Sociedade e Cultura

Massacre em escola reacende debate sobre armas no Brasil

Cinco estudantes e duas funcionárias de uma escola no estado de São Paulo foram mortos. Dois jovens entraram na escola atirando e depois se mataram

15/03/2019 18:37

 

 
Eram nove horas da manhã quando Luiz Henrique de Castro, 25, e Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, abordaram um pequeno comerciante de locação de automóveis de Suzano, na periferia de São Paulo, Brasil, matando-o a sangue frio após lhe roubar um veículo. Continuando a trajetória macabra, os dois jovens se dirigiram à sua antiga escola, onde, armados com uma pistola calibre 38 e de um machado, um arpão e um arco e flechas, assassinaram cinco alunos e duas funcionárias antes de se matarem. Um massacre que remete ao de Columbine, nos Estados Unidos, em 1999, que comoveu o mundo.

Rapidamente, o governador de São Paulo, João Doria, chegou ao local expressar solidariedade aos familiares e amigos das vítimas, seguido, à tarde, pelo presidente Jair Bolsonaro. "Presto minhas condolências aos familiares das vítimas do desumano atentado ocorrido hoje na Escola Professor Raul Brasil, em Suzano, São Paulo. Uma monstruosidade e covardia sem tamanho. Que Deus conforte o coração de todos!”, escreveu o presidente no Twitter.

"O Brasil precisa de paz"
Bastaram algumas horas para que as condolências se transformassem em disputa política. A presidenta do Partido dos Trabalhadores Gleisi Hoffmann reagiu rapidamente, criticando Jair Bolsonaro – sem citá-lo –, cujo discurso "estimula a violência" e denunciando sua intenção de liberar o porte de armas. "O Brasil precisa de paz", escreveu no Twitter a porta-voz do partido de Lula. O chefe de Estado, militar na reserva, que confessou dormir com uma arma perto de sua cama em Brasília, foi eleito com a promessa de acabar com o "estatuto do desarmamento" de 2003.

Logo, pessoas próximas do presidente lançaram uma contraofensiva ao discurso que atribuem aos militantes de esquerda. O filho mais velho de Bolsonaro, o senador Flavio Bolsonaro, disse que o assassinato, provocado "mais uma vez" por um menor "atesta o fracasso do infeliz "Estatuto do Desarmamento" ainda em vigor". Uma forma de pressionar tanto pela revogação da lei sobre o desarmamento votada no governo de Lula, que o líder da extrema direita abomina, mas também a redução da maioridade penal para 16 anos, outro tema caro ao presidente.

"Não podemos deixar que se utilize essa tragédia para dizer que o desarmamento é a solução. Estas armas são ilegais e foram obtidas e usadas por adolescentes! A política pró-desarmamento fracassou! E os perdedores são as famílias brasileiras", insistiu o senador Major Olímpio, do partido do presidente, o PSL.

Freio ao crescimento exponencial do crime
Para os que apoiam o afrouxamento das regras para a posse e o porte de armas de fogo, há pouco debate. Utilizando o dado de 60 mil homicídios registrados no país anualmente – a grande maioria por armas de fogo –, os aliados da "bancada da bala" dizem que proibir armas não trouxe nenhuma melhoria ao cotidiano dos brasileiros, tendo apenas enfraquecido os "cidadãos de bem", incapazes de se defender com um arsenal comparável ao dos bandidos.

A teoria é contestada por um estudo publicado em 2015, no relatório "Mapa da Violência", que afirma que a lei de 2003, embora incapaz de reverter o número desconcertante de assassinatos, teria permitido frear o crescimento exponencial de crimes, poupando mais de 113 mil mortes em pouco mais de uma década.

Por enquanto, a origem das armas usadas neste novo massacre ainda é desconhecida. Mas Jair Bolsonaro pode recear que a compra da arma tenha sido favorecida por seu recente decreto. Incapaz de revogar a lei de 2003, que requer aprovação do Congresso e não tem o apoio da maioria da opinião pública, o Presidente alterou por decreto alguns parâmetros da legislação vigente sobre a compra de armas, que ficou consideravelmente mais fácil.

De acordo com estimativa da Folha de São Paulo, o Brasil foi palco de pelo menos sete casos de massacres semelhantes em escolas. Uma escalada de dramas que o vice-presidente, general Hamilton Mourão, atribui ao vício dos jovens em videogames. "Tenho netos e os vejo muitas vezes mergulhados nisso aí. Quando eu era criança, jogava bola, soltava pipa. A gente não vê mais essas coisas", disse ele de Brasília. A polícia não descarta esse dado, mas prioriza a tese de vingança de dois estudantes vítimas de bullying.

*Publicado originalmente no Le Monde | Tradução de Clarisse Meireles





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