Sociedade e Cultura

Lionel Messi: ídolo ou mercadoria?

O ídolo catalão, que nem é catalão, está deixando a Catalunha para se converter em um ídolo parisiense, apesar de ser propriedade de um catariano

14/08/2021 16:07

(Stephane de Sakutin/AFP)

Créditos da foto: (Stephane de Sakutin/AFP)

 
A pergunta no título deste texto pode parecer contraditória, mas não é, já que Lionel Messi consegue se encaixar em ambas as categorias. Para milhões de pessoas ao redor do mundo, ele é um ídolo que encanta com suas jogadas magistrais e seus gols maravilhosos – verdadeiras obras de arte daquilo que um dia foi considerado apenas um jogo, uma brincadeira, mas que hoje é chamado de esporte; e para um outro seleto grupo de pessoas, este 'jogo' não é nada mais que um negócio, onde existem mercadorias que – por conta da idolatria – lhes permitem lucros exorbitantes. E agora que o milionário Paris Saint-Germain (PSG) confirmou a contratação de Messi, o negócio e a idolatria estão concentrados entre Paris e Doha.

Não fosse o Catar, o PSG seria apenas mais um dos tantos clubes franceses de futebol. Mas como estamos no mundo dos negócios, a história se repete: sempre aparece um poderoso mais poderoso que outro poderoso para lhe surrupiar uma mercadoria valiosa. E a mercadoria, neste caso, é Messi, o menino nascido em Rosário, cidade argentina que não faz parte dos negócios, mas que não deixa de se orgulhar do seu ídolo, este que acaba de deixar o Barcelona de mãos vazias.

O Catar é um país nascido em 1971 e governado desde sempre por uma monarquia hereditária, que nada em petróleo, e que agora se apodera de uma joia que esteve por anos nas mãos de um outro poderoso, hoje em decadência. Este, por sua vez, a trouxe do chamado Terceiro Mundo vinte anos atrás, quando na Argentina ninguém tinha condições de investir naquele pequeno diamante bruto.

Embora não estejamos mais nos tempos da expansão capitalista, quando as potências colonializadoras competiam entre si para se apoderar das matérias-primas da América Latina, a história se repete: desde meados do século XX os jogadores de futebol foram inseridos neste processo de exploração. Eles são verdadeiros diamantes brutos, que necessitam apenas ser lapidados e então colocados no mercado, como mercadorias.

E não há motivos para se escandalizar: o esporte como hoje conhecemos nasceu no final no final do século XIX, e este estilo de competição entre times se assemelha àquele em que empresas lutam entre si para conquistar um mercado. Vence o mais forte, e o mais forte – ou o melhor – é o que ganha mais, ainda que a imensa maioria dos jogadores de futebol carreguem consigo a ilusão de fazer parte de uma elite à qual poucos têm acesso – situação parecida com a de milhares de empreendedores que começam um negócio por conta própria e que sonham em se tornar o Bill Gates. A maioria deles encontra apenas frustração no meio do caminho.

É como disse, certa vez, o ex-goleiro do Real Madri e do Celta de Virgo, Javir Maté: cria-se um fantoche, e então ele cresce, e explode. Depois, quando ele perde sua força ou deixa de agradar, ele é simplesmente descartado; e então um novo fantoche é criado. Maté foi categórico em suas palavras: "os jogadores são mera mercadoria".

E Messi é hoje o diamante mais precioso. Como já o foram antes os argentinos Di Stefano e Sívori, os brasileiros Romário, Ronaldo e Ronaldinho, dentre outros milhares de talentos vindos da pobre e subdesenvolvida América Latina. E, claro, como Maradona, o único que carregou consigo, pelo mundo e pelas ruas de Nápoles, no subdesenvolvido sul da Itália, a luta da resistência dos mais pobres.

Agora, o ídolo catalão – que tampouco é catalão – deixa a Catalunha para automaticamente se converter em ídolo do parisiense PSG, mesmo sendo propriedade de um catariano. Mais do que propriedade, Messi é um ''ativo'' do PSG, como já deixou bem claro o seu novo dono, Nasser Al-Khelaifi. É como diria Bill Clinton, diretamente dos EUA: é a globalização, estúpido! Enfim, a 'mercadoria' Messi está sendo transferida para Paris.

E em Barcelona, também, as coisas seguiram normalmente. Como a 'mercadoria' Messi já não tem mais valor na Catalunha, os dirigentes do Barsa já removeram o seu nome do icônico estádio Camp Nou. Claro que não conseguirão apagar o ídolo cravado no coração dos catalães, já que ídolos não se apagam. Mas as mercadorias, sim.

Por conta disso, é nostálgico imaginar que muitos dos grandes ídolos sul-americanos que já foram descartados por não 'faturarem' mais e que terminaram os seus dias na pobreza não estejam mais entre nós para ouvirmos seu testemunho. E só para lembrar de alguns nomes, podemos citar o do brasileiro Mané Garrincha, que tinha dribles extraordinários, ou o uruguaio Obdulio Varela, o ''Chefe Negro'', líder do ''maracanaço'' de 1950, ou até o maravilhoso René Houseman, o argentino de pernas tortas. Eles fazem parte de um time de ídolos que ficará para sempre guardado em nossa memória. E, parafraseando Varela: "não se mexe em time que está ganhando".

E, claro, também não é o caso de apontar o dedo e julgar Messi, já que continuaremos desfrutando da sua admirável habilidade no gramado, seja como ídolo, mercadoria, ou até mesmo como engrenagem desta poderosa máquina chamada futebol.

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Marcos Diniz

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