Sociedade e Cultura

Nem Freud explica...

 

29/03/2020 10:39

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Dora chega ao consultório com a seguinte pergunta: como logo eu que me horrorizava com relatos na TV de mulheres que sofriam agressões físicas de seus maridos, me vi envolvida com um namorado que me espancava? A pergunta poderia ser formulada de outro modo: como a despeito de todas as minhas convicções conscientes eu me coloquei numa posição contrária aos interesses do meu Eu? A lembrança que revelou a ponta do iceberg foi extraída do relato minucioso do primeiro encontro com o namorado abusivo. Durante seu primeiro voo na classe executiva de sua carreira meteórica numa multinacional, ela, que era ainda uma emergente, conheceu seu sedutor: um homem de berço aristocrático, que demonstrava todo seu savoir faire na semiótica da bussines class, entendia desde harmonização de vinhos a economia, transitava com desenvoltura em temas como teatro, cinema e literatura. Ela fascinada.

Trocaram telefones e ele já havia escolhido o restaurante incrível do Guia Michelin onde a levaria para conhecer. Durante o desembarque eles se distanciaram em razão do fluxo de passageiros, mas logo depois ele a alcançou, pegou forte no seu braço e disse incisivo: “Você não iria me esperar?!” Ela pensou: “Ual! Ainda por cima ele tem pegada!”

Qual a relação disto com a ascensão da extrema direita no mundo?

Sob condições narrativas muito específicas, a depender dos nossos desejos e fantasias inconscientes, nós podemos nos iludir. Ilusão para Freud é efeito do nosso desejo de acreditar que estamos diante daquilo que vai satisfazer nossos desejos, realizar nossas fantasias inconscientes e nos livrar de nossas angústias mais primitivas.

Mas como o discurso de um líder pode produzir essa ilusão? De acordo com Freud, se observarmos a atitude de pais afetuosos para com seus filhos seremos forçados a reconhecer que: “Assim, eles se veem compelidos a atribuir à criança todas as perfeições - ainda que uma avaliação sóbria não desse motivo para tal - e tendem a encobrir e esquecer todos os defeitos dela.” (Freud, 1914)

Dora ressignificou o ato que machucou seu braço como o gesto de um homem viril que sabe dominar uma mulher na cama.

O encantamento amoroso caracteriza-se por um tipo de olhar que transforma o objeto dessa avaliação num Eu perfeito, sem defeitos, ou seja, num Eu Ideal.

O mesmo mecanismo pode entrar em cena no fascínio pelo líder do grupo: ele passa a ser percebido como perfeito, há uma negação dos seus defeitos (Verleugnung), ele não deve ser submetido aos mesmos imperativos que a cultura - incluindo aqui a ciência - nos obriga a acatar ao longo da vida, por exemplo numa estratégia de isolamento horizontal para combater uma pandemia. Renúncia ao prazer imediato, restrições à própria vontade não devem valer para o líder carismático; as leis da sociedade devem se deter diante dele, ou melhor ainda, Ele não está sujeito a Lei, Ele edita sua própria Medida Provisória. Se um outro entra em cena atraindo a atenção e a admiração da claque de adoradores, his Majesty the Baby se tornará ciumento e invejoso e não poupará esforços para voltar a ser o protagonista da cena.

O gestor narcisista destrutivo não aceita dividir o palco, a não ser que seja com um ator coadjuvante cuja única função na trama é atestar seu valor como herói salvador, cujo mérito é saber escolher um time “imprecionante” (sic) de notáveis; ou com um antagonista que encarnará o papel de representante do anti ideal, personagem malígna que ele precisa derrotar para proteger seu rebanho.

Mas o que acontece quando a ciência que ele tanto nega atesta o perigo ainda desconhecido do COVID-19? Simples: é só recorrer a essa mesma ciência, citar alguns pesquisadores norte americanos, de preferência membros de universidades renomadas e demonstrar que é possível combater o vírus e ao mesmo tempo salvar a economia. Mas é preciso mais uma camada de elaboração onírica. Os interesses do ego do líder e de seus patrocinadores devem ser travestidos de uma preocupação genuína com a vida dos nossos entes mais queridos, avôs e avós, e também dos empregos que saciam a fome dos mais pobres.

Contardo Calligaris faz uma ressalva: não haveria o perverso sem um laço perverso. A pergunta aqui é: qual a psicodinâmica do iludido? Por que o iludido não cede aos nossos brilhantes argumentos? Por que a razão não ilumina estes que regrediram à Idade Média? Por que as pessoas quando confrontadas com as evidências não se rendem à verdade?

Porque os critérios de verificação da verdade estão em cheque. Se antes a verdade vinha de Deus, depois da ciência, agora a verdade está no meu grupo de WhatsApp. O problema está então nas fake news pela sua capacidade de falsear os fatos? Não tão somente. Se fosse assim bastaria encaminhar um artigo científico para alguns membros do “grupo família” (sic) e eles mudariam de ideia. As fake news e os memes são eficazes porque se enlaçam perfeitamente na trama discursiva dos destinatários.

Freud já dizia que o Eu é escravo de três senhores: a realidade e suas exigências adaptativas; o Eu Ideal e suas exigências de perfeição; o Id e suas exigências de satisfação pulsional (satisfação dos “instintos” sexuais e hostis). Como o Eu decide que uma mensagem é verdadeira? A mensagem não precisa ser verdadeira, ela precisa apenas ajudar o Eu a se adaptar à realidade, estar em sintonia com os seus valores e dar um destino possível para seus impulsos mais secretos.

Quem sabe melhor usar os algoritmos digitais para decifrar as psicodinâmicas de cada grupo específico de interlocutores será mais capaz de criar não necessariamente as mensagens mais verdadeiras, mas os enunciados ou os atos de fala com maior poder performativo.

Julio Cesar Nascimento
Psicólogo pela Universidade de Brasília - UnB
Especialização em Teoria Psicanalítica pela PUC - SP
Mestre pelo Núcleo de Psicanálise da PUC - SP
Professor do Curso de Formação do Centro de Estudos Psicanalíticos



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