Sociedade e Cultura

De Batistuta a Tevez: futebolistas lideram a lista de argentinos que tentam driblar o imposto sobre grandes fortunas

Embora sejam figuras que construíram uma imagem defendendo "o amor pelas cores do país", não parecem dispostos a transformar esse amor em dinheiro para ajudar os compatriotas em crise, muitos dos quais eram seus fãs. A exceção é Messi, que apesar dos seus escândalos fiscais na Espanha, defendeu a medida

30/06/2021 13:17

(Reuters)

Créditos da foto: (Reuters)

 
Em dezembro de 2020, o presidente argentino Alberto Fernández promulgou uma lei que instituiu o Imposto Extraordinário e Solidário sobre as Grandes Fortunas, que só será cobrado uma vez e que retira 2% do patrimônio de quem tem uma fortuna a partir de 2 milhões de dólares.

A lei tem uma justificativa nobre: o valor será utilizado na compra de vacinas e insumos de saúde para enfrentar a pandemia, e também para ajudar famílias que estão com problemas econômicos devido às medidas que precisam ser tomadas para evitar a propagação do vírus da covid-19.

A iniciativa teve resistência da direita durante sua discussão no Congresso argentino. Porém, uma vez aprovado, encontrou um tipo diferente e peculiar de inimigo: os jogadores de futebol.

Na verdade, são poucos os argentinos detentores de grandes fortunas que não buscaram todas as alternativas jurídicas para evitar o pagamento da contribuição – que é paga apenas uma vez, não é um imposto fixo. Mas são os jogadores de futebol são os que mais se destacam na lista dos que foram à Justiça.

Entre os nomes, alguns são bastante conhecidos. O primeiro deles foi Carlitos Tévez. Em meados de abril, o ex-craque do Corinthians entrou com uma ação no Tribunal Administrativo Federal nº 4, na qual alega que o imposto é “confiscatório”.

O caso mais recente é de outro jogador de futebol muito famoso: Gabriel Batistuta. O artilheiro aposentado recorreu ao Tribunal Administrativo Federal de Contencioso da Província de Santa Fé nesta segunda-feira (28/6), e além de usar o mesmo argumento de Tévez – de que o imposto é “confiscatório” – acrescentou que ele ameaça a produção das suas empresas, ligadas à atividade agropecuária.

Os casos de jogadores de futebol que se recusam a pagar a contribuição não são menos condenáveis do que os de empresários, mas acrescentam outro elemento de hipocrisia. Principalmente os atletas mais conhecidos, como Tévez e Batistuta, construíram suas imagens a partir de um discurso de “amor pelas cores da camisa”. Uma mensagem de patriotismo que certamente cativou muitos fãs em seu país. Agora, quando a Argentina se depara com uma crise econômica e de saúde sem precedentes, eles não são capazes de refletir esse amor em uma contribuição financeira real que ajudaria milhões de pessoas, entre elas muitos torcedores que aplaudiram suas performances nos gramados.

Por exemplo, no caso de Tévez, apesar de seu passado macrista, se esperava que, neste caso sua postura fosse diferente, e mais de acordo com aquele que é chamado em seu país de “o jogador do povo”, por sua origem em um dos bairros mais vulneráveis %u20B%u20Bde Buenos Aires, onde há mais gente sofrendo com as consequências econômicas e sanitárias da pandemia.

Contudo, não há somente nomes famosos entre aqueles que tentam fugir do imposto. Mesmo entre jogadores com carreiras pouco gloriosas existem aqueles que conseguiram fazer fortuna com o futebol e que agora não querem contribuir com 2% delas para ajudar os mais necessitados.

É o caso de Renato Civelli, atleta que anunciou recentemente sua aposentadoria e que quase não jogou em grandes clubes: passou um ano no San Lorenzo e outras duas temporadas no francês Olympique de Marseille, mas se destacou mais jogando pelo Banfield, Gimnasia e Huracán em seu país, por algumas equipes médias da França (Nice e Lille) e outra equipe menor da Turquia (Bursaspor). Com o dinheiro que ganhou no futebol, conseguiu trazer para a Argentina a franquia internacional de padarias Gontran Cherrier. Seu processo na Justiça pelo não pagamento do imposto está sendo apreciado pelo Tribunal Federal nº 10.

Outros jogadores pouco conhecidos que estão na lista são Diego Placente (ex-jogador de San Lorenzo e River Plate, atual técnico da seleção argentina sub-15) e Christian Bassedas (ex-jogador e atual diretor de futebol do Vélez Sarsfield)

Mas também há casos de jogadores que pagaram, e o nome mais conhecido entre eles é o do atual capitão da Seleção Argentina e maior astro futebolístico do país na última década.

Sim, Lionel Messi, apesar de colecionar escândalos por sonegação de impostos e lavagem de dinheiro na Espanha, neste caso pagou a contribuição sem reclamar.

Mais que isso, em entrevista à revista Garganta Poderosa, quando o projeto ainda estava sendo discutido no Congresso argentino, o meia-atacante afirmou que “a desigualdade é um dos grandes problemas da nossa sociedade e devemos lutar para corrigi-la o mais rápido possível”, o que soou como um apoio à medida do governo de Fernández.

Segundo dados da AFIP (sigla da Administração Federal de Ingressos Públicos da Argentina), o Imposto Extraordinário sobre Grandes Fortunas arrecadou cerca de 223 bilhões de pesos argentinos (2,3 bilhões de dólares). No entanto, também foi relatado que há pelo menos 400 grandes contribuintes que não o pagaram, porque entraram com ações judiciais que ainda estão pendentes.

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