Sociedade e Cultura

Entrevista com o dominicano Xavier Plassat

 

22/10/2019 18:51

 

 

O Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia que terá lugar em Roma de 6 a 27 de outubro de 2019, com o tema “Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” vai examinar questões importantes para “cada pessoa que habita neste planeta”, como escreveu o Papa Francisco na introdução à Encíclica Laudato Si’. Os bispos da Amazônia foram os primeiros a advertir o mundo para um iminente desastre ecológico com “consequências catastróficas para todo o ecossistema que ultrapassam, sem dúvida, as fronteiras do Brasil e do Continente”.

Nesta entrevista exclusiva à Carta Capital, o dominicano Xavier Plassat – que se instalou no Brasil na década de 1980 como consequência de sua amizade com frei Tito de Alencar, que se suicidou na França em 1974 – explica a importância do Sínodo para o Brasil e para o planeta e conta os últimos meses de Tito, atormentado pelas sequelas das salas de tortura comandadas pelo sinistro comissário Sérgio Fleury.

“Segundo a procuradora da República Eugênia Gonzaga (exonerada por Bolsonaro da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos), ‘nenhum governo pós-redemocratização adotou políticas de justiça de transição, de responsabilização dos agentes, nem de total revelação da verdade. Assim permaneceu aberta a porta para a volta dos horrores”, lembra o dominicano.

Coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que denuncia o trabalho escravo, Plassat, que mora em Araguaíana, no Tocantis, conta como o controle deste problema vem sendo dificultado pelas novas autoridades brasileiras. Ele informa também como se agravaram os problemas de conflitos de terra em todo o Brasil, especialmente nas regiões mais recuadas do território.

“Nossa equipe regional da CPT acompanha, nos aspectos pastoral, organizativo e jurídico, uns 30 grupos somando mais de mil famílias, estabelecidas em terras de quilombo, em acampamentos, em áreas de ocupação, e em assentamentos consolidados. Liminares de despejo concedidas à revelia das provas apresentadas, violências gratuitas, ameaças contra pessoas, criminalização, passaram a ser nosso quotidiano, como também no vizinho Pará”, conta Plassat.

Em nenhum momento o dominicano citou explicitamente o nome do chefe do executivo. Segundo ele, a fim de conquistar e manter acesa a adesão das bases ‘messiânicas’, “um combustível barato, inesgotável, é fornecido por uma agenda obscurantista: racista, machista, homofóbica, militarista, xenofóbica, puritana, e maquiavelicamente “religiosa”. Bota mais fogo na lenha de históricas frustrações acumuladas em segmentos da sociedade, ansiosos por achar os culpados de sua desgraça, os vilões de seu mal-estar, do seu mau-emprego, da violência que os cerca ou os já os habita”.

Carta Capital: A Igreja Católica vai realizar a partir de 6 de outubro o Sínodo dos Bispos, no Vaticano, que tem como título “Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”. O governo brasileiro quis interferir no Sínodo. Como a Igreja vai proteger os habitantes da Amazônia e salvaguardar a biodiversidade da região contra os predadores brasileiros e internacionais? Quais os grandes problemas da região?

Xavier Plassat:
Não poderia ser melhor o momento para reunir um Sínodo sobre a Amazônia. Para não entrar em debates falsos ou mentirosos, é bom recordar que este sínodo – instrumento da colegialidade no governo da Igreja – foi convocado há 2 anos pelo papa Francisco, a pedido do conjunto dos bispos que atuam nos 9 países que formam a Amazônia.

Não é de hoje que a Igreja católica, presente nessas terras desde o século 17, se preocupa com os desafios da região, cuja importância planetária é negada somente por ignorantes e obscurantistas.

Desde 1952, os bispos da Amazônia se reúnem periodicamente para refletir a missão da Igreja nesta realidade. É o que recordam inicialmente na sua ‘Carta de Belém’, os bispos, padres, religiosas e religiosos, leigas e leigos de todas as Igrejas amazônicas, reunidos na última semana de agosto para preparar o Sínodo. Na sequência, afirmam: Cristo aponta para a Amazônia é a expressão profética e programática do papa Paulo VI que, em 1972, repercutiu no Encontro de Santarém. A nossa Igreja assumiu, então, o compromisso de se “encarnar, na simplicidade”, na realidade dos povos e de empenhar-se para que por meio da ação evangelizadora se tornasse cada vez mais nítido o rosto de uma Igreja amazônica, comprometida com a realidade dos povos e da terra. No encontro de 1990, em Belém-Icoaraci, os bispos da Amazônia foram os primeiros a advertir o mundo para um iminente desastre ecológico com “consequências catastróficas para todo o ecossistema (que) ultrapassam, sem dúvida, as fronteiras do Brasil e do Continente” (Documento “Em defesa da Vida na Amazônia”). Novamente reunidos em Icoaraci-PA, em 2016, os bispos da Amazônia dirigiram uma carta ao papa Francisco pedindo um Sínodo para a Amazônia. Acolhendo o desejo da Igreja nos nove países amazônicos, o Papa convocou em 15 de outubro de 2017 a “Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia”, com o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

Que o atual governo do Brasil se sinta despreparado e incapacitado perante os desafios daquela região, não precisaria de muita demonstração. Já ficou claro com o estarrecedor e vergonhoso espetáculo, oferecido ao planeta inteiro, onde alinhou uma sequência de negações, insultos de baixo calão e inverdades que confundem o espírito mais indulgente. Humilhação internacional comandada pelo próprio presidente é do que o Brasil não precisava.

CC: Como o Sínodo foi preparado?

Xavier Plassat:
Como um processo democrático, durante o qual, assessorado pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), o conjunto das comunidades desta imensa região foi convidado a expressar sua visão dos problemas, dos desafios e das esperanças que vivenciam. Foram ouvidas as comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, entre outros sujeitos da história da Amazônia real: um processo de escuta de baixo para cima, na contramão de imposições autoritárias ou predefinidas. É fantasioso alegar que a soberania do país seria posta em xeque com uma consulta desta amplitude.

Pessoalmente, e a todos nós que trabalhamos e lutamos por uma Amazônia livre de injustiça, invasão e opressão, animam as perspectivas abertas pela próxima reunião do Sínodo. Dela esperamos avanços duradouros que venham alimentar a esperança de nossas comunidades na construção serena de um país justo, fraterno e sustentável onde é bom viver.

Carta Capital : Você foi muito próximo de um homem torturado, o dominicano Tito de Alencar. Foi graças e esse encontro que você foi morar no Brasil. Como julga a apologia de um torturador feita por Bolsonaro no Congresso Nacional ?

Xavier Plassat : Essa apologia no Congresso e que se repete hoje na tribuna do Palácio do Planalto é ignóbil. Se é que esse adjetivo ajuda a dizer o nosso sentimento: ela é diabólica. Aguentamos há nove meses um presidente que dia após dia louva o regime que deixou centenas de mortos e desaparecidos (ao menos 434 desaparecidos, segundo a Comissão Nacional da Verdade), torturou milhares com choques e pau de arara, instaurou a censura na imprensa e na arte, levou milhares de pessoas ao exílio, cassou políticos, aumentou as desigualdades sociais e cerceou as liberdades fundamentais.

Todas as manifestações de Bolsonaro relacionadas ao período do regime militar revelam a mesma doentia nostalgia deste tempo sinistro da vida nacional. Com o apoio de poderosas forças econômicas, um Estado assassino arrogou-se o direito de torturar e matar pessoas. Não podemos esquecer da conta os 8.350 indígenas que, segundo cálculo por baixo da CNV, foram mortos em massacres, apropriação de suas terras, remoção forçada, contágio por doenças, prisões, torturas e maus tratos, no que deve ser chamado de extermínio.

Um dos principais agentes da barbárie foi o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015) em cujo nome o deputado Bolsonaro fez questão de insultar e ferir publicamente a presidente Dilma Rousseff, achando graça assombrar outra vez a mente de uma de suas mais notórias vítimas. Já como presidente da República, o diabólico messias declarou "herói nacional" esse monstro.

CC: Você acompanhou de perto outra vítima emblemática da ditadura, frei Tito de Alencar. Como foi essa convivência?

Xavier Plassat:
Sei, por vivência pessoal, o que um torturador consegue realizar: matar alguém por dentro, partindo-lhe a mente, o corpo, a alma. Conheci frei Tito de Alencar Lima pouco tempo depois de sua chegada à França, na condição de banido. Convivi com ele no convento dominicano de L’Arbresle até o dia de seu suicídio, em 10 de agosto de 1974. Ali, surgiu entre nós, irmãos pela graça de São Domingos, uma relação feita de cumplicidade e de amizade, de sorrisos e de raivas, de luta e de fé, enfrentando o torturador que, por dentro do Tito, continuava sua obra devastadora, partindo-lhe a alma entre resistência e desistência. Resistência era quando Tito tocava violão, formava projetos, abraçava o amigo, brincava com a criança, ria, cantava, rezava. Desistência era quando obedecia cegamente à intimação alucinante do ‘papa’ Fleury cuja voz atormentava-lhe a mente sem parar, fugindo para onde mandava que fosse, ou afundando-se em impenetráveis prantos e desesperados silêncios.

CC: Você ajudou Tito a enfrentar os torturadores que habitavam sua mente...

Xavier Plassat:
Juntos cantamos, choramos, xingamos e desafiamos o Fleury. Partilhamos do melhor e do pior. Até que, um dia, Tito resolvesse livrar-se definitivamente do torturador e da loucura que este pretendia instilar nele. Neste instante longamente amadurecido, num último mistério de resistência e de fé, Tito derrubou-lhe a pretensão de poder continuar, dia após dia, roubando a sua vida. “Melhor morrer que perder a vida”, anotou, repetindo à sua maneira as palavras do seu Mestre: “Minha vida, ninguém tira: sou eu que a estou entregando”.

Segundo a procuradora da República Eugênia Gonzaga (exonerada por Bolsonaro da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos), "nenhum governo pós-redemocratização adotou políticas de justiça de transição, de responsabilização dos agentes do Estado, nem de total revelação da verdade".

 Assim permaneceu aberta a porta para a volta dos horrores.

Segundo Jean-Claude Rolland, o psiquiatra que, em Lyon, acompanhou frei Tito no auge do seu tormento, “a barbárie que leva certos homens à prática da tortura contamina automaticamente todos os seus contemporâneos. Ela faz de cada um de nós cúmplices virtuais. Há, no fundo de nós mesmos, muito recalcada, uma capacidade de destruir o outro e o torturador apenas ativa essa capacidade de destruição”. Acrescento: o torturador ou seu .

Daí a centralidade da nossa palavra para romper o silêncio, da nossa razão para tripudiar a barbárie, da nossa memória para acordar da acomodação. E da história que, sem fim, deve ser contada. Precisamos desmascarar conveniências e cumplicidades — a covardia — que colaboraram e ainda colaboram para infernizar e tirar a vida daqueles que sonhavam e dos que ainda sonham com outro país e outro mundo possível. Ontem e hoje precisamos escutar, resgatar e honrar com justiça as vozes abafadas.

CC : O que mudou no seu trabalho de campo na Comissao Pastoral da Terra depois da eleição de um governo de extrema direita ?

Xavier Plassat: O compromisso solidário da CPT é para com grupos sociais mais vulneráveis às consequências dos retrocessos em curso desde o início da chamada ruptura política (2016-2018), agora descaradamente ampliados pelo governo Bolsonaro e seus aliados. As oligarquias agrárias e das empresas de mineração voltaram ao comando geral das operações, sem o menor pudor, em apoio a uma agenda liberal voltada contra os direitos dos trabalhadores, contra a legislação ambiental, contra os direitos indígenas, quilombolas e das demais populações tradicionais, afrontando tanto a letra como o espírito da Constituição “cidadã”.

Para conquistar e manter acesa a adesão das bases ‘messiânicas’, um combustível barato, inesgotável, é fornecido por aquela agenda obscurantista - que anda junto: racista, machista, homofóbica, militarista, xenofóbica, puritana, e maquiavelicamente “religiosa”. Bota mais fogo na lenha de históricas frustrações acumuladas em segmentos da sociedade, ansiosos por achar os culpados de sua desgraça, os vilões de seu mal-estar, do seu mau-emprego, da violência que os cerca ou os já os habita.

Tudo isso produz incêndios não apenas na Amazônia e nos cerrados, mas também nos ânimos, nas relações, nas comunidades, nas famílias, nas igrejas. Vivemos dia após dia um ambiente sufocante, misto de impotência e incredulidade. No limiar do medo.

Este clima nos remete a outros tempos: algo semelhante aos tempos em que, 45 anos atrás, a CPT nasceu.

CC: E o que já mudou na era Bolsonaro?

Xavier Plassat :
O que muda para nós não é a natureza do nosso trabalho, é sua intensidade, sua extensão, e o suplemento de esperança, de mobilização e de fé que vem exigindo de todos nós: agentes de pastoral, lideranças populares, comunidades rurais em busca de terra e vida digna. A “mística do Reino”, na vivência do Evangelho de Jesus de Nazaré, mais que nunca é nossa luz e nossa energia.

O que muda é que centenas de territórios que já estavam em instância de possível regularização fundiária, demarcação, desapropriação para possível assentamento, ao termo de longas lutas, estão sendo não somente descartados, mas seus ocupantes criminalizados e, quando possível, nós juntos. O INCRA recebeu ordem de sustar todos os processos em curso, e o Presidente repete, feito mantra, que não assinará demarcação de nenhum novo território indígena, pelo contrário: questionará demarcações mesmo quando já homologadas. O que sinaliza de sua parte o propósito explícito de violar a Constituição.

O que muda é que fazendeiros já receberam carta branca da máxima autoridade da República para utilizar armas, ao seu critério, para afastar e matar os que se metem em seus grilos.

No norte do Tocantins, onde vivo há 30 anos, dominam terras públicas de ocupação antiga ou mais recente, disputadas por posseiros frente a fazendeiros, portadores de títulos frequentemente forjados ou concedidos por instituições corruptas, sob a anuência do Estado. Já tiveram que resistir face à pressão das monoculturas em sua voraz expansão (soja, eucalipto) e a expulsão pelas grandes obras (barragem, ferrovia, linhão) destinados a viabilizar “o progresso”, lá fora. Nossa equipe regional da CPT acompanha, nos aspectos pastoral, organizativo e jurídico, uns 30 grupos somando mais de mil famílias, estabelecidas em terras de quilombo, em acampamentos, em áreas de ocupação, e em assentamentos consolidados. Liminares de despejo concedidas à revelia das provas apresentadas, violências gratuitas, ameaças contra pessoas, criminalização, passaram a ser nosso quotidiano, como também no vizinho Pará.

Segundo dados coletados pela CPT no Brasil inteiro, o número de pessoas envolvidas em conflitos por terra chegou perto de um milhão em 2018 (960.630), uma progressão de 252 mil sobre 2017 (mais 36%). Somente na região Norte - inserida no bioma amazônico - foram 493 mil pessoas, mais de duas vezes mais que no ano anterior. Em seguida está o Nordeste, com 302 mil pessoas envolvidas em conflitos.

Como, neste contexto, manter firme o rumo da justiça e do direito, empregando meios coerentes com a nossa ética face a adversários dispostos a tudo? Este é um dos desafios da profecia do Reino nos dias de hoje.

A paciente construção do protagonismo camponês - numa história da qual sempre foi excluído - está sendo colocada em xeque por aqueles que usam e abusam da referência pomposa à soberania, quando na realidade abrem as portas do campo ao capital multinacional. Não é nenhuma novidade...: “O alfa e o ômega da história brasileira é criminalizar a soberania popular e os pobres, e ter o Estado para os ricos” (Jessé Souza).

CC : Como você vê correntes de direita da Igreja que acusam o papa Francisco de ser herético ? O que eles criticam no papa ?

         Xavier Plassat: A instrumentalização da prática ou da crença religiosa em vista da manutenção do status-quo ou da defesa de alguma forma de poder é tão velha quanto o mundo. Como qualificaríamos hoje as correntes que, no ano 33, de nossa era crucificaram Jesus? Embora injusta com a realidade daquele tempo, a palavra « farisáica » passou a designar esse tipo de comportamento.

O que é cobrado do papa Francisco, no fundo, é seu evangelismo radical, cristalino, pois ele obriga a cada um a se questionar radicalmente quanto ao sentido profundo do seu compromisso como homem, como mulher, e, no caso dos cristãos, como seguidor ou discípulo de Jesus Cristo.

No fundo o que essas correntes resistem em admitir, é que a fé cristã deva ter incidência efetiva na vida real de uma sociedade, questionando o relacionamento que estabelecemos entre nós e com a totalidade do mundo. A noção de ecologia integral e a de Casa comum, central na carta-encíclica Laudato Si! do papa Francisco, apontam exatamente para essa exigência. Não é completa novidade: eu era adolescente quando o Concílio Vaticano II adotou a constituição Gaudium et Spes (A Igreja no mundo de hoje) afirmando que a Igreja não existe para si, mas tem uma missão no mundo. A própria tentativa do Concílio Vaticano II para abrir a Igreja a essa realidade, para escutar os sinais dos tempos e falar para o mundo todo, abrindo seu horizonte para além dos fiéis, até hoje não foi recebida por todos os católicos.

Hoje, ao abordar o tema da ecologia integral, o Sínodo sobre a Amazônia aborda uma realidade que atinge a todas as pessoas, independentemente da sua crença. Obviamente isso embaralha o jogo daqueles que defendem uma religião meramente espiritual ou reduzem a fé a uma ideologia, um conjunto de crenças que devem justificar o mundo que está aí, adocicar a vida dos que sofrem suas injustiças e seus mecanismos de exploração, e conter sua possível rebelião.

A acusação de heresia, por impressionante que pareça, expressa esse desacordo, em última instância quase que político: embora possam se referir com frequência à importância das manifestações do Espírito na vida cristã, essas correntes descartam que o Espírito Santo possa ter inspirado posições que a Igreja, em todas suas instâncias, há muito tempo já aprovou.

CC : Você trabalha na Pastoral que denuncia o trabalho escravo às autoridades brasileiras. Já se podem ver mudanças na relação com os proprietários de terra ?

Xavier Plassat: As mudanças de comportamento no campo vêm de acordo com esse contexto de “libera geral” que descrevemos e se traduzem por dificuldades crescentes para identificar, localizar e combater as formas atuais de trabalho escravo.

A agenda do combate ao trabalho escravo foi assumida pelo Brasil como política de Estado desde 1995, e já passou por governos de matizes diversos. Para chegar a essa situação – amplamente elogiada mundo afora - a luta foi longa e severa, e teve na CPT um dos seus principais agentes. Basta lembrar as históricas denúncias do bispo Pedro Casaldaliga no início dos anos 1970, no Mato Grosso, e as incansáveis ações do frei Henri des Roziers nas últimas três décadas. A partir de 1995, políticas públicas mais abrangentes foram adotadas e ampliadas, procurando integrar repressão, prevenção, dissuasão, reinserção. Mais de 54 mil pessoas já foram resgatadas de situação análoga à de escravo, no campo e na cidade. Setores empresariais passaram a incorporar em sua gestão de risco, o prejuízo resultando do boicote de produtos manchados por este crime em algum estágio da cadeia de valor. Instrumentos de transparência foram construídos (como a temida Lista Suja) e compromissos estaduais e pactos federativos foram acertados, envolvendo empresariado, sociedade civil e instituições públicas. Por último, a Corte interamericana de Direitos Humanos, no famoso Caso Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde contra Estado Brasileiro, sentenciado em 2016 (uma instância iniciada em 1998 pela CPT), instou o Brasil a prosseguir na sua política de erradicação, negando-lhe o direito de retroceder.

Às forças que sustentaram a destituição da presidente Dilma, o golpe de Temer e a candidatura de Bolsonaro, foi prometido rever para baixo toda essa legislação voltada para o chamado trabalho decente e as políticas destinadas a pô-la em prática. Nos últimos 5 anos não faltaram tentativas para anular a Lista Suja ou esvaziar a definição legal do trabalho escravo: projetos de lei, decretos, portarias, nada fez. Conseguimos resistir. Procuradoria Geral da República e Supremo deram inclusive sua contribuição nesta barragem. De forma que estamos hoje ainda com o mesmo arcabouço legal e institucional, porém em condições bastante adversas: a fiscalização do trabalho passou sob o comando do Ministro da Economia, os orçamentos minguaram, a nova legislação trabalhista vai tornando legal o que era tido como degradante, e a terceirização foi liberada sem mais distinção entre atividades meio e atividades fins. As taxas de desemprego e de trabalho informal chegaram a níveis alarmantes. Resultado: aninhado na precariedade generalizada, o trabalho escravo se tornou mais improvável de ser denunciado por suas vítimas diretas, difícil portanto de localizar e difícil de combater, com forças de fiscalização reduzidas. Mesmo assim continua essa luta encampada por nossa Campanha nacional “De Olho Aberto para não Virar Escravo”, por agentes exemplares na sociedade civil e nos vários ramos do poder público associados à política nacional de erradicação (AFTs, MPT, PF, PRF, Trabalhadores da Assistência Social, etc) e nos espaços de monitoramento desta política COETRAEs, CONATRAE).

CC : A Igreja católica brasileira teve durante a ditadura grandes figuras como o cardeal Paulo Evaristo Arns e o bispo Dom Helder Camara que tiveram um papel muito importante na denúncia da tortura. Como a Igreja acompanha a ascenção da extrema-direita ? Os padres e frades estão ameaçados ?

 Xavier Plassat: Só posso me alegrar profundamente ao ver que, sob o impacto do ataque frontal dirigido à Igreja (e ao papa Francisco), a CNBB está demonstrando uma bela unidade na resistência, na denúncia e na profecia. Prova disso é a firme declaração da presidência colegiada da Conferência Episcopal a respeito da tragédia das queimadas e da inepta reação das autoridades brasileiras. Cf http://www.cnbb.org.br/levante-a-voz-pela-amazonia-pede-cnbb-em-nota/ e também o posicionamento dos bispos reunidos em Belém no final de agosto para ultimar a preparação do Sínodo sobre a Amazônia:

 Cf http://www.ihu.unisinos.br/592189-defendemos-de-modo-intransigente-a-amazonia-carta-do-encontro-de-estudo-do-instrumento-de-trabalho-do-sinodo-da-amazonia




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