Sociedade e Cultura

O Imaginário e seus (des)caminhos: analisando o discurso de vertentes do feminismo cis sobre corpos transvestigêneres

07/10/2019 17:13

(Sol Maria)

Créditos da foto: (Sol Maria)

 

Em sua obra, Jacques Lacan (1901-1981) descreve a o Imaginário enquanto um dos três importantes registros da psique. Para ele, na condição de pensante, o ser humano está inscrito no Imaginário a partir de vários elementos, como, por exemplo, a captação do rosto de outro ser humano. Aprofundando suas bases teóricas e contribuindo sobremaneira para o avanço da psicanálise, Lacan apontou para o Imaginário da linguagem, no qual falamos a partir da compreensão do outro como pensando igual a nós; quando essa suposta semelhança é desvelada, atacamos o outro, porquanto este abrigaria a diferença. Não haveria, então, nas relações imaginárias, espaço para a diversidade. Isso parece especialmente condizente com a realidade atual, na qual por vezes, nos vemos em pé de guerra com quem imagina a sociedade de maneira diversa da nossa.

Pensando as relações imaginárias da sociedade cisgênera com as pessoas transvestigêneres, percebemos o quão Lacan é apropriado. A seguir, analisamos uma imagem e os desdobramentos que ela pode causar na dimensão imaginária de várias pessoas, levando-as a desconsiderar os corpos de travestis, transexuais e transgêneros.

O que pode instilar ódio em alguém frente a essa imagem?! Uma mulher com pau?! Um homem se relacionando afetivamente com ela?! Essa imagem retrata muitas coisas, e perpassa muitos lugares no nosso inconsciente. Corpos de etnia e gêneros distintos, um homem e uma mulher, cis e trans, virilidade e mulheridade... o que os dois têm em comum? O pau somente!

Corpos inteiros, plurais, reduzidos a suas genitálias, para invalidação de seu gênero e sua sexualidade. Ele não é considerado hétero, porque ela tem pau e logo sua genitália serve como base para afirmar que ela não é mulher. Curioso que se tivessem sido desenhados com seus genitais cobertos seria uma imagem de um casal hétero qualquer.

Quando as pessoas riem de imagens assim, zombam de homens cisgêneros que se relacionam afetivamente com mulheres transgêneras. Isso afeta mais a mulher, porquanto elas, invalidadas, correm risco de toda essa vergonha, medo e repulsa produzidos e cultivados no Imaginário, se tornarem maiores em relação aos sentimentos de seus companheiros, ocasionando violência misógina e transfobia.

Quando a chacota parte de mulheres cisgêneras, torna-se ainda mais doloroso, porque se fala tanto sobre solidão afetiva, objetificação, hipersexualização, machismo... contudo, o close para zombar de macho hétero vale também para gerar gatilho para o transfeminicídio? Vale ainda para reforçar todo o estigma imposto às identidades transfemininas, em que o lugar reservado para pessoas transvestigêneres desenvolver relacionamentos afetivos-amorosos-sexuais é o banco de trás dos veículos, becos, vielas, matagais e sempre no escuro, sempre no sigilo, sempre no medo? Medo de ser morta pelo parceiro após sofrer zombaria, medo de ser vista com ele... o medo rege as relações de pessoas T tanto da sua parte, quando de quem com elas se relaciona.

Nesses termos, é factível lutar contra o patriarcado, invalidando as vivências de gênero de pessoas trans? É válido não se fazer recorte de raça, de classe, de identidade de gênero? Para quem diz “a mulher e a trans”, a fim de se referir a uma mulher cis e a uma mulher trans, por favor, não chamem as pessoas trans de “mana”. Se você, mulher cis, se refere a você e a outras mulheres cisgêneras, como “mulheres de verdade” saiba que mulheres trans, do alto de sua beleza e encantos, não são bonecas. Elas são de verdade assim como as mulheres cis. Saibam: as violências que as atravessam são tão reais quanto aquelas enfrentadas por mulheres cis.

A Revolução Trans segue, lutando as batalhas conjuntamente enfrentadas pelo feminismo cis. Entretanto, sábia, essa grandiosa revolução está atenta às singularidades: se uma mulher trans é negra, “o buraco é mais embaixo”, se é travesti, então, o buraco está em camadas muito mais subterrâneas. Às mulheres cis que desrespeitam as lutas de travestis e mulheres trans: respeitem sua história! O inimigO é outrO!

Sol Maria: Mulher travesti, preta, transafrofeminista, poetisa e escritora. Contatos: Facebook: Sol Maria | Instagram: @sollmariaa

Armando Januário dos Santos: Graduado em Psicologia. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Graduado em Letras com Inglês. Professor de Língua Inglesa. Contatos: Instagram: @januario.1982 | e-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 


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