Sociedade e Cultura

O Hitler que habita em nós

 

06/04/2020 15:35

 

 

Inesperadamente ficar em casa pela pandemia do coronavirus permite reflexões concretas e abstratas. Uma utopia sempre esteve presente em um canto da memória, como uma tábua largada, minha apenas. Ela se conformou durante a formação acadêmica, ocorrida entre os governos militares dos generais Geisel e Figueiredo, quando o país começava a sentir ventos de mudanças. A intensidade e o grau das transformações não se sabia ao certo, mas hoje, passados 40 anos, está ali o gosto amargo, na percepção que ficamos muito aquém do sonhado. Ao final se consolidou uma democracia restritiva atrelada a uma econômica neoliberal.

Esse período não é nada na escala geológica, insignificante mesmo em uma análise de longa duração da história do homem, mas é quase tudo para mim, pois atinge minha vida produtiva, e me faz pensar agora no passado e refletir sobre o futuro. Uma história sempre ligada ao prazer de ler qualquer coisa que estivesse ao meu alcance. Ou pudesse comprar. E isto se deu no final do primeiro grau, quando comecei a fazer biscates. Ainda tenho este primeiro livro, Arquipélago Gulag, do Soljenítsin, adquirido em 24.07.1974 em Manaus, pois fiz questão de registrar. Meu pai, bastante conservador e emocionado pela feliz escolha me ressarciu, e até mesmo fez uma dedicatória.

Anos depois, já na universidade e fazendo o curso de História, com recursos de bolsas ou estágios, o primeiro livro escolhido foi Os conceitos elementais do materialismo histórico, da Marta Harnecker. Talvez pela importância do ato deixei também a anotação: 02.04.1981. Mas não foi este socialismo tão teórico que me cativou para sempre, e sim as leituras que vieram para a época de Simone Weil, uma professora/intelectual que por opção também se tornou entre outras tantas coisas uma operária fabril. Para mim ali sim esta outra via se humanizava e a experiência de vida dela uma inspiração. Era uma época em que nas reuniões estudantis podíamos ouvir com admiração relatos como o de um colega das Ciências Sociais, que por iniciativa própria havia trabalhado um tempo como gari em Salvador.

Tudo era fantástico e passível de conversões, no pensamento e nas ações. A minha pequena cota foi ainda na graduação tornar-me alfabetizar pelo antigo Mobral, e concluído o curso professor primário em uma escola na área rural da grande Porto Alegre. E é dessa época a tal utopia. Ela era simples: uma modificação viria se todos passássemos por uma vivência em outras condições socialmente bem diversas. Se isso acontecesse rumaríamos seguro para um socialismo, pois se construiria uma efetiva solidariedade. Cético quanto ao impulso natural das pessoas para abraçarem essa experiência, começando por mim mesmo, sempre pensei numa máquina para fazer isso. Mas já tinha partido para uma distopia.

Muitos câmbios ocorreram em quatro décadas, e tantas outras leituras se agregaram permanentemente reelaborando um mundo conceitual para entender, e como docente, explicar a realidade, muito além do impregnado lá atrás pela estoica francesa. Mas aquela tábua continuou intacta, não apodreceu para nada, e por aí bate em algum canto e me desperta, sendo o mais real indicador do acomodamento e pouco engajamento com lutas sociais atuais. Esta inércia no entanto está sendo sacudida pelos acontecimentos que estamos vivendo, e pode ser uma grande janela para todos nós.

Temos um vasto material de análise sobre o estágio atual do capitalismo e do processo de acumulação/concentração da renda em poucas mãos. O seu rastro é o aumento da injustiça social, com impactos tanto no sistema climático mundial como microbiológicos da vida na terra. Uma leitura do economista Thomas Piketty e do biólogo Robert G. Wallace já nos dão um grande panorama da situação. Esta apresentação tem como intenção apenas retratar algumas circunstâncias dessa realidade.

Em fins de dezembro de 2019 fiquei nove dias na Bolívia. Tento pensar nessa viagem com finalidades distintas do cenário no qual André Gorz descreve o consumismo compensatório dos trabalhadores alienados do primeiro mundo, que recuperam o ânimo através de um pacote de férias em alguma praia tropical. A tensão pelo golpe de Estado ocorrido por lá no mês anterior era latente, com a Bolívia se incorporando a internacional do ódio, da qual já faziam parte as desestabilizadas democracias paraguaia (2012) e brasileira (2016). Com a chegada de Evo Morales ao poder, o primeiro presidente indígena em sua história, aprovou-se em 2009 uma nova constituição, transformando o país em um Estado Plurinacional, o que significou uma alteração política e cultural que repercutiu na vida social dos bolivianos. As reivindicações dos povos originários, a ampliação dos direitos, o estatuto alcançado pelas línguas nativas, a restituição ao Estado dos novos recursos naturais, entre outros aspectos, fizeram do processo de mudanças iniciado em 2006 um acontecimento político contemporâneo crucial.

Mas tinha estado anteriormente na Bolívia, no verão de 1984, naquelas viagens de mochileiro, há exatos 36 anos atrás. Afora os avanços em todos os indicadores sociais do país nos últimos anos com os governos do Movimento ao Socialismo (MAS), o que mais me impressionou foi perceber o impacto do aquecimento global. Um coisa é se ler relatórios, outra é ver os efeitos, principalmente em idas a trechos da Cordilheira Real. Voltar ao Chacaltaya (5.300 m) e encontrar muita pouca neve desconcertou – onde antes se esquiava e se chegava nas proximidades apenas com correntes nas rodas dos veículos. Bem como o recuo do gelo no entorno das montanhas que levam ao Pico Áustria (5.320 m), confirmado pela memória do velho guia aymara que nos acompanhou no percurso. Para lembrar: o abastecimento de água de La Paz e El Alto vem de lagoas na montanha, tudo ficando comprometido. A preocupação é grande.

E foram naqueles dias na Bolívia onde registrei mais claramente as notícias sobre uma nova epidemia, porém ainda distante. Desde então se passaram três meses e ela se transformou rapidamente numa pandemia. A voragem destes acontecimentos que estamos vivendo entrarão para os livros de história pela velocidade de seu desdobramento em escala planetária, e o acompanhamento instantâneo pela internet. Algo similar ao que representou a cobertura da guerra do Golfo em 1992, mas então pela televisão. Efeitos da globalização, pois outras guerras e outras pandemias houveram. A questão é o ponto de barbárie onde chegamos.

Qualquer vídeo que facilmente busquemos de Wuhan, uma das grandes vitrines do capitalismo organizado pelo Estado Chinês, vai mostrar uma cidade impactante, parecendo até mesmo uma animação – a região é conhecida como um dos quatro fornos do país. Assim temos uma pura e fina ironia, com a grande vingança da natureza. Não se trata de discutir a provável eficiente resposta política chinesa ao problema, seguramente originado em um mercado úmido local. Ou como cada governo mundo afora está se ajeitando. Mas sim de refletirmos sobre o tipo de vida que se impôs em grande parte do planeta, baseado em um consumismo necessariamente predatório. O que assistimos se vende como dramático pois ameaça corroer alicerces, atinge não apenas pobres, mas ricos, bem como o centro, e não apenas a periferia.

A crise atual tragou a todos, com as resoluções emergenciais deixando a descoberto os desmantelamentos que ocorreram nas últimas décadas nos sistemas de saúde públicos em nome do dito mercado e sua eficiência – atingindo até mesmo os médicos descalços chineses. Uma resposta bastante enfática veio de Cochabamba, um dos centros do golpe na Bolívia, onde o prefeito José Maria Leyes enviou ao Conselho Municipal, agora em 27 de março, um projeto sanitário com 13 artigos, e uma sugestiva disposição final. Nela se pede perdão a Deus pelos pecados e maldades, e convoca a população para “ayuno y oración durante este tiempo de cuarentena y declaramos que el único que puede ayudarnos y librarnos de esta pandemia es Dios”. Um linguajar bem de acordo com a Caixa de Pandora aberta e patrocinada meses atrás pela antiga oligarquia, trazendo a superfície todo o ódio étnico e de classe, bem como voltando a demonizar toda cultura indígena.

No Brasil também foi descerrada esta caixa, deixando escapar suas misérias. Isto ocorreu com o vergonhoso processo de deposição da presidenta Dilma Rousseff. E o espetáculo de horrores que diariamente se descortinam segue uma lógica não muito diferente da Bolívia. Creio que o melhor entendimento do nosso drama vem do poeta antilhano Aimé Césaire (1913-2008). Para mim ele sintetiza tudo, história e sentimentos. Césaire ao reivindicar não apenas os valores da cultura negra, mas também a preocupação com o homem, toca em seu famoso Discurso sobre o colonialismo (1955), no ponto central da desumanidade e decadência da civilização. Em um trecho do ensaio ele diz: Sim, valeria a penas estudar, clinicamente, em detalhe, os passos dados por Hitler e o hitlerismo, e comunicar ao muito distinguido burguês do século XX de que leva dentro de si a um Hitler ignorado, que Hitler o habita, que Hitler é o seu demônio, que se ele, burguês, o menospreza, não é mais que por falta de lógica, e que, no fundo, o que não perdoa a Hitler não é o crime em si, senão o crime contra o homem branco, a humilhação do homem branco, e por ter aplicado na Europa procedimentos colonialistas que até agora só foram utilizados contra os árabes da Argélia, os trabalhadores da Índia e os negros da África.

Ai está a natureza comum de todos estes apoiadores do golpe no Brasil, e mesmo de seus subsequentes desdobramentos. Conscientes ou não, de boa ou má fé, por burrice ou esperteza do alcance de vantagens em tudo, carregam no seu mais íntimo um Hitler e este eventualmente vem para fora, sim! E destilam com distintas doses e matizes todo seu ódio classista, religioso, racial... Se é possível pensarmos em algo bom, é que agora sabemos com quem estamos lidando. Se difunde hoje o mapa global online do coronavirus pelo site da universidade norte-americana Johns Hopkins. País responsável por inúmeros experimentos biológicos para desestabilizar Cuba, isto ao longo de todas as décadas após a vitória da revolução cubana de 1959 – dados disponíveis em documentos desclassificados do império. Bem como de experimentos criminosos feitos anteriormente em populações na Guatemala na década de 1940 e 1950 – em um litígio que segue nos tribunais dos EUA –, e no qual participou a famosa universidade. A lousa intelectual trata isto de várias formas, realpolitik, teorias racistas... Mas ao final ali também se encontra Hitler.

Se o horror é o nosso dia-a-dia, sob a máscara da alienação e do consumo, sempre estará a resistência. Hoje, quando a imaginação flerta com cenários apocalípticos, penso numa HQ que explora essas temáticas. Na eterna Era do Gelo de um mundo pós-pós-moderno, o último bastião da humanidade segue sem nunca parar sobre os trilhos de um único trem: O perfurante. Esta HQ francesa de 1984, idealizada pelo roteirista Jacques Lob e pelo desenhista Jean-Marc Rochette, teve ainda dois outros volumes, O explorador (1999) e A travessia (2000). Mas ficou ainda mais conhecida quando, em 2013, o diretor sul-coreano Joon-ho Bong adaptou a história para o cinema, lançando o filme O expresso do amanhã – o mesmo diretor do sucesso atual Parasita. Quer em um trem no futuro ou na sofisticada Seul dos dias de hoje, ali está retratada a luta de classes.

E as Ciências ditas duras, que descobrirão cedo ou tarde a tão necessária vacina para esta nova pandemia, lograrão uma outra para varrer o vírus do Hitler que carregamos latente? Por isso precisamos fazer acima de tudo a defesa das Ciências Humanas, tão atacadas nestes pagos. Ao final são elas que fazem compreender nossos caminhos e descaminhos. Nos dias que correm, para ficar em uns poucos exemplos, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han alertando para o beco sem saída do sujeito de desempenho em uma sociedade já além da disciplinar. O filósofo italiano Giorgio Agamben aprofundando a noção de biopoder de Foucault, levando a uma reflexão acerca da biopolítica como centro da política contemporânea, com o estado de exceção tornando-se um instrumento normal de governo. Ou ainda o historiador camaronês Achille Mbembe com a soberania e o que chamou de necropolítica, abordando o poder e capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. É daqui que sempre sairá o nosso norte ético.

Bom, apenas me arrisquei a puxar um fio de meada, por estar em quarentena e sonhar mais com a minha utopia. Mas poder também com absoluta convicção, sem querer parecer trágico, dizer como o poeta persa Omar Khayyam (1048-1131): Os astros nada ganharam com minha presença neste mundo/sua glória não aumentará com a minha derrocada/e meus ouvidos são testemunhas: ninguém jamais foi capaz de me dizer... por que me fizeram vir e por que me fazem ir embora.

Luiz Felipe Viel Moreira – Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da UEM

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