Sociedade e Cultura

Ficar doente não torna ninguém melhor

 

02/08/2020 16:42

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Quando Freud descreveu pela primeira vez o fenômeno do narcisismo ele estabeleceu duas condições nas quais ele poderia ser observado em suas manifestações mais intensas. A primeira e mais conhecida é o amor. Quando nos apaixonamos, saímos de nós mesmos, regredimos cognitivamente, vemos coisas que não estão lá, sonhamos coisas que nunca tínhamos sonhado antes. Até nossa linguagem muda com a erupção de uma espécie de poética espontânea. Como toda patologia transitória o amor nos faz sofrer, ao mesmo tempo que atiça nossa vontade de por ele transformar ou ser transformado. O amor vem em séries animadas por dolorosas repetições, incluindo reedições desagradáveis de filmes que já não estavam há muito tempo em cartaz em nosso inconsciente. O narcisismo consagrou-se como propensão a adorar e cultivar demasiadamente nossa própria imagem, com seus indesejáveis efeitos colaterais envolvendo engrandecimento ou rebaixamento do sentimento de si.

Mas o segundo fenômeno fundamental na origem a descrição clínica do narcisismo é a situação de adoecimento. A maneira como interpretamos psiquicamente o adoecimento diz muito de nós, mais especificamente de nossa compleição narcísica. Há aqueles que se sentem vítimas de um castigo, como se estivessem sendo punidos pelo destino, por uma falta moral. Outros reagem agressivamente, como se aquilo fosse uma afronta inadmissível. Assim como no caso do amor, as vezes surgem lembranças e repetições de outros adoecimentos. Acredita-se que este seja o caso da síndrome de Münchausen, na qual o sujeito se corta ou ingere substâncias venenosas, para criar-se uma doença, geralmente enigmática e desafiante para os médicos. Ou o caso ainda mais intrigante da síndrome de Münchausen por procuração, na qual a mãe de uma criança cria condições insalubres para seu próprio filho, para depois poder correr por ele, de hospital em hospital, como que a repetir os périplos de cuidado e atenção.

Mas a montagem narcísica mais complicada, e talvez a mais frequente, seja aquela que cria uma espécie de laço compulsório de compaixão entre o cuidador e o cuidado. Neste caso o adoecimento dá ocasião para que os que estão à sua volta criem uma espécie de redoma de pena que confere ao adoentado uma espécie de imunidade para fazer e dizer o que bem entende. Está aqui a raiz da atração exercida pela condição de vítima. Explorada por muitos como uma ocasião pela qual um sentimento de excepcionalidade se vê confirmado e recriado pela realidade. Estar doente é criar-se um parêntesis na vida. Uma espécie de pequena viagem, durante a qual exigimos cuidados especiais e as restrições que valem para os outros estão suspensas para nós. Se a “baixa auto-estima” é o nome popular da versão amorosa do narcisismo, “chamar a atenção” é seu equivalente em torno dos modos narcísicos de adoecimento. Com estas duas expressões frequentemente nos engando como se ao darmos nome a coisa ela se resolvesse por si mesma. Pelo contrário, desqualificar ou sobrequalificar a situação apenas incita a que a demanda por ela causada se reapresente de forma mais grave e muitas vezes mais perigosa.

O truque aqui é considerar que o adoecimento não tornará ninguém pior nem melhor que outrem, mostrará apenas, mais nitidamente, o apego que cada qual possui em relação às suas vestimentas narcísicas. Neste ponto Freud observou um fato muito importante e ainda presente. Cuidar de alguém adoentado, especialmente quando isso adquire uma extensão crônica é uma das tarefas mais patogênicas que pode haver. Muito frequentemente o narcisismo do cuidador é destruído pelo protagonismo assumido pelo adoentado. Por isso, se você está cuidando de alguém doente, que reclama, que exige, que dá trabalho ... antes de tudo: cuide-se!



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