Sociedade e Cultura

Ideologia, bom senso e racismo

O coronavírus expôs a verdade da ideologia neoliberal, imposta por uma pedagogia do ódio (marca fundacional de um continente colonizado e historicamente golpeado), baseada em convicções coloniais e racistas, como a negação dos povos indígenas, a rejeição do que é popular e supostamente bárbaro, e o tripé do modelo europeizante associado à civilização: a supremacia branca, o progresso e o mérito individual

27/06/2021 12:39

Villa 31, em Buenos Aires, Argentina (Ronaldo Schemidt/AFP)

Créditos da foto: Villa 31, em Buenos Aires, Argentina (Ronaldo Schemidt/AFP)

 
O filósofo marxista franco-argelino Louis Althusser, em seu livro “Aparelhos Ideológicos do Estado”, desenvolveu sua teoria da ideologia diferenciando-se da tradição marxista, tomando postulados lacanianos sobre a constituição do “eu”. Esse “eu” é formado por identificações organizadas a partir de ideais que dizem “você é isso”, condicionando a forma de incorporação das imagens.

Graças a Althusser, sabemos que o sujeito pode atuar contra seus interesses de classe – atuação que inclui o voto –, de acordo com suas identificações e ideais, pois, em sua teorização, não é a estrutura econômica o que determina a ideologia, mas sim um produto das identificações que constituíram o sujeito.

A ideologia, categoria ao mesmo tempo singular e coletiva, consiste em um sistema de representações, afetos e paixões que se instalam como formas de vida e se naturalizam. Cada época tem uma ideologia que inclui os valores, a perspectiva com a qual o mundo é visto. Da mesma forma, o sujeito vive em sua ideologia que, é em grande parte, inconsciente.

O coronavírus expôs a verdade da ideologia neoliberal imposta por uma pedagogia do ódio, marca fundacional de um continente colonizado e historicamente golpeado. Em vários países da América Latina, a ideologia neoliberal ganhou consistência a partir de convicções coloniais e racistas pré-existentes, como a negação das próprias origens nacionais (povos indígenas), a rejeição do que é popular e supostamente bárbaro, e o tripé do modelo europeizante associado à civilização: a supremacia branca, o progresso e o mérito individual.

O aparelho de poder neoliberal aproveitou a baixa autoestima nacional, a vergonha de formar parte deste quintal subdesenvolvido, para impor sua ideologia e as receitas que os “países sérios” propunham. O maior triunfo dos colonizadores no final do Século XV foi ter instalado os ideais civilizatórios e evangelizadores, a ideia da supremacia branca e a rejeição dos povos originários – “os índios” –, desprezados e considerados como seres inferiores. Essa concepção, encarnada no ódio de si mesmo, foi promovida pelos setores abastados, e foi germe que se alimentou durante anos.

A ideia de “combater a barbárie” por meio da educação, como dizia o velho caudilho argentino Domingo Sarmiento, tinha como princípio fundamental o desprezo pelo “gaúcho”, pelo “caipira”, por sua fama de “preguiçoso e incivilizado”. Os “índios”, os “gaúchos”, os “caipiras”, todos são parte dessa barbárie ignorante que impedia o progresso dos nossos países. Sarmiento promoveu na Argentina o ideal de que o europeu e o urbano são a solução para superar os males do país, impedindo que este se identifique com o rural, com o mestiço, com o indígena e com o pardo.



No final do Século XIX, com base nas disposições da constituição argentina de 1853 e na pressão das elites políticas, foi incentivada a imigração europeia: milhares de pessoas que chegavam em navios e eram as portadoras do progresso. A civilização, a rejeição da barbárie, o ódio ao popular, o mito de uma Argentina branca e as narrativas da superioridade europeia se consolidaram como uma realidade para grande parte da população. Uma história de sedimentação cultural, permanentemente preservada e estimulada por grupos de poder e o consentimento de uma parte importante da sociedade.

Há poucos dias, uma frase infeliz do atual presidente da Argentina, Alberto Fernández, se tornou a mais citada pelos meios de comunicação desde que ele assumiu o cargo, e causou rebuliço a nível nacional e mundial: “os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros vieram da selva, mas nós argentinos viemos dos barcos”. O gatilho do questionamento foi a referência às “origens” de mexicanos, brasileiros e argentinos, além do desejo de fazer uma deferência à Espanha, já que se tratava de um encontro com o presidente daquele país.

Vale a pena perguntar: o que levou o presidente Fernández a tal desatino, sendo ele uma figura que se percebe como um defensor de uma política inclusiva e contrária a todo tipo de segregação? Vários exemplos comprovam o caráter do mandatário, a começar pelo caso de Braian Gallo, um jovem que foi mesário durante as eleições de 2019, e sofreu um episódio de discriminação naquela oportunidade, devido ao seu modo de se vestir, com camiseta de um time de futebol e um boné virado para trás. Nas redes sociais, ele era ridicularizado e chamado de “pibe chorro” (ou “ralé” no Brasil). Em resposta ao ódio racista, Alberto Fernández recebeu Braian em sua casa e tirou uma foto icônica, na qual tomou dele o boné e o vestiu ao contrário, no mesmo estilo do seu convidado. Naquela ocasião, o então presidente eleito declarou que “o país que está chegando vai deixar para trás o preconceito e a discriminação”.

Já como presidente, Fernández criou o Ministério da Mulher, Gênero e Diversidade, defendeu Evo Morales e salvou sua vida, foi um dos primeiros em parabenizar Pedro Castillo, professor de escola básica da zona rural do Peru, em reconhecer sua vitória eleitoral e defendê-lo diante do perigo de um golpe da direita peruana. Nenhum desses atos políticos condiz com uma concepção elitista ou discriminatória, contraditória com a prática democrática, nacional, popular e feminista.

Como dissemos, uma parte da ideologia é inconsciente e se aciona em formas naturalizadas, ou como frases automatizadas, proferidas sem maior reflexão, pois foram instaladas como senso comum. Qualquer pessoa, mesmo um presidente que expressa uma rejeição sincera às práticas racistas, é, em maior ou menor medida, capturado pela ideologia prevalecente. Qualquer um pode, eventualmente, votar e agir contra seus interesses ou expressar uma afirmação contrária às suas convicções.

Ora, muitos políticos na Argentina falaram sobre esse lugar comum, historicamente instalado por grupos de poder. Então, por que só dessa vez a frase do presidente produziu medo e raiva popular?

A raiva social produzida por essa contingência não foi apenas um problema relativo à verdade histórica. Os lugares comuns, os preconceitos, são sedimentações ideológicas das relações de poder que testemunham triunfos hegemônicos nas formas de vida. O incômodo social que a frase do presidente produziu expressa uma mobilização de afetos coletivos e uma vontade de se limitar à naturalização das manifestações racistas instaladas como senso comum.

Tudo sugere que se trata de um momento de reativação ideológica, a nível regional, do ideal colonialista e europeu, sedimentado em um continente colonizado e sempre golpeado.

Temos a oportunidade de questionar seriamente essa história, de deixar de lado o colonialismo mental, as idealizações deixadas pelos países “civilizados” e assumir nossa miscigenação étnica, reivindicando a diversidade que somos.

*Publicado originalmente em el destape | Tradução de Victor Farinelli

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