Sociedade e Cultura

O apelo desesperado de um Nobel da Paz pela vida das mulheres

Seis atentados não foram suficientes para calar o médico congolês Denis Mukwege, que conclama a ONU a desengavetar relatório que aponta culpados por usarem a violação sexual como arma de guerra há duas décadas em seu país

21/08/2019 10:07

O Nobel da Paz de 2018, Denis Mukwege (Luiz Munhoz)

Créditos da foto: O Nobel da Paz de 2018, Denis Mukwege (Luiz Munhoz)

 
Porto Alegre - A notoriedade que um Prêmio Nobel da Paz confere a qualquer um pode dar a impressão de que a coragem exibida pelo médico congolês Denis Mukwege no palco do Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, deriva dessa condecoração. E é verdade que os seis atentados contra sua vida aconteceram antes de que ele recebesse a prestigiada medalha. Mas para poder criticar autoridades de seu país, cortes internacionais e até a própria ONU por negligência com o horror a que são submetidas milhares de mulheres no Congo - vítimas de abusos sexuais utilizados como arma de guerra em disputas de grupos rivais - esse ginecologista precisou se refugiar no próprio hospital, onde vive com a mulher e longe dos filhos, em uma pequena cidade do interior da República Democrática do Congo.

“Reclamamos que os relatórios saiam das gavetas das Nações Unidas em Nova Iorque e que possamos saber quem fez o quê. Não se pode enterrar 6 milhões de mortos e ver 55 mil mulheres procurarem auxílio médico em nosso hospital, com ferimentos graves e traumas decorrentes de estupro, sem fazer nada. Elas reclamam justiça, mas nosso país não cumpre com sua responsabilidade de perseguir os criminosos. E infelizmente o Direito Internacional também silencia”, condenou, em sua palestra no Salão de Atos da Ufrgs na noite de segunda-feira, 19 de agosto.

Ao longo dos 20 anos em que mantém o atendimento hospitalar em Bukavu, foi preciso modificar o foco de atendimento original, de uma maternidade, para um hospital de campanha, que acolhe por dia pelo menos 10 mulheres em busca de tratamento clínico e psicológico pela violência sofrida em razão da guerra civil no país. Elas chegam lá destroçadas por estupros coletivos que as deixam inconscientes pela brutalidade, muitas vezes reforçada pelo uso de armas, madeiras, objetos perfurantes e até produtos químicos para ferir suas genitais.



“O auge do horror foi saber que estavam estuprando idosas de 80 anos e até uma menina de seis meses. É indizível”, denunciou.

“Isso tudo é feito em público, na frente de suas famílias, para humilhar toda uma comunidade e obrigá-los a se deslocarem das regiões em disputa. Se elas não morrem imediatamente, o trauma psicológico é muito significativo”, complementou, diante de uma plateia sensibilizada por sua fala.

O conflito teve origem nos anos 1990, quando estourou a guerra civil congolesa. Mas embora tenha havido um processo de paz e anistia política, ele ganhou novos contornos, que já não envolvem mais disputas, étnicas, religiosas ou de grupos rivais. A guerra moderna é travada em busca do poder econômico. “É pelo controle das riquezas do leste, pelo Coltan, um minério muito utilizado nos smartphones”, alerta.

Por isso, Mukwege não se contenta em atacar o governo de seu país (em 2011, ele desistiu de fazer um discurso na Assembleia Geral da ONU depois de ter se sentido ameaçado pelo ministro da Saúde em pessoa) ou as autoridades internacionais que silenciam sobre os crimes. “As grandes empresas de tecnologia tem uma responsabilidade enorme porque sabem que o regime de exploração desses minerais é feito sobre o sangue das mulheres, martirizando seus corpos como campo de batalha, destruindo seu aparelho genital. Mas as multinacionais preferem ficar na fronteira, trabalhando em suas fundições e no refino desses minerais, fazendo de conta que não sabem de onde eles vem. É escandaloso”.



Uma década de poucos avanços

Foi a segunda passagem de Denis Mukwege pela capital gaúcha, nove anos depois de sua primeira participação no ciclo de conferências. E, se por um lado, a relação anterior com a plateia aqueceu a recepção que teve na noite fria do inverno do sul, com aplausos em cena aberta em cinco oportunidades ao longo de sua fala, por outro, o retorno serviu como desabafo. “Constato que coisas não mudaram muito nesses anos, talvez haja um pouco mais visibilidade em relação à situação do meu país. Mas mudanças positivas na vida da sociedade, não tivemos”, lamenta.

Foi entre 2008 e 2009, coincidindo com sua primeira passagem pelo sul do Brasil, que a ONU concluiu o relatório do “Project Mapping”. Com mais de 550 páginas, revela 617 crimes de guerra e crimes contra a humanidade, com graves violações dos direitos humanos, ocorridas entre março de 1993 e junho de 2003. Mas, segundo o testemunho de Mukwege, o documento não alterou a condição do governo de seu país, que permanece em um “silêncio cúmplice, um negacionismo, uma amnésia” imperdoável.

“O atual governo da República Democrática do Congo chegou ao poder pelas armas em 1996, foi constituído pela fusão de grupos rebeldes, que cometeram crimes de guerra, crimes contra a humanidade e mesmo genocídios. Foram eles que constituíram a coalizão que segue no poder até hoje. Quando fizemos a negociação paz (para colocar fim à guerra civil), decidimos integrar todos grupos armados ao Exército ou na administração pública, sem saber quem fez o quê. Hoje percebemos que não ter feito justiça, na esperança de ter a paz, infelizmente nos tirou a justiça e também a paz”, ressente-se.



Já a comunidade internacional, tem avanços tímidos em sua opinião. Em julho, houve a primeira condenação em uma corte internacional de um chefe de guerra, por violações sexuais. “É um precedente encorajador, mas é uma gota de água no mar, diante de um contexto em que a impunidade prevalece. Os grandes criminosos seguem lá (no Congo), são conhecidos e protegidos, é inadmissível”, desabafou.

Trajetória de reconstruções

A trajetória do médico congolês começou em 1º de março de 1955, quando as complicações em seu parto o levaram quase à morte. O sobrenome, na língua natal, significa “lembre-se” e ele levou a mensagem a sério. Aos oito anos, decidiu que seria médico para reduzir as altas taxas de mortalidade infantil e materna em seu país, trabalhando para que os partos fossem mais seguros no Congo.

A primeira vez em que presenciou os horrores da guerra foi na própria carne. Seu hospital pioneiro, construído em Lemera, foi destruído por um dos grupos que se enfrentavam na guerra civil: “Era um local tranquilo, quase idílico para levar adiante minha missão de reduzir a mortalidade infantil. Mas o hospital foi atacado, descumprindo todas as normas do direito humanitário. A fossa comum em que estão hoje os pacientes e parte do meu pessoal, todos mortos no ataque, é um símbolo da banalidade do mal”.



Seu atual hospital completa 20 anos de existência no próximo mês. Também precisou ser reconstruído uma vez, mas hoje é onde Mukwege se refugia, protegido pelas paredes de concreto e pelo poder das milhares de mulheres que ajudou a recuperar. No hospital de Panzi, além de tratamento clínico e psiquiátrico, as vítimas de abusos sexuais como arma de guerra participam de programas de reinserção social, que incluem a busca pela autonomia financeira e a educação. A essas mulheres também é oferecida ajuda legal para que possam denunciar seus agressores em tribunais do país e cortes internacionais.

“Vejo elas transformarem sua pena em força e muitas dessas mulheres se tornarem protagonistas em suas comunidades, levando a um movimento de retomada da dignidade, da exigência de respeito e por justiça. São mulheres valentes que não têm medo de seus carrascos”.

Graças a essas mulheres hoje Denis Mukwege segue vivendo no Congo. O último atentado que sofreu, em sua antiga casa, matou um de seus colaboradores e colocou a família toda na mira de fuzis da milícia. O médico decidiu se exilar. Mas repensou a decisão quando o grupo de vítimas de estupros começou a trabalhar por um ambiente político que permitisse seu retorno e em uma vaquinha para comprar sua passagem de volta.



“Foi uma coisa muito tocante. As mulheres escreveram para o secretário geral da ONU, para o presidente da República. Começaram a vender frutas e legumes para financiar meu retorno. Toda a semana elas depositavam 50 dólares, e são pessoas que vivem com menos de um dólar ao dia. Me tocou profundamente, vi que não tinha mais escolha, e voltei para o Congo”, resumiu.

Este ano, em função da medalha de Nobel da Paz, sua rotina está invertida. Passa mais tempo fora do país do que trabalhando no hospital, aproveitando a notoriedade do prêmio para denunciar internacionalmente a situação doméstica. “Infelizmente, o dia tem 24 horas, a gente não pode fazer mais. Antes, 75% do meu tempo era dedicado ao hospital e 25% a atividades de defesa e apoio às vítimas. Hoje está ao contrário, mas sei que preciso utilizar esses 12 meses para fazer promoção dessa causa, que compreende não só as mulheres do Congo, mas de todos os lugares onde há conflitos, como a Síria, o Iraque, a Colômbia… Espero no ano que vem voltar ao ritmo normal de médico no hospital”, avisou, minutos antes de se despedir, sob uma chuva de aplausos da plateia.

*Todas as imagens são de Luiz Munhoz

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