Sociedade e Cultura

Elites conservadoras lutam por ''valores'' inventados para justificar a escravidão

 

12/07/2020 14:55

A estátua do general confederado JEB Stuart foi removida da Monument Avenue em Richmond, Virgínia, em 7 de julho de 2020 (Ryan M. Kelly/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: A estátua do general confederado JEB Stuart foi removida da Monument Avenue em Richmond, Virgínia, em 7 de julho de 2020 (Ryan M. Kelly/AFP via Getty Images)

 
Ao longo de sua história, os EUA tiveram duas elites dominantes muito diferentes, motivadas por definições muito diferentes de liberdade. Vamos chamá-las de New England Yankees x Old South Planters. Suas definições radicalmente diferentes de "liberdade" ainda hoje dividem progressistas e conservadores.

As elites ricas não são todas iguais, e as diferenças entre elas são cruciais. Na opinião da elite ianque da Nova Inglaterra, as pessoas com dinheiro e poder devem moderar seus instintos predatórios com um código de conduta chamado de "noblesse oblige". Nesta visão, a liberdade da elite endinheirada é restringida por um dever moral de usar a riqueza e o poder, pelo menos em parte, para a melhoria da sociedade. (“Não pergunte o que seu país pode fazer por você - pergunte o que você pode fazer por seu país”, disse o Presidente John Kennedy em 1961.) Espera-se que os indivíduos equilibrem sua liberdade e desejos pessoais com o bem maior da sociedade em geral. Todos fazem parte de uma comunidade e, portanto, devem pagar impostos, educar os jovens, cuidar dos doentes e cuidar dos necessitados.

Na visão dos ianques, a comunidade (agindo através do governo) deve disponibilizar a todos a liberdade que advém de uma vida estável e próspera. Como o presidente Franklin Roosevelt disse em 1944, "a verdadeira liberdade individual não pode existir sem segurança econômica e independência". Hoje, essa visão ianque da liberdade ordenada está na raiz dos valores progressistas.

Em oposição à visão ianque da liberdade, temos a visão do Old South Planter. Como aprendemos com as “Nações Americanas” de Colin Woodard, a elite das plantations do velho Sul eram filhos e netos dos colonizadores de Barbados, que eles transformaram “na sociedade mais rica e horripilante do mundo de língua inglesa”. A cultura de plantation que eles criaram da Carolina do Sul até o Texas “era uma cópia quase idêntica do estado escravista das Índias Ocidentais que esses barbadianos haviam deixado para trás, um lugar notório até então por sua desumanidade… Desde o início, a cultura Sulista Profunda foi baseada em disparidades radicais de riqueza e poder, com uma pequena elite exigindo total obediência e reforçando-a com terror patrocinado pelo Estado”, escreve Woodward.

Seguindo o importante pequeno livro de Michael Lind, "Made in Texas: George W. Bush and the Southern Takeover of American Politics" [Feito no Texas: George W. Bush e a tomada da política norte-americana pelos sulistas], Sara Robinson explorou esse assunto em 2012. Robinson resumiu assim a visão de liberdade do Old South Plantter:

“No velho sul ... Quanto maia alto seu status, mais autoridade você tinha e mais ‘liberdade’ você poderia exercer - o que significava, em termos práticos, que você tinha o direito de tomar mais ‘liberdades’ com as vidas, os direitos e a propriedade de outras pessoas … Nesse modelo, é isso que é a liberdade. Se você não tem a liberdade de estuprar, espancar, torturar, matar, escravizar ou explorar seus subordinados (incluindo sua esposa e filhos) com impunidade … então você não pode realmente se chamar de homem livre.

A história da dinâmica política da elite nos Estados Unidos pode ser vista como uma luta pelo poder entre essas duas visões da liberdade - liberdade limitada por obrigações à comunidade versus liberdade de explorar os seres humanos e a natureza para obter ganhos pessoais com um mínimo ou nenhum impedimento.

Mais uma vez, nos encontramos nas garras da mentalidade de plantation do Velho Sul estendida por todo o país.

A partir da década de 1950, a visão de liberdade do Velho Sul tomou predominou nos movimentos conservadores, que então partiram para assumir o controle do Partido Republicano e, através da supressão de eleitores, ganhar domínio político permanente.

De acordo com George Lakoff, um linguista agora aposentado da Universidade da Califórnia em Berkeley, os conservadores do movimento acreditam que,

“A ideia básica em termos de economia é que a democracia dá às pessoas a liberdade de buscar seus próprios interesses e seu próprio bem-estar sem se preocupar ou ser responsáveis pelo bem-estar ou interesse de qualquer outra pessoa. Portanto, eles dizem que todo mundo tem responsabilidade individual, não social, portanto você está por sua própria conta. Se você faz isso é maravilhoso. É disso que se trata o mercado. Se você não conseguir, o problema é seu.”

Em sua história indispensável, Democracy in Chains, a historiadora da Universidade Duke, Nancy MacLean, documenta “o plano furtivo da direita radical para a América” - um plano que surgiu na Virgínia na década de 1950 para retornar os EUA à visão de liberdade do Velho Sul, ou, como poderíamos dizer hoje, para "Tornar a América grande novamente" [Make America Great Again, o lema de campanha de Trump]. Como aprendemos com o Dark Money: The Hidden History of the Billionaires Behind the Rise of the Radical Right [Doações não identificadas: a história oculta de bilionários por trás do avanço da direita radical], na década de 1970, um pequeno grupo de conservadores super-ricos da extrema-direita estava construindo o mecanismo político e cultural para assumir o controle.

Em seu novo livro esclarecedor, How the South Won the Civil War [Como o Sul venceu a Guerra Civil], Heather Cox Richardson detalha como, depois da Guerra Civil, a filosofia escravocrata do Velho Sul se espalhou para o oeste, apagando a ideia de que o governo deveria proteger os cidadãos mais vulneráveis da nação e regular a economia. "Convencidos de que só eles deveriam governar", os descendentes filosóficos da elite do Velho Sul "decidiram destruir a democracia", escreve Richardson.

A visão do sul da "liberdade" tornou-se personificada à imagem do caubói violento, independente e rápido no gatilho. Barry Goldwater, Ronald Reagan e George W. Bush fizeram campanha para presidente usando chapéus de caubói Stetson. Mais uma vez, nos encontramos nas garras da mentalidade de plantation do Velho Sul estendida por todo o país. Os vaqueiros não usam máscaras "maricas" para proteger seus vizinhos de um novo coronavírus, e assim o vírus mortal se espalha.

A visão de liberdade da elite conservadora ajuda a explicar a hostilidade republicana moderna em relação à educação pública, ciência pública, mudança climática, mundo natural, democracia de cada pessoa um voto, assistência médica universal, igualdade de raça, gênero e econômica, responsabilização por crimes de guerra e violência policial, e ao próprio governo.

Mas não precisa de ser assim. Se os progressistas se mobilizarem para retirar o grande capital da política e proteger e aplicar agressivamente “uma pessoa, um voto, sem exceções”, a verdadeira vontade progressista do povo pode prevalecer.

*Publicado originalmente em 'Truthout' | Tradução de César Locatelli





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