Sociedade e Cultura

Fernando Haddad configura o projeto democrático defendido no Círio de Nazaré

A manifestação da CNBB em defesa do sistema político ameaçado no Brasil repercutiu na maior procissão religiosa do Brasil, que teve seu ponto alto neste domingo (14), em Belém (PA)

16/10/2018 19:33

Imagem de Nossa Senhora de Nazaré, na maior procissão católica do Brasil (Fabrício Coleny/BasílicaSantuárioDeNazaré)

Créditos da foto: Imagem de Nossa Senhora de Nazaré, na maior procissão católica do Brasil (Fabrício Coleny/BasílicaSantuárioDeNazaré)

 

Responsável por reunir, anualmente, mais de dois milhões de pessoas na maior procissão religiosa do Brasil, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém (PA), está atravessado pelo exótico processo eleitoral em curso no país. Diante da explícita ameaça posta por um projeto político exaustivamente descrito como fascista, o modelo de sociedade democrática é defendido, de forma aberta, pela Igreja Católica Apostólica Romana (CNBB). Em harmonia com a determinação da entidade, anunciada na última quinta-feira (11), fiéis, líderes religiosos e populares manifestam com diversidade sua expectativa pela vitória de Fernando Haddad (PT) na disputa pela Presidência da República. Doze romarias fazem parte das celebrações e uma potente agenda multicultural orbita o segundo domingo de outubro, parte do calendário da capital há 226 anos.

Coordenador da Comissão Pastoral da Terra no Pará (CPT-PA), Paulo Joanil da Silva, o padre Paulinho, reafirma a postura de coerência do colegiado de bispos do Brasil, sede do encontro entre seu secretário-geral, Dom Leonardo Ulrich Steiner, e o candidato da coligação que minou as expectativas de vitória de Jair Bolsonaro (PSL) num primeiro turno. O religioso explica que “a CNBB tem manifestado os sentidos catequético e da ética cristã que devem nortear as atitudes dos eleitores para o exercício da escolha de seus representantes. Essa orientação tem um destinatário concreto, significa que o eleitor não pode e não deve, pela sua fé esclarecida, votar em candidatos ou projetos de partidos que negam os valores cristãos, os direitos humanos, a democracia”, acrescentando que “é muito claro, mas é muito claro, conforme a luz do dia, que uma candidatura representa o que há de mais perverso para a humanidade”. Não existe norma que legisle sobre a nominação de um ou outro candidato em qualquer eleição no Brasil, mas existe um consenso entre os bispos para que não o seja.

Padre Paulinho cita exemplos de notória afronta a direitos conquistados por grupos sociais vulneráveis dentro do contexto democrático. “Nossa democracia é muito fragilizada. Hoje convivemos com a destruição das regras de amparo aos trabalhadores, com a terrível Reforma Trabalhista. São questões muito graves, sobre as quais a Igreja se posicionou contra essas chamadas reformas”, ilustra.

Mas a trajetória parlamentar de mais de duas décadas do presidenciável apoiado pelo líder espiritual da Igreja Universal, Bispo Edir Macedo, e pela Frente Parlamentar Evangélica demonstra que não é recente seu alinhamento em desfavor de trabalhadores. Ele se opôs ao Projeto de Emenda Constitucional 478/10, conhecida por PEC das Domésticas, responsável por estender a domésticas, babás e cozinheiras pelo menos 16 direitos já assegurados aos demais trabalhadores urbanos e rurais contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Padre Paulinho remonta ao perfil tradicional dessas mulheres, majoritariamente negras, e o significado de segunda alforria a elas. “A mulher doméstica na história do Brasil é escrava. Até pouco tempo, não tinha reconhecimento de seus direitos trabalhistas, sem contar que muitas acabam sendo escravas do sexo. Conheci em Belém, há um mês, uma senhora de quase 80 anos, que foi trazida ainda menina do Arquipélago do Marajó, na falsa promessa de receber estudo, uma roupinha melhor e uma vida digna por parte de família muito rica daqui e que se diz católica. Ela fazia trabalho de limpeza de dia e à noite era obrigada a ser objeto de abuso sexual do chefe da família, depois dos filhos e dos amigos. Não é caso isolado”, relata Padre Paulinho, que está na Amazônia desde 1970 e é orientado pela Teologia da Libertação.

O posicionamento de Jair Bolsonaro legitimará violações desse gênero, se for levada em conta sua proposta de governo depositada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Numa espécie de power point verborrágico, o presidenciável afirma que criará “uma nova carteira de trabalho verde e amarela”, descreve, “onde o contrato individual prevalece sobre a CLT”. Abre-se margem, assim, para a manutenção tanto de uma sociedade de viés escravagista quanto da também chamada cultura do estupro. O paulista é réu em denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) por apologia ao crime, caso que envolveu a deputada Maria do Rosário (PT-RS), mira do insulto do capitão reformado em pleno Parlamento: “não te estupro porque você não merece”.

Sob a égide de “Uma jovem chamada Maria”, o Círio de 2018 traz à tona os desafios cotidianos impostos às mulheres brasileiras e que demandam políticas públicas decisivas para sua reversão. Está evidente o privilégio dos homens na cultura do país, argumenta Padre Paulinho, que declara haver profunda desigualdade “seja no mundo do trabalho e seja nas igrejas. A mulher é relegada ao plano inferior, como na campanha dessa figura nazi-fascista dizendo que a mulher não pode ganhar o salário igual ao homem porque engravida. São aberrações inaceitáveis”. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam indícios de irresponsabilidade social com a constatação da existência de 5,5 milhões de crianças brasileiras sem nome do pai na certidão de nascimento, comportamento que gera desamparo legal aos filhos.

A esperança e a indignação ecoam pela voz de fiéis de amplos matizes religiosos devotos da festividade, inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Imaterial da Humanidade desde 2013, pela Unesco. O Auto do Círio, agenda artística promovida pela Universidade Federal do Pará (UFPA) há 25 anos, profetiza “Maria - Diversidade do amor” e inaugurou sua programação com celebração encabeçada por lideranças de matriz africana, Mem´etu Najetu; cigana, Luiza Piancó; luterana, Pastor Antonio Telles; católica, padre Paulo Joanil e monge Zé Maria; hindu, Prahlada Nrisimha Dasa; indígena, Putira Sacuena; pagã, Roseli Sousa. Insígnia feminista que repercutiu mundialmente em 2018, “Ele não” foi termo professado em todo o mapa do cortejo. Assim como na Festa da Chiquita, expressão de resistência do movimento LGBT realizada há 40 anos na véspera do Círio e consagrado, em 2004, como Patrimônio Cultural e Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan).

A posição de enfrentamento à violência que marca a campanha eleitoral em apoio ao candidato da extrema-direita foi denunciada pela Associação Cultural sou Angoleiro (Acesa) "Mestre João Angoleiro", com a Roda de Capoeira Angola em homenagem ao Mestre Moa do Katendê, assassinado na Bahia por defensor de Jair Bolsonaro.

Nenhum passo atrás – A determinação no estado é irrevogável e ganha amplitude. De parte da Igreja, Padre Paulinho garante que “a CNBB tomou sua posição profética e é por essa posição que nós vamos continuar a luta dura entre as forças da violência e a força da justiça. A Virgem de Nazaré seu o filho, Jesus de Nazaré, já nos disse os critérios que devem nos guiar nesse momento decisivo da escolha do futuro presidente do Brasil”.

Um dos nove estados em que o presidenciável Fernando Haddad teve os votos da maioria da população – e único da região Norte com este resultado eleitoral -, o Pará reitera sua postura de organização política em defesa da democracia. Na cidade da Rainha da Amazônia, haverá cumplicidade com o segundo ato nacional da campanha Ele Não do próximo dia 20. Em Belém, o dia 29 levou às ruas cerca de 80 mil pessoas, de acordo com a organização. Vários coletivos atuantes de enfrentamento ao fascismo se integraram ao movimento à Mulheres contra Bolsonaro, como o núcleo paraense da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD-PA), a Frente Brasil Popular e o Ocupar a República.

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