Sociedade e Cultura

Nos tornamos incapazes de dialogar?

 

04/10/2020 14:26

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Aos 30 anos estudava inglês tardiamente numa escola de idiomas tradicional. Minha família de origem não podia financiar tais estudos quando eu ainda era um colegial. Num daqueles exercícios de dupla, um adolescente que deveria praticar comigo o conteúdo da lição se recusava a falar inglês. Quanto mais eu argumentava a respeito do privilégio dele em aprender um idioma estrangeiro com aquela idade, mais ele se mostrava pouco colaborativo. Indagado sobre o motivo da sua resistência, ele responde que estudava inglês obrigado pelos pais.

Quando uma pessoa percebe sua liberdade comportamental ameaçada experimenta reatância cognitiva. Neste estado mental somos tentados a restabelecer nossa liberdade perdida. O mesmo fenômeno acontece durante uma tentativa de persuasão: os sujeitos querem sentir-se livres para adotar posições pessoais sobre quaisquer assuntos, ou simplesmente não adotar posição alguma. Sob determinadas condições, as mensagens persuasivas que tentam influenciar um receptor a adotar determinadas posições, podem ser interpretadas como uma tentativa de cercear sua liberdade de escolha individual, mesmo que o contexto de fala seja aparentemente um diálogo reflexivo. Esse fenômeno explica boa parte da resistência a mudança de visão e interpretação da realidade política mesmo quando opositores estão supostamente abertos ao diálogo.

Essa mesma teoria prediz que quanto maior a importância dos valores em questão cuja liberdade de atitudes é ameaçada e quanto maior a pressão coercitiva exercida sobre o indivíduo para assumir uma posição determinada, maior será a magnitude da resposta de reatância experimentada. Sob esse efeito tentaríamos reafirmar nossa liberdade mantendo nossas posições iniciais, ou de maneira mais desafiadora, mudando nossas opiniões e atitudes na direção oposta a posição defendida pelo interlocutor persuasivo.

Tenho lido muitas discussões sobre a necessidade de diálogo com eleitores que votaram em Bolsonaro. Muitos pensadores e analistas sociais tem criado um consenso que nem todos os eleitores devem ser tratados da mesma forma. Ao tratar eleitores conversadores com se fossem radicais extremistas corremos o risco de usar excessiva pressão coercitiva em nossas mensagens que visam a persuasão e eles certamente vão responder se aferrando a suas opiniões inicias ou mesmo reagindo violentamente aderindo a uma forma de discurso radical apenas para sentir que são livres para pensar e opinar. Outros vão nos achar simplesmente chatos, inoportunos, com um discurso e atitudes semelhantes ao de um religioso quando quer nos converter.

Pessoas conservadoras não necessariamente estão surdas e fechadas, apenas querem ver seus valores reconhecidos. Mas sobretudo querem sentir-se livres para observar, analisar e refletir sobre o mundo que os cerca e não adotar por imposição nossas ideias. É muito fácil se sentir subjugado ou submisso num contexto argumentativo.

Freud que viveu numa sociedade patriarcal acreditava que seus pacientes homens teriam mais dificuldade de serem influenciados pelo método analítico. Isto seria efeito de uma “(...) revolta contra sua atitude passiva ou feminina para com outro homem. A teimosa super compensação do homem produz uma da mais fortes resistências à transferência. Ele não quer se submeter a um substituto do pai, não quer sentir-se em débito com ele, não quer, portanto, receber a cura do médico.” (Freud, 1909)

Essa ideia é muito interessante se pensarmos um homem heterossexual, branco, religioso e conservador que vota em Bolsonaro. Mas sugiro substituirmos este estereótipo por pessoas de qualquer gênero, crença ou cor de pele, uma vez que vivemos numa sociedade na qual a supremacia individual se tornou a medida de todas as coisas. Pensando assim todos nós fomos ensinados - e essas mensagens estão contidas em vários discursos nas mídias sociais - a termos nossa própria opinião, ou seja, cada um de nós homens ou mulheres nos comportamos como os antigos patriarcas que temiam pela sua virilidade ameaçada.

Todos nós corremos o risco de nos comportarmos como gases nobres da tabela periódica: aqueles sem nenhuma instabilidade de elétrons na última camada, que portanto não buscam outro elemento para formar uma molécula.

A pergunta seria: como influenciar de forma eficaz e genuinamente se deixar influenciar? Como dialogar de verdade? Numa versão mais poética e psicanalítica:

“Quanta proximidade e quanta distância é preciso haver entre eu e outro para que exista amor e intimidade, reconhecimento e autorização entre as partes, ainda que esteja sempre rondando o risco de se ficar excessivamente dependente e dominado pelo outro? Ou ainda, como construir um mundo interno que torne possível reconhecer os outros sem se sentir por eles ameaçado, desautorizado, submetido, violentado, invadido ou ignorado? Como não ceder ao desejo de controlar ou possuir?” (Elisa Cintra)

Julio Cesar Nascimento
Psicanalista
Psicólogo pela Universidade de Brasília - UnB
Especialização em Teoria Psicanalítica pela PUC - SP
Mestre Psicologia Clínica pelo Núcleo de Psicanálise da PUC - SP
Professor do Curso de Formação do Centro de Estudos Psicanalíticos
Professor da Casa do Saber






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