Sociedade e Cultura

Existe uma esquerda religiosa?

Por que o ativismo progressista enraizado na fé é, muitas vezes, mal interpretado

14/06/2020 17:00

Em junho de 2015, Bree Newsome, artista e filha de um pastor batista, removeu a bandeira confederada em frente à Casa do Estado da Carolina do Sul (Adam Anderson/Reuters)

Créditos da foto: Em junho de 2015, Bree Newsome, artista e filha de um pastor batista, removeu a bandeira confederada em frente à Casa do Estado da Carolina do Sul (Adam Anderson/Reuters)

 
"Por Jesus, esta bandeira tem que descer." Assim começa um dos sermões mais consequentes do século XXI. Bree Newsome, uma artista de trinta anos da Carolina do Norte, estava a mais de uma dezena de metros acima do solo, escalando um mastro de bandeira em frente à sede do governo do estado da Carolina do Sul. Os policiais gritavam com ela, exigindo que ela descesse, mas ela continuou subindo e continuou pregando: “Vocês vêm contra mim com ódio, opressão e violência. Eu venho contra vocês em nome de Deus. Esta bandeira desce hoje”.

Newsome pensava naquela bandeira confederada há algum tempo. Seus ancestrais haviam sido escravizados na Carolina do Sul e ela ouvira histórias de sua avó, sobre a violência perpetrada pela Ku Klux Klan em Greenville. Então, em 17 de junho de 2015, um supremacista branco matou nove paroquianos negros durante um estudo bíblico em uma igreja em Charleston, e Newsome decidiu que era hora daquela bandeira descer. Dez dias depois, depois de se encontrar com outros ativistas - incluindo um que escalara árvores para o Greenpeace - e treinar em alguns postes de iluminação, ela escalou o poste de dez metros em frente a sede do governo, recitando a Oração do Senhor e o Vigésimo Sétimo Salmo, enquanto subia cada vez mais alto, removeu a bandeira e devolveu-a ao chão, onde uma multidão aplaudiu e a polícia a prendeu. Newsome passou cerca de sete horas na prisão; a bandeira confederada foi restaurada antes mesmo de ela ser libertada. Mas, na segunda semana de julho, depois que milhões de americanos viram fotos ou filmagens de sua escalada, a legislatura estadual votou por remover permanentemente a bandeira da capital e, nos anos seguintes, muitos outros memoriais e estátuas confederados foram retirados pelo país.

Filha de um pregador batista, que já foi reitor da Howard University School of Divinity, Newsome agiu, honestamente, por sua fé e por sua pregação, ainda que quase toda a publicidade que se seguiu a seu ato de desobediência civil tenha retirado teor teológico de seu protesto. Esse é o destino de grande parte do ativismo da chamada esquerda religiosa: se for bem-sucedido, será subsumido por causas e coalizões mais amplas; se falhar, será esquecido. Apesar de todo o opróbrio dirigido à direita religiosa, o ativismo da esquerda religiosa sofre um destino diferente, alternadamente ignorado e fetichizado, apresentado a cada ciclo eleitoral com um tom condizente com a Segunda Vinda de Cristo: sempre prestes a acontecer. A corrida presidencial deste ano é a ocasião mais óbvia para o novo livro “American Prophets: The Religious Roots of Progressive Politics and the Ongoing Fight for the Soul of the Country” ["Profetas Americanos: As Raízes Religiosas da Política Progressista e a Luta Contínua pela Alma do País"], do repórter Jack Jenkins.

"American Prophets" começa onde o próprio Jenkins começou como repórter de religião: no outono de 2011, no protesto Occupy Wall Street [O.W.S.] na Dewey Square de Boston, uma ramificação do encontro no parque Zuccotti de Nova York. Jenkins trabalhava como freelancer no Religion News Service [R.N.S.], uma espécie de Associated Press voltada para a fé, e sua primeira tarefa foi cobrir os aspectos espirituais da O.W.S. Quando Jenkins chegou à Dewey Square, ele ouviu manifestantes cantando hinos e seguiu suas vozes até a tenda do espaço sagrado. Esse espaço representava o papel, argumenta ele, que a religião desempenhava no movimento: desde o início, havia cultos de oração inter-religiosos, capelães de protestos e suprimentos doados por grupos religiosos locais.

Nos anos seguintes, Jenkins perseguiu histórias como essa para a R.N.S., bem como para o ThinkProgress, agora extinto sucessor do Center for American Progress. Seu livro é uma coleção dessas reportagens, não realmente a história ou a sistemática prometida por seu título, mas uma série de retratos de pessoas que ele argumenta que fazem parte da "esquerda religiosa", um termo que, Jenkins reconhece, mesmo algumas das pessoas que ele próprio cita, rejeitariam, apesar de sua definição quase sem definição: "um grupo, amorfo e em constante mutação, de defensores, estrategistas e agentes políticos progressistas e baseados na fé". Como resultado, “American Prophets” é na verdade uma espécie de "Vidas dos Santos" contemporâneos - uma série de perfis de admiráveis ativistas de esquerda cujas políticas são motivadas por sua fé. Se esses retratos constituem ou não um coletivo, não é apenas um problema para Jenkins, como escritor, mas para todos nós, como cidadãos.

É difícil dizer o que veio primeiro, a esquerda religiosa ou a direita religiosa. No século XIX, a causa abolicionista foi defendida pelos cristãos - embora muitos outros, voltando ao apóstolo Paulo, tivessem defendido a escravidão por motivos teológicos, e continuassem a fazê-lo mesmo após a emancipação. Alguns historiadores identificam o movimento do Evangelho Social, do início do século XX, como a verdadeira origem da política religiosa de esquerda, uma vez que ela aplicou a ética cristã a uma série de questões, e não apenas a uma. Os evangelistas desse movimento exigiam soluções estruturais para pobreza, dependência de drogas, trabalho infantil, crime e outras injustiças. A organização que eles fizeram em nome do bem-estar, temperança, reformas trabalhistas e segurança pública provocou uma reação dos conservadores, que se uniram para se opor, primeiro ao New Deal, e depois à evolução, ao comunismo, à contracepção, à pornografia, aos gays e ao aborto. É um prólogo surpreendente para o cenário político contemporâneo, onde a esquerda religiosa parece se mobilizar principalmente em resposta ao trabalho da direita religiosa.

Jenkins atenta a muitas religiões, mas ele começa com uma ativista católica, a irmã Carol Keehan, que, além de ser freira com as Daughters of Charity [Filhas da Caridade], era chefe da Catholic Health Association of the United States [Associação Católica de Saúde dos Estados Unidos]. Nessa função, ela aplicou sua formação em enfermagem e finanças de assistência médica, à administração de cerca de seiscentos hospitais e mil e seiscentas outras unidades de saúde em todo o país e, a partir de 2009, ajudou a redigir e pressionar pela aprovação do Affordable Care Act [uma mudança legal na prestação de cuidados de saúde conhecida também como “Obamacare”]. Ela continuou a lutar pelo projeto, mesmo depois que a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA se opôs, não apenas incitando os legisladores católicos no Congresso, mas escrevendo artigos em jornais sobre como o projeto refletia os princípios católicos e desafiando os bispos que tentaram retratar o projeto como pró-aborto. Seu ativismo foi tão consequente que a irmã Carol recebeu uma das canetas que o presidente Barack Obama usou para assinar a lei do Affordable Care Act.

Tais vitórias legislativas são poucas e distantes entre os “American Prophets”. Mais comum é a experiência do grupo inter-religioso Moral Movement Maine, que protestou contra a senadora Susan Collins em 2017, suplicando-lhe para proteger o mandato individual do A.C.A. [Uma penalidade fiscal para quem não tivesse seguro saúde. O ‘mandato individual’ pretendia, dessa forma, baixar os prêmios para todos] Ignorando os nove clérigos cristãos, judeus, budistas e universalistas unitários, presos por ocuparem seu escritório no Congresso, Collins finalmente votou a favor da lei tributária republicana que matou o mandato individual, alegando que ela havia garantido proteções para a provisão de seguro, apesar de, em última instância, comprometer os cuidados de saúde de oitenta mil habitantes de Maine e milhões de outros morte-americanos.

Os nove clérigos presos foram parte da encarnação de Maine de um movimento ativista iniciado quatro anos antes, na Carolina do Norte, pelo reverendo William Barber II. Barber, um ministro dos Discípulos de Cristo, observara os republicanos, que tendo assumido o controle de ambas as casas do parlamento estadual e da mansão do governador na Carolina do Norte, promulgaram uma agenda conservadora que mudou radicalmente seu estado: cortando benefícios de desemprego, rejeitando a expansão do Medicaid, eliminando créditos fiscais para as pessoas de baixa renda, reduzindo os direitos de voto e cortando os orçamentos ambientais e de educação. Em 29 de abril de 2013, Barber levou várias dezenas de pessoas ao legislativo estadual, que estava em sessão, e interrompeu suas deliberações. "Não temos outra escolha senão reunirmo-nos na casa do povo, onde essas leis são apresentadas, discutidas e votadas", escreveu Barber em uma declaração pública que acompanhou o primeiro protesto da Segunda-feira Moral, "na esperança de que Deus ocupe os corações dos nossos legisladores, como quando ele ocupou o coração do Faraó para deixar seu povo ir.” Dezessete pessoas foram presas naquele dia; até o final da sessão legislativa daquele ano, o número de pessoas presas havia aumentado para cerca de mil e, no ano seguinte, havia grupos da Segunda-feira Moral se reunindo por todo o país.

Barber provavelmente tem o maior número de seguidores do que qualquer outro personagem do “American Prophets". Como Jenkins observa, é raro que membros da esquerda religiosa se tornem figuras nacionais da maneira que muitos cristãos conservadores têm se tornado. Essa diferença é tanto causa como efeito de um movimento centralizado mais fraco, mas também reflete a extensão em que o ativismo na esquerda religiosa às vezes se baseia em questões locais. Veja Chase Iron Eyes e a Dra. Sara Jumping Eagle, um casal que ajudou a liderar os protestos contra o oleoduto Dakota Access. Standing Rock acabaria hospedando mais de dez mil manifestantes de todo o país, mas para Iron Eyes foi onde ele cresceu, terra sagrada que há muito tenta defender. Jumping Eagle foi uma das quatrocentas pessoas presas em Standing Rock e uma das muitas que viram o oleoduto não apenas como uma ameaça ambiental, mas também espiritual.

A preocupação com o meio ambiente é compartilhada por muitas pessoas religiosas através das tradições religiosas, embora seu ambientalismo seja frequentemente apresentado como uma convicção estritamente científica e não como um compromisso teológico. É muito mais comum ouvir referências aos religiosos de esquerda em conversas sobre imigração e pobreza. Jenkins relata o trabalho do New Sanctuary Movement [Movimento Novo Santuário], destacando clérigos como a reverenda Alison Harrington, cuja igreja presbiteriana em Tucson proporcionou semanas de refúgio a Daniel Neyoy Ruiz, um imigrante mexicano de 36 anos que não tinha antecedentes criminais, mas foi parado por causa um cano de escapamento quebrado e, em seguida, ameaçado de deportação. Mais de mil comunidades religiosas agora estão afiliadas ao movimento, fornecendo segurança contra ataques da imigração, organizando marchas e vigílias para a reforma das leis de imigração e abrigando dezenas de imigrantes todos os anos. Como o santuário é um espaço religioso literal, é mais difícil ignorar a natureza baseada na fé deste trabalho.

Em outro momento no livro “American Prophets”, Jenkins descobre a motivação religiosa do ativismo aparentemente secular - incluindo a Marcha das Mulheres, que organizou milhões de pessoas em todo o mundo para protestar contra a posse do presidente Donald Trump. Jenkins se concentra no trabalho da ativista muçulmana Linda Sarsour, uma das cofundadoras da marcha, que havia liderado a Associação Árabe Americana de Nova York, protestando contra a vigilância discriminatória dos muçulmanos e lutando pelo reconhecimento dos feriados muçulmanos no calendário da escola pública da cidade. Ninguém sabe quantas mulheres foram atraídas para participar naquele dia por sua fé, mas Sarsour foi capaz de mobilizar as redes muçulmanas existentes para enviar inúmeras mulheres para marchas em todo o país, um padrão de ação coletiva apoiado por religiões, visto muitas vezes antes e muitas vezes desde então.

Todas essas são figuras envolventes, e Jenkins, enquanto escritor do dia a dia, é um excelente repórter, montando cenas e conduzindo seus leitores por grandes faixas de diferenças geográficas, raciais, socioeconômicas e religiosas para capturar a história política recente. É fácil admirar o ativismo desses indivíduos, mas é difícil saber como pensá-los coletivamente. Jenkins, apesar de seu título, está oferecendo reportagem, não teologia ou teoria; ainda assim, vale a pena considerar por que muitos dos personagens de “American Prophets” estariam entre os primeiros a insistir que não existe a esquerda religiosa.

À primeira vista, a esquerda religiosa deveria ser mais fácil de organizar do que a direita religiosa. Muitos de seus eleitorados cristãos são menos doutrinários e mais ecumênicos, tornando suas denominações mais propensas a trabalhar juntas; é também mais inter-religiosa, o que significa que sua coalizão deve ser não só mais diversa, mas também maior, já que cristãos e judeus trabalham juntos ao lado de budistas, muçulmanos, sikhs, hindus e de espiritualidades indígenas. Mas isso é mais fácil teorizar do que viver, e essas coalizões podem ser tensas: como Jenkins observa, dois anos após a primeira Marcha das Mulheres, Sarsour e as outras organizadoras originais renunciaram após alegações de antissemitismo por ativistas judias, que alegavam ter sido excluídas do movimento. Além disso, muitos progressistas religiosos têm uma teologia política reticente: ou por um compromisso com o pietismo, que pode ser intrínseco ou por uma reação a ser ofendido pelo testemunho público do direito religioso, ou por um medo Rawlsiano de que a religião possa ameaçar o projeto de uma esfera pública pluralista.

Parte dessa reticência desapareceu na era Trump, não apenas porque os líderes religiosos organizaram suas comunidades para participar de protestos como a Marcha das Mulheres, a Marcha pelas Nossas Vidas e o Black Lives Matter, mas também porque as organizações religiosas foram alvo da proibição muçulmana. e por táticas de policiamento no estilo militar. Este mês, padres e paroquianos de uma igreja episcopal em Washington, DC, juntamente com outros manifestantes, foram atacados com gás lacrimogêneo para abrir espaço para o Presidente Trump posar para fotos enquanto brandia uma Bíblia emprestada. Em Buffalo, Nova York, um ativista pela paz, de 75 anos, chamado Martin Gugino, envolvido no movimento dos Trabalhadores Católicos, foi empurrado ao chão por policiais e depois lá deixado, sangrando na Praça Niagara. Tal ativismo se tornou notável, não porque não estava acontecendo antes, mas porque o presidente fez com que ele se apresentasse como tão explicitamente partidário.

Ainda assim, a maioria dos abrigos religiosos para os sem teto não promovem registros de eleitores, e a maioria dos bancos de alimentos e cozinhas religiosas não organizam, aqueles que se beneficiam de sua ajuda, para apoiar os políticos que financiam adequadamente seus serviços. E, com as denominações religiosas principais diminuindo, o comparecimento a cultos diminuindo e quase metade dos progressistas, com menos de trinta anos, alegando não ter nenhuma afiliação religiosa, é improvável que os dados demográficos da esquerda religiosa alcance, algum dia, o poder eleitoral da direita. Alguns dos esquerdistas religiosos mais verdadeiramente radicais evitam completamente a política eleitoral e se organizam em torno da ação, mas não nas eleições. Embora os progressistas possam muito bem ter seus horários de oração, quase um quarto dos norte-americanos são agnósticos, ateus ou não afiliados a uma religião organizada. Sua falta de afiliação dificulta a organização em torno de causas morais.

American Prophets” não enfrenta adequadamente esses fatos e tendências demográficas. Como muitas reportagens desse tipo, subestima a prevalência e exagera o potencial do ativismo progressista motivado por religiões. Jenkins revela, acidentalmente, sua posição quando afirma que grupos religiosos podem ser "uma das armas mais secretas da esquerda". A medida de eficácia da arma, que eles podem ser, é discutível, mas eles certamente não são secretos. É revelador que, apesar de Jenkins ter sido explicitamente designado a escrever sobre espiritualidade no movimento Occupy Wall Street, ele ficou "estupefato" ao encontrá-lo lá.

Com frequência, esse é o tom de cobertura da esquerda religiosa. Em seu livro “The Party Faithful: How and Why Democrats Are Closing the God Gap” (“O Partido Fiel: Como e Por que os Democratas Estão Fechando o Desnível entre Religiões”), de 2008, a jornalista Amy Sullivan observou as maneiras contraditórias como os progressistas religiosos e os conservadores religiosos são cobertos pela grande imprensa, com a fé dos políticos de direita, geralmente, sendo tomadas pelo valor aparente, enquanto os da esquerda são frequentemente ignorados, tratados com ceticismo ou menosprezados como insinceros e demagogos. Considere a rejeição à invocação de Mateus 25, feita pela senadora Elizabeth Warren, metodista por toda sua vida, como seu lema pessoal durante um dos debates democratas deste ano, ou a maneira como a autenticidade do catolicismo da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, é debatida. Provavelmente, você leu muito mais sobre as tentativas do presidente Trump de atrair os eleitores evangélicos com café da manhã de oração e falar de “2 Coríntios”, do que sobre o rosário que o ex-vice-presidente Joe Biden sempre carrega com ele (era o mesmo que seu filho Beau usava quando morreu) ou a divulgação que ele fez entre católicos e seu apoio ao movimento “Nuns on the Bus” [Freiras no Ônibus], em seus esforços para promover o registro de eleitores. Se você já ouviu falar sobre Biden assistir à missa, é provável que tenha sido apenas porque um padre da Carolina do Sul se recusou a dar comunhão a ele, depois que o candidato expressou sua oposição à Emenda Hyde, que impede o uso de fundos federais para serviços de aborto.

Em nenhum lugar essa discrepância é mais clara do que na maneira como a imprensa política cobre a igreja negra. Apesar de toda a conversa sobre a direita religiosa, um dos blocos de votação mais confiáveis do Partido Democrata também é uma das populações mais religiosas do país: quase noventa por cento dos afro-americanos reivindicam uma afiliação religiosa, e quase o mesmo número coloca a religião como um aspecto altamente importante de suas vidas. O registro de eleitores e a organização política que sempre ocorre nas igrejas negras muitas vezes não são mencionados, embora o programa Souls to the Polls (Almas para as Urnas) tenha sido uma maneira tão eficaz de aumentar a participação dos eleitores que os republicanos tentaram restringir o acesso às votações antecipadas aos domingos.

A esquerda religiosa, em outras palavras, não é "secreta", apenas mal-compreendida. O partido, por exemplo, é uma maneira inadequada de representar a política de uma pessoas. e questões de justiça social podem estar enraizadas na fé, mas não são exclusivas dela; existem esquerdistas pró-vida, assim como ateus antiaborto. Os esquerdistas religiosos não afluirão ao poder nesta eleição presidencial, nem provavelmente em qualquer outra, mas os eleitores religiosos - especialmente os afro-americanos - há muito formam a base do Partido Democrata neste país. O destino deles, como o de Bree Newsome, é muitas vezes fazer com que sua religiosidade não seja mencionada ou desonrada. No caso de Newsome, a imprensa cobriu seu protesto como se fosse um episódio isolado e espontâneo de rebelião, quando na verdade ela foi uma das milhares que marcharam com o reverendo William Barber em suas Segundas-feiras Morais na Carolina do Norte e tinha sido presa uma vez antes, em um de seus protestos de ocupação da sede do governo. O problema não é que ainda não haja uma esquerda religiosa potente; é que a parte "religiosa" é muitas vezes deixada de fora.

*Publicado originalmente em 'The New Yorker' | Tradução de César Locatelli



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