de risco que pioram a resposta quando você é infectado com o coronavírus. Assim, esses são alguns dos fatores que fazem as comunidades negra, latina e indígena serem tão desproporcionalmente impactadas por essa pandemia.

Juan Gonzaléz: Dra. Blackstock, gostaria de lhe perguntar especificamente em termos de alguns dos números que eu vi em termos da comunidade latina - por exemplo, aqui em Nova Jersey, 19% da população, 30% dos casos de COVID ; em Utah, 14% da população, 42% dos casos de COVID. Toda essa questão, porque a comunidade latina, de um modo geral, é uma comunidade muito mais jovem do que a afro-americana ou a comunidade branca. A proporção de idosos é muito menor. Isso é mais uma função das condições subjacentes que afetam a comunidade - por exemplo, diabetes e outras enfermidades subjacentes na comunidade? Que outros fatores você entende que afetam a taxa infecção de latinos?

Dra. Uché Blackstock: Sim. Como mencionei, acho que quando falamos sobre quem corre o risco de ser infectado, também depende de quem corre o risco de ser exposto. Acho que esses números que você cita apontam para o fato de que os membros da comunidade latina têm maior probabilidade de trabalharem em empregos onde correm o risco de serem expostos. E, é claro, isso se deve a práticas e políticas que limitam certos grupos raciais a certos tipos de emprego.

Acho que o que estamos vendo são realmente os resultados do racismo estrutural neste país. Vimos como as oportunidades de vida, incluindo oportunidades de emprego, oportunidades educacionais, basicamente limitam as pessoas e colocam as pessoas em risco de estarem em situações nas quais elas têm maior probabilidade de serem infectadas pelo coronavírus. O que achei muito interessante sobre o artigo do The New York Times foi que não vemos esses fatos apenas em áreas urbanas. Estamos vendo isso nas áreas rurais, certo? Então, eu diria que isso fala do amplo alcance do racismo neste país.

Amy Goodman: Você escreveu um artigo, Dra. Uché Blackstock, no jornal The Washington Post intitulado “Os agentes comunitários de saúde são essenciais nesta crise. Nós precisamos mais deles." Nele, você sugere que os agentes comunitários de saúde são essenciais para abordar essa questão do racismo sistêmico. Você poderia explicar?

Dra. Uché Blackstock: Acho que o que estamos vendo é que as comunidades indígenas, negras e latino-americanas precisam ser postas realmente no centro nessa pandemia. Sim. São as comunidades que sofrem o impacto mais desproporcional. Acho que uma parte fundamental disso é a troca de mensagens e divulgação. E quem melhor para fazer isso do que as pessoas que são dessas comunidades, indivíduos de confiança que conhecem as nuances que envolvem a troca de mensagens? Por exemplo, quando você está rastreando alguém e se aproxima dessa pessoa, precisa perguntar: "Com quem você teve contato?" E para alguém que não esteja com os documentos em ordem, para fornecer essas informações, você precisa confiar na pessoa que está lhe perguntando isso. Então, acho que os profissionais de saúde da comunidade realmente têm um papel significativo a desempenhar nessa pandemia, especialmente em relação à mitigação do impacto desse vírus nas comunidades com características raciais minoritárias.

Juan Gonzaléz: Gostaria de trazer a Dra. Sheri Fink de volta à conversa e fazer uma pergunta sobre os números que estamos vendo em termos das mortes por coronavírus. Enquanto o número de casos confirmados está em espiral, os defensores do presidente Trump dizem: "Bem, a taxa de mortalidade está caindo". Quer dizer, diariamente, ainda é relativamente alto, às centenas, mas certamente não no nível que era no início deste ano, quando as mortes estava na casa dos milhares. O que você acha dessa mudança entre os casos confirmados e as mortes?

Dra. Sheri Fink: Sim. Bem, isso é positivo, certamente. Estamos vendo os hospitais muito sobrecarregados aqui em Houston. Eu fiz essa pergunta sobre as mortes. Claro, ninguém sabe ao certo. Mas alguns dos fatores que podem estar contribuindo para que as mortes sejam menores, número um, os pacientes mais jovens nessa… bem, não dirão "onda", é considerada a mesma onda, mas esse aumento de pacientes é, geralmente, de pessoas mais jovens. Eles têm melhores resultados. Número dois, os médicos têm compartilhado conhecimento, a ciência está avançando e, portanto, existem alguns tratamentos que parecem ser eficazes. Então, os médicos, as enfermeiras sentem que são capazes de cuidar melhor dos pacientes. Isso pode estar contribuindo para esses melhores resultados.

A preocupação é que, se as pessoas mais jovens passarem o vírus para pacientes mais velho - ou para a população mais velha, poderemos ver parte dessa situação atual mudar. A outra coisa é que, desde a infecção até adoecer e até precisar de hospital, há um intervalo de semanas entre as etapas até ficar em estado crítico. Portanto, mesmo quando esperamos começar a ver alguns números de novas infecções diminuírem ou achatarem, isso pode levar muitas semanas mais antes de você conhecer o verdadeiro número de mortos. Mas a boa notícia é que sim - há sinais de que a letalidade está mais baixa no momento.

Amy Goodman: Sheri Fink, eu queria ir para este artigo que você escreveu: "Por que sobreviver ao vírus pode se resumir ao hospital que o admite"? Era uma matéria sobre a cidade de Nova York, sobre hospitais públicos e hospitais particulares. A porta pela qual você passa, qual hospital pode determinar se você vive ou morre. Você poderia explicar?

Dra. Sheri Fink: Vários médicos contataram alguns de nós repórteres, e eles eram médicos que trabalham em vários lugares, em diferentes hospitais. Às vezes, eles rodam no sistema privado e no sistema público. Eles estavam preocupados porque achavam que havia diferenças. Alguns deles obtiveram dados, dados brutos, mortalidade e, portanto, o percentual de mortes, para simplificar. Havia grandes diferenças em um local versus outro.

Eles sentiram que também havia diferenças nos cuidados. A razão de pacientes por enfermeiro é muito pior em alguns hospitais do que em outros, e isso é muito, muito importante. O número de pacientes que um enfermeiro tem, quando é o enfermeiro quem realmente está monitorando esse paciente e é capaz de ver se, de repente, há uma piora, o que acontece com esta doença, essas proporções são incrivelmente grandes, o número de pacientes por enfermeiro em alguns hospitais.

Havia também modalidades de tratamento. Por exemplo, passei muito tempo no Brooklyn Hospital Center, esse maravilhoso hospital comunitário que tem - em Fort Greene, Nova York, no Brooklyn, que não tem empresa controladora, nem é parte de um sistema maior, por isso são ágeis, eles são pequenos. Mas eles também não fazem as coisas que alguns dos maiores sistemas hospitalares fazem, o tipo de ECMO [oxigenação por membrana extracorpórea], por exemplo, esta máquina de pulmão-coração, se você está realmente muito, muito doente. Eles não fazem diálise contínua lá, que é uma forma de diálise que às vezes é usada em pacientes de terapia intensiva. Então, é tudo para dizer que existem diferenças no atendimento.

Como disse a Dra. Blackstock, essas são diferenças preexistentes em nosso sistema de saúde, que é muito desigual na cidade de Nova York e provavelmente em todo o país. Então, como as pessoas iam para o hospital mais próximo, isso meio que amplia ou ampliava essa questão. Há uma citação na história de que essa pandemia se sobrepôs a uma outra epidemia dessas desigualdades estruturais e racismo. Esses são efeitos acumulados.

Eu quero fazer uma advertência importante, que é que as populações de pacientes são diferentes das que esses hospitais atendem. Portanto, isso é muito, muito importante, porque se você é um hospital próximo a uma casa de repouso, que alguns dos hospitais com piores resultados tiveram, é mais provável que a população de pacientes morra. Eles tinham essas enfermidades subjacentes e a maior idade, que acompanham muitas mortes.

Então, é apenas um sinal importante. O jornalismo é o primeiro rascunho da história. Muitas pessoas que se concentram na equidade em saúde, como a Dra. Blackstock e outros pesquisadores, estão dizendo que precisamos investigar mais isso. Temos que ajustar esses números. Os sinais prematuros são, mesmo quando se ajusta coisas como a idade, quão doente está um paciente, que, de fato, existem diferenças importantes entre hospitais que podem ter a ver com essas diferenças no que eles podem oferecer.

Juan Gonzaléz: Gostaria de perguntar à Dr. Blackstock. Estou me perguntando o que você achou dessa mudança do epicentro dessa pandemia nos Estados Unidos, desde o nordeste e o centro-oeste, agora para o sul e para o sudoeste. Você já viu uma crise de saúde pública tão politizada e tão dependente das decisões de líderes políticos e não de funcionários da saúde pública, e qual o impacto disso nas comunidades de negros e pardos?

Dra. Uché Blackstock: Não, não. Obviamente, não, eu nunca vi. Assim como você, estou alarmada e chocada. Estamos realmente nos estágios iniciais desta pandemia, acreditemos ou não, e há muito mais mortes do que se poderia ter. Acho que temos uma oportunidade aqui. Temos um ponto de inflexão, onde podemos pressionar as autoridades estaduais e locais para implementar intervenções, testes direcionados, rastreamento de contatos, mensagens e divulgação às comunidades negras e pardas, para realmente evitar mais devastação para as comunidades que já foram tão duramente golpeadas.

Amy Goodman: Queremos agradecer a ambas por estarem conosco. Dra. Uché Blackstock é médica especializada em medicina de emergência e CEO da Advancing Health Equity. A Dra. Sheri Fink é correspondente do New York Times, jornalista e escritora ganhadora do Prêmio Pulitzer. Vamos criar um link para suas matérias sobre Houston e Nova York.

*Publicado originalmente em 'Democracy Now!' | Tradução de César Locatelli

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