Sociedade e Cultura

Não somos só isso

 

11/10/2020 15:23

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Coitadinho do Brasil. Está tão caótico, tão sem pé nem cabeça e, ao mesmo tempo, tão solidamente ruim – ruim no sentido de ruindade, pior ainda do que o sentido da falta de qualidade, que aliás também se aplica ao uso atual da palavra, se referida ao nosso país. Ruim como se diz que um doente está ruim em alusão a gravidade de seu estado. Pois o Brasil tem estado solidamente ruim, nos três sentidos da palavra. Malvado, estragado e doente. Chega a ser difícil escrever sobre o país sem falar mal dele. Coitadinho do Brasil.

Só que bateu uma enorme preguiça de falar mal dele. É que senti – sinto – muito dó desse nosso país. Me fez recordar o poema Pátria minha, em que Vinícius de Moraes declara sua vontade de pegar o país no colo, embalá-lo, consolá-lo. Nesse poema de 1949, Vinícius acrescenta que chora de saudades de sua pátria. Ele vivia em Los Angeles como vice-(Reprodução)cônsul do Brasil. Mas não era só a distância geográfica que despertava as saudades do poeta – é que o Brasil, naquele momento, já não era mais o país que o poeta adorava. Aqui vicejava o Estado Novo, expressão neutra para designar a ditadura Vargas. Em seu primeiro mandato, como presidente democraticamente eleito, Getúlio ganhou a alcunha de “pai dos pobres” por ter instituído o salário mínimo. Último país livre a abolir a escravidão, o Brasil finalmente fazia alguma justiça aos descendentes de escravos – estes que, após a abolição, foram dispensados sem receber qualquer reparação pelos anos de trabalhos forçados. Estes que, libertos, foram simplesmente jogados nas ruas, nas estradas, sem eira nem beira. Sem instrução, sem preparo, a maioria dos descendentes de africanos escravizados era obrigada (na melhor das hipóteses) a executar pesados trabalhos braçais, recebendo em troca os tostões que o “patrão” se dispusesse a pagar.

Com Getúlio, os pobres do Brasil finalmente conquistaram o direito a um salário padronizado por lei, que não dependia mais do arbítrio e da “bondade” dos patrões. A pátria que Vinícius queria consolar não era a do pai dos pobres; era a pátria submetida à ditadura Vargas. Em 1949 o poeta não poderia imaginar que o pior viria depois: o suicídio de Getúlio em 1954 e, após meros dez anos de democracia com Juscelino e Jango, o golpe militar destinado a durar quase duas décadas, deixando atrás de si um rastro de mortos, de desaparecidos políticos, de sobreviventes traumatizados pela tortura.

E não choramos nós também, que continuamos aqui, com dó de nossa patriazinha? Não sentimos saudades do que já foi o Brasil? Não choramos por nossas esperanças perdidas, nosso projeto abortado de país menos desigual e mais alegre – dessa alegria que, para Oswald, era a “prova dos nove”? Não nos sentimos todos, de certa forma, duplamente exilados? Primeiro, porque não podemos ir ao encontro do Brasil, escondidos em casa pela quarentena. Estamos em estado de “Eu vi um Brasil na TV[1]”. Segundo porque, se saíssemos... nosso Brasil, como a Minas Gerais de Drummond, não há mais.

Hoje já não reconhecemos o Brasil. O maior país católico do mundo virou um país evangélico. Poderíamos nos consolar ao supor que a moralidade evangélica seja – deveria ser – mais exigente do que a católica, na qual os piores pecados podem ser absolvidos ao preço barato de uma confissão, uma oferenda à Igreja e algumas penitências. Talvez nos beneficiássemos de um protestantismo empreendedor, como o que ajudou a desenvolver os Estados Unidos. Só que não estamos em tempos da ética protestante que impulsionou o capitalismo na América do Norte[2]. O ramo pentecostal que domina não apenas o governo, mas uma parcela enorme do povo brasileiro, parece arremedar o programa Topa tudo por dinheiro, comandado por Sílvio Santos. Quanto maior a oferenda, maior a chance de ganhar uma vaga no reino dos céus. Quem já passou pelo Templo de Salomão[3] na zona leste de São Paulo deve ter entendido que o dinheiro compra tudo, menos bom gosto. Mas se a intenção era impressionar pelo tamanho, o bispo Macedo conseguiu.

Entretanto, somos forçados a reconhecer o Brasil que há muitas décadas vem destruindo a Amazônia e o Cerrado. A devastação não é novidade. A abertura da Transamazônica durante o governo Médici[4], além de destruir milhares de quilômetros quadrados de mata virgem, usou de um desfolhante químico semelhante ao que os norte-americanos usaram no Vietnã. Em depoimento à Comissão da Verdade, os indígenas mais velhos da etnia Waimiri-Atroari relataram que os aviões militares jogavam sobre as aldeias um pó amarelo que fazia cair todas as folhas das árvores e “queimava a gente por dentro[5]”. Em Roraima, os Yanomami relataram à CNV que a BR 174 aberta em suas terras para entrada do garimpo e dos madeireiros trouxe epidemias contra as quais os indígenas não tinham defesas naturais. Além disso, a invasão dos “civilizados” exterminou e/ou afugentou a caça e os peixes, além de e poluir com mercúrio as águas, até então cristalinas.

O pesadelo vivido por estes e muitos outros povos indígenas que tiveram suas terras demarcadas a partir da Constituição de 1988, acaba de voltar numa versão mais catastrófica, a das queimadas na Amazônia e no Cerrado, incentivadas pelo mandatário da nação. Este que, ao ver que o fumacê pegou mal no mundo inteiro, valeu-se de um expediente perverso: o de acusar os próprios os sertanejos e indígenas pelos incêndios criminosos. Ninguém me convence de que o calor de 40 graus que nos castiga desde as últimas semanas do inverno não tenha sido um dos efeitos deletérios dos tais “dias do fogo”.

Prometi não falar mal do Brasil, mas não consegui. Estou na terceira página e até agora não fiz outra coisa. Mas insisto: o Brasil não é só isso. O Brasil é o padre Júlio Lancellotti, que arrisca a vida ao distribuir, todos os dias, alimento e agasalhos aos moradores de rua da Zona Leste de São Paulo, onde fica sua paróquia. Não, leitores: não são os moradores de rua que colocam em risco a vida do Padre Júlio. São os seguidores de um tal de “Mamãe, falei[6]” que já ameaçaram várias vezes o padre de morte. Vale apontar o paradoxo de um valentão que precisa desafiar a mamãe para incitar a violência e a maldade num país que não precisa de nenhum incentivo para isso.

O Brasil também são os dois milhões de militantes do MST, que produzem alimentos sem agrotóxicos em seus assentamentos e ofereceram 12 toneladas de arroz orgânico para distribuir entre pessoas famintas que perderam seu trabalho e suas casas na crise produzida pela pandemia. Pela pandemia...? Mais exato dizer: pelo descaso com que o atual governo tratou as populações vulneráveis, nessa pandemia.

O Brasil são os músicos do Brasil e os milhões de brasileiros que sabem de cor suas canções. Algumas, feitas de medida para os dias de hoje. Apesar de você e Cale-se, de Chico Buarque. Louvação (só para o que deve ser louvado), de Gilberto Gil. Clube da Esquina, de Milton Nascimento: “Noite chegou outra vez...”. Carcará, de João do Vale (“pega, mata e come!”). Sinal fechado, de Paulinho da Viola – o título, para nós hoje, diz mais do que os versos da canção. Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Terra, de Caetano Veloso (“Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia...).

O Brasil são o Grande Sertão de Guimarães Rosa e as Memórias do Cárcere do valente Graciliano Ramos, que narra na melhor prosa do século vinte o período em que ficou preso por ser comunista, durante a Ditadura Vargas. O Brasil é Passagem da Noite, poema de quarenta versos de Carlos Drummond de Andrade, em que os vinte primeiros (“É noite, sinto que é noite/ não porque a treva descesse [...] mas porque dentro de mim/ no fundo de mim, o grito/ se calou, fez-se desânimo”) seguem-se outros vintes, exultantes e cheios de esperança (“Mas salve, dia que surge!/ E salve, olhar de alegria”...)[7].

E, pra não dizer que não falei do povo... o Brasil são as centenas de milhares de pessoas esperançosas que foram à Vila Euclides, em outubro do ano passado, saudar o presidente Lula que acabava de sair da prisão.

***
[1] Verso da música Bye Bye, Brasil, composta por Chico Buarque para o filme de mesmo nome dirigido por Cacá Diegues.
[2] Ver Max Weber. A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904).
[3] Na Zona Leste de São Paulo
[4] Terceiro ditador depois do golpe de 1964, governou de 1969 a 1974.
[5] Ver Anexo ao Relatório da Comissão da Verdade (2014), “Graves violações de direitos humanos contra camponeses e povos indígenas”, investigações conduzidas sob minha responsabilidade.
[6] O deputado estadual Artur do Val
[7] Que me perdoem os leitores mais jovens: todas as referências – músicas, livros, etc  –
 que tenho de cor, são as do século vinte!



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