Sociedade e Cultura

Devemos usar a crise do Covid para remodelar nossa sociedade e economia

Legisladores devem aproveitar o progresso na inovação médica, no meio ambiente, no trabalho e em todos os lugares

27/09/2020 13:33

Um pesquisador trabalha em uma vacina contra o coronavírus no laboratório de pesquisa da Universidade de Copenhague (Thibault Savary/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: Um pesquisador trabalha em uma vacina contra o coronavírus no laboratório de pesquisa da Universidade de Copenhague (Thibault Savary/AFP via Getty Images)

 
As tragédias humanas e perturbações econômicas massivas causadas pela covid-19 comandaram a atenção do público e dos legisladores por mais de seis meses, e deveriam continuar a fazê-lo. Mas ao manejar a crise, não devemos perder de vista as oportunidades. A frase que fala sobre não desperdiçar uma crise nunca foi tão relevante.

Para empresas, governos, lares, e instituições multilaterais navegando esse período incerto, a tarefa básica é a mesma: superar as perturbações induzidas pela pandemia de modo a também enfatizar o lado bom da crise. Agora é a hora de manter tendências e condições que vão remodelar nossa sociedade e economia para a melhor no longo prazo. Com esse objetivo em mente, aqui estão as seis principais oportunidades boas que eu vejo.

A primeira é que estamos vivendo um dos mais excitantes e promissores períodos de invenção e inovação médicas na história. Enquanto o foco imediato é certamente nas vacinas e terapias da covid-19, deveríamos esperar que a atual pesquisa produza muitas outras descobertas, muitas que irão gerar benefícios significativos e duráveis. Além disso, a crise nos está forçando a confrontar uma bateria de assuntos complexos que dizem respeito ao preço e distribuição de remédios, tanto domesticamente quando globalmente, bem como a gama de desigualdades sociais que nós permitimos que piorasse.

Em segundo lugar, a colaboração mais profunda com o setor privado estrangeiro, frequentemente fora do campo de visão dos governos, está alimentando o processo científico. Ao se mobilizarem contra o coronavírus, cientistas ao redor do mundo estão compartilhando informações como nunca antes, e empresas farmacêuticas estão colaborando de maneiras nunca antes vistas. Esses esforços coletivos estão sendo apoiados por parcerias público-privada dinâmicas, mostrando que esse instrumento de desenvolvimento pode, de fato, ser bom para os dois lados quando é adequadamente focado e quando há um alinhamento claro.

Em terceiro lugar, as rupturas econômicas que resultaram da pandemia alimentaram múltiplos esforços do setor privado para colecionar e analisar uma gama maior de dados de alta frequência em domínios que vão bem além da medicina. Na disciplina da economia, por exemplo, há um grande surgimento de interesse em novos métodos inovativos para mensurar a atividade econômica por meio de indicadores granulares de alta frequência como a mobilidade (geolocalização do celular), consumo de eletricidade, e tráfego do varejo, assim como o uso do cartão de crédito e reservas de restaurantes. Essas métricas estão agora complementando as estatísticas oficiais compiladas pelos governos, fornecendo espaço suficiente para exercícios de comparação e contraste que podem aprimorar a relevância política e qualitativa dos esforços de compilamento de dados.

Em quarto lugar, o choque da covid-19 suscitou nossa consciência coletiva e sensibilidade aos “riscos de cauda” de alto impacto. Repentinamente, muitos nos setores públicos e privados estão pensando mais em termos de total distribuição dos resultados em potencial, sendo que no passado eles focavam somente nos eventos mais prováveis. Legisladores se tornaram mais abertos à análise do cenário e às conversas “e se” que tais análises elicitam.

Sobre a mudança climática – um grande risco que alguns percebem erroneamente como algo distante ao invés de um ponto de partida – a nítida redução das emissões prejudiciais durante a crise do coronavírus forneceu uma evidência clara de que um novo jeito é possível. E, agora, é amplamente aceitado que os governos têm um papel importante na elaboração de uma recuperação inclusiva e durável. A porta está aberta para mais investimentos públicos na mitigação e adaptação climática, e há um coro crescente exigindo que o novo normal seja “verde”.

Isso fala sobre a quinta coisa boa. A pandemia levou os países a conduzirem uma série de “experimentos naturais”, que jogaram luz em uma gama de questões que vão além da saúde e da economia. Sistemas de governância e modos de liderança estão enfrentando críticas, revelando uma grande divergência na sua capacidade de responder ao mesmo grande choque. Essas questões não são limitadas ao setor público. A responsabilidade corporativa também foi enfatizada ao passo que várias empresas se descontrolam para responder ao que era impensável. E a cooperação multilateral se mostrou deficiente, aumentando as ameaças a todos.

Finalmente, a crise exigiu que muitas empresas iniciem conversas sobre equilíbrio entre vida e trabalho, e elaborar soluções inovativas para acomodar as necessidades dos funcionários. Já aconteceram mudanças grandes no modo como trabalhamos, interagimos com os colegas e consumimos bens e serviços, e é provável que somente alguns desses sejam revertidos depois que a pandemia passar.

Essas seis oportunidades boas constituem somente uma lista preliminar de oportunidades oferecidas pela pandemia. O ponto não é diminuir a severidade do choque e a incerteza que vêm confrontando a maior parte da população mundial. A pandemia está durando muito mais do que muitos esperavam, e continua a deixar tragédia e destruição por onde passa.

Mas isso é mais uma razão para fazermos o melhor da nossa resposta coletiva. O desafio agora é expandir e refinar essa lista, de modo que possamos aproveitar as oportunidades e garantir mais tendências positivas a longo prazo. Ao agirmos juntos, podemos transformar um período de profunda adversidade em um período de bem estar compartilhado para nós e para as gerações futuras.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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