Sociedade e Cultura

Hoje, o ''eu'' é o campo de batalha da política. Culpem Michel Foucault

A ascensão da política confessional tem origem no distanciamento das estruturas e na aproximação do individual realizados pela esquerda pós anos 60

17/06/2021 09:50

''A confissão hoje é performada nas ruas, em galerias de arte, em locais de trabalho e nas redes sociais'' (Michael Reynolds/EPA)

Créditos da foto: ''A confissão hoje é performada nas ruas, em galerias de arte, em locais de trabalho e nas redes sociais'' (Michael Reynolds/EPA)

 
"Talvez estejamos vivendo o fim da política", escreveu Michel Foucault no final dos anos 70. Com a exaustão de utopias e alternativas radicais ao capitalismo, o que estava em jogo, ele escreveu, era desenvolver "novos tipos de relações consigo mesmos". O avanço político não é mais entregue por meio de "partidos, sindicatos, burocracia e política", ele escreveu. Ao invés, a política se tornou uma "preocupação moral e individual".

Nessa nova definição de política – na qual "tudo é político" e "o pessoal é político" – era pensado que o "eu" havia se tornado o campo de batalha da política contemporânea. Na época, muitos intelectuais, incluindo Foucault, anunciaram o "fim da era da revolução", inaugurando uma era na qual a transformação do "eu" se tornou o conceito mais popular de mudança social. Com o colapso de "grandes narrativas" coletivas, eles argumentaram, tínhamos então que olhar para dentro. Começando no final dos anos 60, a mudança política seria repaginada como a batalha contra o "eu", contra o "inimigo interno". Havia de se confrontar o "fascista dentro de cada um".

Essa mudança tornou o "eu" apenas mais um mercado a ser conquistado, com coachs de auto-ajuda, gurus da nova era, curandeiros energéticos, conselheiros alimentares, terapeutas alternativos e marcas de estilo de vida, todos tentando lucrar com essa mudança de visão para dentro. A política, como escrevia Christopher Lasch, "se degeneraria em uma batalha não pela mudança social, mas sim pela auto-realização". Mas, ao contrário do que pensou Lasch, a crescente "sensibilidade terapêutica" que ele observou não se tornou uma "anti-religião", baseada em "explicações racionais" e "métodos científicos de cura", mas utilizou suas próprias técnicas confessionais, reapresentando questões sociais como individuais.

Parecido com o foco cristão na alma, essa nova política do "eu" produziu uma cultura confessional, na qual as batalhas e lutas que aconteciam dentro, tinham que ser discutidas, confessadas e compartilhadas com as pessoas de fora. "O crescimento da consciência", "o auto-exame" ou o "auto-empoderamento" se tornaram técnicas chave. Essa tendência foi acelerada pela literatura e consultores de auto-ajuda, que ajudaram a trazer a cultura confessional à tona na nossa prática política contemporânea.

Hoje, essa mudança é visível no tom confessional das muitas formas do antirracismo contemporâneo. Discutindo o racismo nos EUA em um dos seus cursos de treinamento em "fragilidade branca", a consultora de diversidade Robin DiAngelo confessou para a sua audiência que ela mesma "conspirava" com isso "em todos os momentos da vida [dela]".

"Eu tento combater isso, o máximo que consigo", ela adicionou, "mas nunca consigo me livrar totalmente".

Em uma posição similar, Ibram X Kendi, autor bestseller e educador antirracista, argumentou que "ser antirracista" é "algo sempre contínuo"; exige "um persistente autoconhecimento, uma autocrítica constante, e um autoexame regular". O antirracismo se torna, então, uma prática de trabalho interminável do "eu", feita de um constante auto-exame seja nas ruas ou em espaços de treinamento de corporações e universidades.

Uma representação visual do que se parece esse tipo de política foi capturada na foto viral de líderes Democratas, incluindo Nancy Pelosi e Chuck Schumer, se ajoelhando vestindo vestimentas típicas de Gana após o assassinato de George Floyd pela polícia, e a subsequente aprovação da Lei de Justiça no Policiamento. Cerimônias similares foram realizadas por equipes esportivas profissionais, celebridades ou chefe executivos ricos como Jamie Dimon, que se ajoelhou em frente ao cofre do seu banco Chase.

Similarmente, é refletido nos apelos contra o racismo postados por diversas estrelas de Hollywood nas redes sociais. Em um tom abertamente confessional eles se filmaram "tomando responsabilidade" por "cada momento não controlado", cada "estereótipo", cada vez que "permaneceram em silêncio" ou "viraram o rosto". Ao invés de simplesmente olhar para dentro, no entanto, essa política confessional é jogada em público. Diferentemente da confissão privada ou da urna eleitoral, a confissão hoje é performada nas ruas, em galerias de arte, em locais de trabalho e nas redes sociais.

Ao contrário do que Foucault esperava, não vimos um retrocesso na confissão, mas sim uma intensificação e multiplicação em domínio público. As confissões seculares de hoje lembram cada vez mais as formas públicas e gritantes de penitências das primeiras comunidades cristãs nas quais os penitentes tinham que se "auto publicar" (publicatio sui, como o padre Tertullian colocou) por meio de rituais de humilhação para escolher o caminho para a pureza.

Esse novo tipo de política confessional toma forma, hoje, por meio de posts e desafios nas redes sociais, hashtags virais criadas por influencers, empresas como a Coca-Cola ou a Disney treinando suas equipes para "serem menos brancas" e "trabalharem sentimentos de culpa, vergonha, e atitude defensiva" ou propagandas da CIA com agentes falando contra o "patriarcado internalizado".

É uma confissão realizada não de acordo com um "voto de silêncio" divino, mas com o olhar pleno da publicidade. Inaugura um "trabalho da vida toda", como colocou DiAngelo, lutando contra o mal de dentro e se unindo a outros penitentes. É um mundo no qual o abandono da luta contra a exploração social e econômica mudou a política em direção a uma competição entre grupos confessionais, cada um afirmando publicamente a retidão do seu próprio caminho para a salvação.

Esse fenômeno é reforçado por corporações e indústrias de auto-ajuda que marcham cada vez mais profundamente para dentro das nossas psiques, nos encorajando a praticar "técnicas de mindfulness" no trabalho, por exemplo. É refletido em tudo desde o chamado do guru Peter Drucker para a "gerência de si", aos bestsellers da indústria de bilhões de dólares de desenvolvimento pessoal, às "regras da vida" do psicólogo canadense Jordan Peterson.

Mesmo com a crescente presença dessa política, suas lacunas estão cada vez mais claras. "Culpa branca e indignação negra", como apontou recentemente Cedric Johnson, professor de Estudos Afro-americanos", "possuem uma moeda política limitada, e nunca nenhuma foi uma base sustentável para a construção do tipo de maiorias populares e legislativas necessárias para, de fato, contestar o poder concentrado de modos significativos".

Na realidade, ele adicionou, essa "expressão militante de liberalismo racial" continuará "a protelar os tipos de bens públicos que podem de fato ajudar" todos aqueles que são "rotineiramente vigiados, assediados, presos, condenados, encarcerados e condenados como fracassos". Com os riscos materiais da política crescendo cada vez mais, muitos no centro liberal prefeririam que nos ocupássemos com rituais gritantes que anunciam nossas batalhas internas. Dessa maneira, eles revelam o fracasso de uma política baseada na tese, avançada por Foucault 40 anos atrás, de que as lutas do "eu" estão se tornando cada vez mais importantes no nosso mundo em relação àquelas sobre exploração e desigualdade.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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