Sociedade e Cultura

Do dizer, o que se tem a dizer

 

27/09/2020 13:05

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Há alguma coisa distinta entre falar e dizer. Uma fala que funda um fato é um dito mas a fala opera mesmo quando não funda fato algum. Quando ordena, roga, insulta, quando emite um voto, ela não funda nenhum fato. Funda um fato quando responde a uma interrogação.

O atual presidente da República fala frases desarticuladas, deslocadas do atual contexto conjuntural nacional e internacional. Ecoa frases, fala “restos” de discursos obsoletos, não tem o que dizer. Seu discurso não se sustenta mais do que uma manhã ou mesmo um dia, esvazia-se. Não marca historicamente, fabula, sofisma, gira em círculos. Não tem um traço identitário que o distinga, não faz sentido, não gera fatos, movimenta-se aleatoriamente. Que ciclo é esse de caráter retroativo que enfrentamos nos dias de hoje? O que se tem a dizer?

Cabe fazer algumas digressões. Para que uma coisa tenha sentido, no estado atual do pensamento, é preciso que se situe em torno da “normalidade” como eixo, o que reduz a qualidade da interrogação. Nos tempos da Antiguidade havia uma doxa que fazia interrogação. Não se encontra vestígio da palavra norma em lugar nenhum do discurso antigo. Atualmente não há doxa que não esteja inscrita em um ensino universitário, normatizada, normalizada e ensinada. Quando Platão fala da doxa com a qual não se sabe o que fazer era porque a doxa não era normatizada o que criava um contexto diferente para o que se chama filosofia. Não há vestígio da palavra norma em lugar nenhum do discurso antigo. Fomos nós que inventamos isso. E se o eixo é a norma apela-se para o a-normal diante da falta de sentido.

Os discursos em Lacan são quatro: o discurso do mestre/senhor cujo auge de representação se encontra na filosofia de Hegel, a linguisteria (linguagem exaltada) e a compulsão à repetição (linguagem que gira em círculos). O discurso do analista despontou no último estado de extrema urgência desde Freud e retorna diante de um novo estado de extrema urgência presente na contemporaneidade. O discurso analítico se diferencia do discurso dos filósofos da existência que buscam uma substância do ser, porque não se trata disso, de fazer ontologia ou de ontologizar o inconsciente como instância consistente. O inconsciente, não é disso que se trata, não é isso, porque é somente instância que se manifesta através de formações: sintomas, lapsos, atos falhos, sonhos. O ser humano habita a linguagem que é falha, em que há falta. O dizer do ser humano não é um dizer da verdade e sim um semi-dizer. Não há quem possa falar no todo, do todo universal e de sua materialização, mas sobre o todo, porque a matéria dos discursos é feita de significantes que sustentam palavras encadeadas. Pode-se apontar para os universais das políticas públicas como “sonho” ou como “possibilidade”, ágalma (em grego) a ser circunscrito através de um discurso que já traz em si, desde sempre, a impossibilidade e a impotência, presente em qualquer discurso. Por outro lado, os discursos desencadeiam movimentos cíclicos que se alternam entre avanços e retrocessos, em torno de construções de paradigmas que volta e meia, ao longo de décadas, se tornam obsoletos para que algo de “novo” os substituam. A construção de um novo sistema se torna uma necessidade para que em um futuro remoto venha a ser desmontado, faz parte dos movimentos de montar e desmontar, de fazer conjunção e disjunção em um intervalo entre o aquém e o além. Essa crise, que não é nova, atravessa tanto os sistemas ideológicos quanto os sistemas jurídicos e econômicos nacionais e internacionais, atravessa o sistema mundial.

Assim como o discurso do analista despontou no último estado de extrema urgência, a polarização do discurso ideológico desponta também em um estado de extrema urgência em que os sistemas de normas não dão mais conta das novas práticas em um mundo digital que atravessa paredes e muros, em um mundo em que o nacionalismo e o patriotismo e as vozes de uma resistência arcaica apelam para a manutenção de velhos dogmas. Em um mundo em que fronteiras, demarcações territoriais são postas em questão. Até mesmo muros são materialmente construídos para em um futuro serem derrubados. Em um mundo em que a disseminação de um vírus desconhecido desconhece fronteiras, em que são impostas medidas de cerceamento de circulação e de convívio social na espera de um “antídoto”, de uma vacina.

Defende-se a vida como princípio inalienável e reconstroem-se os planos de transformação nacional que recorrem à sistematização constante dos valores universais de direitos sociais e humanos. Nesse estado de urgência torna-se necessário nomear o capitalismo em sua variante neoliberal que se sustenta há 40 anos em um modelo que não tem futuro, que é insustentável por gerar crises recorrentes que provocam o crescimento da desigualdade entre povos e nações, que gera um crescimento predato%u001rio, insustentável, de dependência econômica, tecnológica e geopolítica. E, mais grave ainda, insustenta%u001vel no que tange ao exercício da democracia e da representação democrática ao basear-se em “consensos te%u001cnicos” inacessíveis ao controle e à participação social.

E a psicanálise que não explica, desde Freud, escuta o que da história da humanidade é drama, do trágico ao cômico, dos recursos que a linguagem que habitamos nos oferece. O discurso analítico não cria doxas nem dogmas, tampouco sistemas, mas questões que se abrem a interrogações. E d’isso, o que dizer?

Ivanisa Teitelroit Martins
Psicanalista, cientista social e gestora de políticas públicas



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