Sociedade e Cultura

Nem Freud Explica: ''Valores cristãos''

 

30/06/2020 12:09

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
:: Leia mais: Especial 'Nem Freud Explica...' (CLIQUE AQUI)

Fui escolarizada, do primário até o primeiro colegial, em colégios de freiras – minha mãe era católica assim como a mãe dela. Do lado de meu pai, incluindo avô e avó, eram todos agnósticos. Um dia ainda hei de refletir melhor sobre o impacto que essa contradição teve sobre meu modo de estar no mundo –nessa altura da vida, tenho alguma noção de qual tenha sido a síntese possível que consegui fazer, a partir dos elementos antitéticos dessa dialética familiar.

Nos primeiros anos do primário uma das freiras, mère Regina, além de nos assustar com a permanente ameaça do inferno, nos contou com toques de ficção científica seu encontro com o diabo, que veio tentá-la (posso imaginar como) em meio a uma nuvem de enxofre. Mas o colégio Rainha da Paz, da ordem dos Dominicanos, se tornou rapidamente progressista: sorte nossa que a década de 1960 tenha conhecido, no Brasil, a chegada da Teologia da Libertação. Se lhe disserem que isso era “coisa de comunista”, não acredite. Como hoje comunista virou um palavrão (Reprodução)que poucos sabem o que significa, mas serve para “acusar” qualquer um que sonhe apenas com a redução da miséria vergonhosa com que o Brasil parece estar acostumado sugiro que, algum dia, a Carta Maior faça uma edição inteira discutindo não o Stalinismo, mas os valores que nortearam Marx e Engels ao escreverem seu incrível Manifesto. Este não é, como os que não leram devem imaginar, uma peça de doutrinação política. É apenas a reivindicação do fim da exploração do homem pelo homem. É evidente que isso viraria de cabeça pra baixo o mundo, tal como o conhecemos desde o final da idade média. Mas por que um mundo que produz tanto sofrimento, tanta miséria, tantas guerras injustificáveis, não deveria ser virado de cabeça pra baixo a partir de uma perspectiva de justiça social?

Para os incautos que se perguntam: que exploração é essa, se todos precisam e querem trabalhar? – vale completar essa leitura com o primeiro capítulo de O capital, onde é revelado o segredo do lucro, este que parece apenas o prêmio natural que o capitalista recebe por seu empenho empreendedor. A explicação de Marx para a mais-valia é quase didática de tão clara. Não é doutrinária. Trata-se de uma especulação aritmética que visa entender de onde o capitalista retira seu lucro.

Já a libertação que a Igreja católica propunha, em sua fase progressista, se resumia na seguinte proposta: não dê o peixe ao homem ensine-o a pescar. O que está em jogo, na Teologia da Libertação, é a dignidade dos pobres. “Não dê o peixe, ensine-o a pescar”. A mesma dignidade que Paulo Freire (aquele “comunista”!) soube recuperar com seu método de alfabetização de adultos a partir dos nomes dos objetos de uso comum, na casa e no trabalho. Assim como acontece com aquele que aprende a ler, também as humildes as ferramentas de trabalho adquirem dignidade ao emprestar seus nomes para a alfabetização de seus usuários.

Retorno a estes autores e seus conceitos básicos, mas aviso ao leitor que esse texto não propõe nenhuma revolução. Nesse tempo assolado por uma pandemia pior do que todas as sete pragas do Egito, e que coincide morbidamente com um governo soi disant “cristão” (Cristo, desde 2018, deve estar se contorcendo na cruz), escrevo essa coluna para convocar os leitores a se unirem a algumas iniciativas que visam simplesmente a impedir que as pessoas morram de fome. E de frio, quando o inverno atingir todas as famílias de pais recentemente desempregados que perderam suas casas; ou mesmo os moradores de rua já habituados a dormir ao relento, mas que no momento estão arriscados a morrer de fome e frio em calçadas onde ninguém passa para lhes dar alguma coisa, nesses tempos de pandemia.

Na área da cultura, os cinemas fechados se viram colocando seus acervos no streaming, mas os teatros não têm como abrir as portas para exibir a forma de arte mais antiga do mundo – obrigatoriamente presencial. O mesmo acontece com as casas de espetáculos. Vale informar que a mais interessante de todas elas, a Casa de Francisca, tem disponibilizado a filmagem de um de seus melhores shows, que em 2006 reuniu no teatro Oficina todos os músicos que já tinham tocado lá, a fim de arrecadar fundos para uma reforma no antigo espaço. O “ingresso” custa o que o espectador se puder pagar, a partir de 30 reais.

Pois é, moçada: chegou a hora de fazer valer a velha caridade, cristã ou pagã. Entre os que se dizem cristãos, excluo uma parte (não todos), dos evangélicos que se abrigam no monstruoso “Templo de Salomão” da turma do Edir Macedo, aliados aos falsos cristãos bolsonaristas, de revólver em punho, incapazes de qualquer migalha de amor ou compaixão pelo próximo.

O fato é que me valho dessa coluna – a primeira que escrevo para a Carta Maior – a fim de divulgar algumas iniciativas individuais ou populares cujos beneficiários serão muito gratos a quem tiver 10, 20 ou 100 reais para contribuir com seu empenho em impedir que as pessoas morram de fome e, a partir de agora, de frio. Aí vão alguns endereços de entidades para as quais vale a pena doarem o que for possível. Ninguém precisa se sacrificar.
Hoje, mais que nunca desde que inventaram esse bordão, é preciso que “ninguém solte a mão de ninguém”. Façamos um esforço concentrado para que, passadas as duas pandemias que ameaçam destruir a sociedade - a covid-19 e, mais maligna que ela, o governo Bolsonaro que não se solidariza com o sofrimento de ninguém - ainda exista algum Brasil que valha a pena.

CUFA – Central Única das Favelas – o nome fala por si só. Foi criada em 1999 por jovens – a maioria negros - de várias favelas. A iniciativa foi de Athaide e M.V. Bill. Nessa crise, milhares de trabalhadores das favelas perderam seus empregos. Não são “vagabundos”. Precisam de ajuda. Em: adote uma favela / kickante.

Padre Júlio Lancelotti
– Além de sacerdote é pedagogo. Sua paróquia é na Mooca, e reza missas na capela da Universidade São Judas. Sua atuação não se limita a sua paróquia, onde na crise tem fornecido alimentos e cobertores para moradores de rua. Em 2018 um catador foi assassinado pela polícia, em Pinheiros, e padre Júlio rezou missa por ele na Igreja do bairro. Os defensores dos direitos humanos compareceram em massa. Não há um link para as colaborações, é preciso fazer transferência bancária.

Paróquia São Miguel Arcanjo
Banco – Bradesco
Agencia – 0299
Conta - 034857-0
CNPJ - 63.089.825/0097-96

Central sindical e popular Conlutas
– Organiza as lutas contra as reformas neoliberais que sacrificam os trabalhadores. Em SP, propõe uma união entre outros movimentos sindicais e populares. Também é preciso fazer transferência bancária para:

 Daniela Almeida Enbon

COMLUTAS (MST)
.
Banco do Brasil
Agência 4752
Conta 178500

Associação de amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes
– A Florestan é um centro de Formação dos militantes do Movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST). Com a colaboração gratuita de professores e intelectuais de esquerda, oferece formação de excelente qualidade a militantes de todo o Brasil, indicados por suas comunidades para um período de estudos lá. Banco Itaú – Ag 660 – cc 441981

Teatro do Centro da Terra
– criado nos anos 1990, com sede na rua Piracuama (bairro do Sumaré), apresenta peças teatrais e shows de excelente qualidade com artistas que trabalham fora do mainstream.

Cartas para o Centro da Terra LINK: apoia.se/centrodaterra

Aldeias infantis
– uma opção para quem quer colaborar com entidades menos politizadas. As “Aldeias” são moradias para crianças órfãs ou abandonadas. CNPJ 35.797.364/0001-29

E mais:

Médicos sem fronteira – site: www.msf.org.br

Instituto Vladimir Herzog - site: vladimirherzog.org

Instituto Boal
Julian Matias Pinto Boal Banco do Brasil – ag. 3521-1 Conts17-749-0

Obrigada, até Julho!



Conteúdo Relacionado