Sociedade e Cultura

Estamos todos enfrentando a mesma tempestade, mas não estamos todos no mesmo barco

 

21/05/2020 19:39

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
Nenhuma descrição do coronavírus é mais enganosa do que chamá-lo de "o grande equalizador".

A terrível verdade é que os nativos norte-americanos, os latinos e os afro-americanos estão morrendo a taxas muito mais altas que os brancos - e não sabemos a metade disso porque o CDC [órgão de controle de doenças dos EUA] não divulgou dados raciais sobre o vírus; não sabemos se eles estão coletando esses dados.

Mas a imagem que surge das cidades, estados e reservas é a de uma atrocidade.

No Condado de Milwaukee, os negros representam apenas 26% da população do condado, mas respondem por quase metade dos casos do condado, e 81% de suas mortes.

Louisiana, Illinois e Michigan não são diferentes: os negros representam menos da população em geral, mas representam muito mais casos e mortes.

Em São Francisco, os latinos representam apenas 15% da população, mas representam 31% dos casos confirmados da cidade e mais de 80% dos pacientes hospitalizados com coronavírus da cidade. E no epicentro do país em Nova York, o vírus é duas vezes mais mortal para os latinos do que para os brancos.

Os nativos norte-americanos também estão morrendo em números desproporcionais. A nação navajo, com cerca de 175.000 habitantes, tem mais casos de COVID-19 do que nove estados inteiros. E mais mortes que 13 estados.

Você ouviu como os governadores estão brigando por ajuda? Bem, os líderes tribais estão ficando com menos ainda.

Então, por que essas comunidades estão sofrendo o pior dessa pandemia?

Por um lado, negros e latinos têm maior probabilidade de trabalhar em posições "essenciais" que exigem que eles ponham sua saúde em risco - um estudo da controladoria da cidade de Nova York descobriu que 75% dos trabalhadores da linha de frente da cidade são negros e pardos.

Além disso, negros e nativos norte-americanos experimentam níveis mais altos de doenças preexistentes, como asma e diabetes, que tornam a infecção pelo vírus mais mortal.

É claro que não é por acaso que eles têm essas doenças - este é o sistema: estão em ação décadas de moradias segregadas, poluição, falta de acesso a cuidados médicos e pobreza.

Mas o vírus não está apenas discriminando por raça. Também está afetando desproporcionalmente a classe trabalhadora e os pobres de todos os tipos.

Na cidade de Nova York, os cinco CEPs com as taxas mais altas de testes positivos para o coronavírus têm uma renda per capita média abaixo de US$ 30.000 - enquanto os residentes nos cinco CEPs com as taxas mais baixas têm uma renda média de mais de US$ 100.000.

E é exatamente nesses lugares que há testes. Lembra-se que rapidamente ouvimos falar sobre celebridades com testes positivos? Se não a felicidade, pelo menos o dinheiro pode comprar um diagnóstico. Nova York acabou de acrescentar, ao número total, alguns milhares de mortos que nunca foram testados.

Estudos mostram que pessoas de baixa renda são mais propensas a ter transtornos crônicos de saúde que tornam o vírus mais mortal.

Elas são menos propensos a receber atendimento médico suficiente ou podem não ter acesso completo.

E é mais provável que trabalhem em empregos "essenciais" da linha de frente que colocam sua saúde em risco.

Um estudo constatou que apenas 3% dos trabalhadores de baixa renda estão executando suas funções em casa durante a pandemia, em comparação com quase metade dos trabalhadores da faixa superior de renda média.

Qualquer pressa em "abrir a economia" é realmente forçar a classe trabalhadora e as pessoas pobres a voltarem ao risco, enquanto os ricos e abastados podem trabalhar com segurança em casa.

Pois enquanto tantos trabalhadores arriscam suas vidas por magros salários, há ainda muitos outros, agora, desempregados e à beira de extinção financeira.

Menos da metade dos norte-americanos pode pagar uma emergência de US$ 1.000, e quase 75% vivem de salário em salário. Auxílios desemprego parcelados e pagamentos feitos uma única vez não vão ajudar os norte-americanos no curso da próxima grande depressão.

Estamos todos enfrentando a mesma tempestade, mas não estamos todos no mesmo barco.

A desigualdade sistemática nos Estados Unidos produziu duas pandemias muito diferentes:

em uma deles, bilionários estão abrigados em seus iates no Caribe, e famílias ricas estão em quarentena com segurança em mansões multimilionárias.

Nos outros barcos, sentam-se pessoas arriscando suas vidas por seus empregos e pessoas sem renda que passam fome, um número desproporcional das quais são pessoas negras e pardas e todas elas merecem tratamento melhor.

Este é um conto de duas pandemias. Não há nada de "igual" nele.



*Publicado originalmente na página do autor | Tradução de César Locatelli



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