Sociedade e Cultura

Nem todos são nossos inimigos

 

23/08/2020 13:46

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Após minha palestra no projeto “Roda da Diversidade” uma jovem da platéia pede a palavra e pergunta como lidar com sua mãe, segundo ela, homofóbica. Ela contou para sua mãe que era lésbica. Depois de procurar tratamento para “curar” a filha, tentar descobrir onde ela (mãe) teria “errado” na educação da filha e outra meia dúzia de reações clássicas desta fase, a mãe aceitou a orientação sexual da filha. Mostrava-se, inclusive, interessada na sua vida amorosa, queria conhecer a namorada da filha e pedia para que ela a trouxesse na sua casa para conhecê-la. Depois de alguns meses a jovem, sentindo-se aceita pela mãe, decide compartilhar outras ideias sobre sexualidade e vida conjugal. Ela confessa a mãe que não acreditava em relações monogâmicas e que estava “saindo” com 2 mulheres ao mesmo tempo, que namorava com as 2, e ainda que todas as 3 eram livres para encontros sexuais fortuitos com outras mulheres sempre que desejassem. A mãe passou a falar todos os dias que estava muito preocupada com o futuro da filha, pois agindo desta forma acabaria sozinha, infeliz e sem ninguém para cuidar dela. A jovem passa então a acusar a mãe de homofóbica e elas passam a discutir semanalmente.

Eu respondi para esta jovem que, apesar de não conhecer sua mãe, levantaria a hipótese de que ela não é homofóbica, ela seria na minha leitura romântico fílica. Sua mãe provavelmente acredita que sem a vivência de um amor romântico tradicional uma mulher não pode ser feliz. Não importaria se o objeto deste amor fosse outra mulher, mas provavelmente esta mãe cresceu e foi ensinada a pensar que uma relação amorosa monogâmica é um pré requisito para a felicidade. Muitos podem discordar dessa visão de mundo, podemos até adjetivar esta posição diante sexualidade de sua filha de conservadora ou machista, mas ela não pode ser considerada homofóbica.

Ora qual a relação disso com a polarização política que estamos vivendo no Brasil?

Muitas vezes tomamos como inimigos políticos pessoas que não necessariamente tem valores diferentes dos nossos. Tanto a jovem quanto a sua mãe valorizam a experiência amorosa, mas a concepção de felicidade amorosa das duas é diversa. Essa ausência de compreensão perspicaz das diferentes posições cria mal entendidos, distorce as realidades e portanto inviabiliza a comunicação.

Numa estratégia de comunicação manipuladora dirigida para esta mãe seria suficiente que o emissor das mensagens conseguisse demonstrar que a homossexualidade necessariamente acaba por induzir as pessoas a uma prática sexual promíscua, que exclui o amor romântico e portanto a possibilidade de felicidade. Esta comunicação feita sobre medida semearia em terreno fértil, uma vez que a filha, por interpretar o romantismo da mãe como homofobia, já estaria suficientemente afastada da mãe, não conseguindo, portanto, oferecer um contraponto discursivo que pudesse fazer a mãe questionar as falácias lógicas contidas no discurso panfletário. Uma vez convencida que a homossexualidade é incongruente com o amor romântico, bastaria agora convencê-la também que a filha passou a acreditar nessas ideias deste que entrou na universidade pública e começou a conviver com jovens filiados a partidos de esquerda. Se a filha tivesse participado das manifestações #elenão bastaria enviar a esta mãe fotos e vídeos fakes de meninas fazendo xixi na rua, supostamente na mesma passeata, para a mãe concluir que a filha “se perdeu”. Claro que tudo isso é muito machista, pois poderíamos nos perguntar porque um homem pode fazer xixi no poste e isso não o torna menos desejável para algumas mulheres, enquanto a visão de uma mulher fazendo xixi na rua a torna, no olhar de alguns homens, uma mulher decaída.

Tudo isso é questionável e digno de reflexão. Mas meu argumento é: esta mãe apenas quer a felicidade da filha, mas por questões históricas e familiares acredita piamente que esta felicidade só pode advir de uma relação amorosa romântica monogâmica.

Transformar a pauta dos costumes em pauta política é uma estratégia eficaz de manipulação. Quanto mais a filha se afastar do diálogo, mais esta mãe ficará refém de discursos manipuladores, que a convencerão de que a felicidade da filha será inviabilizada pela filiação a ideais de esquerda.

Este roteiro com algumas variações aconteceu em muitas famílias brasileiras e entre muitos amigos: ao percebermos uma divergência de opiniões em um ponto específico, confundimos uma discordância pontual com um posicionamento inteiramente divergente. Quando fazemos isto, nós perdemos o nosso interlocutor, ele passa a ser nosso opositor imaginário, aquele com o qual não compartilhamos nenhum ideal em comum. Esse familiar ou amigo, privado do nosso laço afetivo, aceitará de bom grado o “ombro amigo” daquele manipulador capaz de simular empatia pelo seu sofrimento e pelas suas preocupações.

Cristopher Bollas em sua live “Civilization and The Discontented” descreve essa habilidade de alguns líderes políticos em criar um discurso sob medida para aqueles que possuem um modo de apreensão da realidade denominado psychotic thinking. Nesta modalidade de pensamento realidades complexas, difíceis de compreender ou indesejáveis são alucinadas negativamente e o mundo passa ser divido de forma maniqueísta projetando conteúdos maus em determinadas personagens e introjetando conteúdos bons no self daquele que se percebe como narcisicamente superior aos demais. O líder sociopata sabe muito bem como manipular esta cosmo visão a seu favor: ele representa o salvador e defensor de valores nobres. Quando nos afastamos afetivamente de nossos familiares e amigos, acreditando ilusoriamente que eles pensam totalmente diferente de nós, eles tornam-se vulneráveis à manipulação de seus fantasmas inconscientes, transformando-os em destinatários, potencialmente ideais, para mensagens que distorcem realidade, simulam empatia pela sua dor psíquica e pelas suas inquietações, na maioria das vezes legítimas, fazendo delas força motriz para um jogo perverso através do qual só os extremistas irão lucrar.

Julio Cesar Nascimento
Psicanalista
Psicólogo pela Universidade de Brasília - UnB
Especialização em Teoria Psicanalítica pela PUC - SP
Mestre Psicologia Clínica pelo Núcleo de Psicanálise da PUC - SP
Professor do Curso de Formação do Centro de Estudos Psicanalíticos
Professor da Casa do Saber



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