Sociedade e Cultura

O capitão cruel e a questão da dívida

 

14/06/2020 16:28

 


:: Leia mais: Especial 'Nem Freud Explica...' (CLIQUE AQUI)

Longe de querer fazer uma patologização do homem Jair Bolsonaro, atual Presidente da República do Brasil, o que poderia desresponsabilizá-lo de ser julgado e condenado por toda a destruição e miséria humana que ele vem semeando na vida dos brasileiros em seu governo para a morte, e que chegam ao patamar dos crimes contra a humanidade na pandemia em curso, não posso deixar de associar no aqui e agora o Capitão Cruel, um personagem muito temido por um paciente de Freud conhecido como o Homem dos Ratos, e que foi o seu lastro na clínica para a construção teórica magistral da neurose obsessiva.

Este temor gozoso (sofrimento e prazer) do Homem dos Ratos, expresso várias vezes em sua análise com Freud, provinha do fato de que este Capitão Cruel lhe havia feito, por ocasião de um treinamento de caserna, um relato sobre um tipo de tortura que os orientais infligiam aos seus supliciados: a introdução de ratos no ânus dos soldados inimigos. Deste relato da tortura,  estabeleceu-se uma identificação do futuro paciente de Freud e o Capitão Cruel e que se tornou a base inconsciente (estruturada como uma linguagem!) da cena fantasmática adulta para sua obsessão: algo semelhante a este suplício oriental ocorreria aos seus entes mais queridos e próximos (o pai morto e sua amada) se ele não fizesse o pagamento de uma dívida contraída supostamente com um oficial desconhecido por ele, e que teria adiantado dinheiro a um terceiro para que ele (o paciente do Freud) pudesse fazer um novo par de óculos. Esta formulação obsessivo-religiosa (se você não fizer determinada coisa acontecerá tal desgraça) serviu para que Freud qualificasse a Religião com seus escrúpulos, sua moralidade, seus rituais, sua capitalização da culpa, e seu temor ao castigo (expiável com dinheiro inclusive), como a neurose obsessiva da humanidade.

O pensamento obsessivo do paciente de Freud construiu um enredo labiríntico, confuso, cheio de contradições sobre quem seria o verdadeiro destinatário do pagamento da dívida. Enredo cheio de mentiras, hesitações, dúvidas, negações, delírios, angústia e crueldades, e que visavam inconscientemente ao não pagamento da dívida ao outro, transformada por ele de forma literal no seu sintoma: impossibilidade de pagar uma dívida devida em dinheiro. Segundo o que Freud nos deixa entender através deste enredo extraordinário, o sentido da neurose obsessiva seria essa impossibilidade de reconhecer a dívida com o outro.

Este tema é aprofundado posteriormente por Lacan quando ele afirma que o nascimento de um sujeito se dá pela sua inserção no campo da linguagem e da cultura e cabe àqueles que ocupam a função de cuidadores transmitir os significantes que vão marcar esse sujeito, humanizá-lo pelo laço afetivo e civilizá-lo pelos interditos. Tornamo-nos elos desta cadeia simbólica de recepção e se transmissão de dons e dívidas, realizando assim nossa subjetividade, ou melhor, nossa humanidade de falantes e desejantes. Deste modo, da interseção entre cuidado e interdito produz-se a lei do desejo que é a mesma lei simbólica da castração. Um sujeito não pode tudo, e diante deste limite ele amplia suas referências, saindo do universo familiar para o mundo. É a lei do desejo que institui, portanto, a dívida simbólica e organiza as sociedades civilizadas.

Este enredo do Homem dos Ratos tinha antecedentes na história do pai, também oficial: um não pagamento de dívida e um casamento por interesse. Um pai já morto, mas que ainda assim era objeto de seu desejo de tortura oriental e de morte. Uma verdadeira loucura. Ou seja, algo nesta transmissão genealógica do reconhecimento da dívida tinha ficado emperrado. E o desejo de tortura e morte, recalcado, era expresso literalmente na impossibilidade de pagar a dívida monetária sustentada pela fantasia.

Certamente podemos liberar nossa imaginação para a atualidade diante das semelhanças que o cenário psicopatológico da neurose obsessiva nos sugere com a sua crueldade, seu labirinto de contradições, anulações, cerimoniais, culto à morte, seguido por um bando de fanáticos, e mesmo delírios (de perseguição, complôs, fora os delírios que o paciente tinha com o fantasma de seu pai que vinha visitá-lo todas as noites...).

Ou seja, estou sugerindo que grandes fascistas podem ser neuróticos obsessivos, ou mesmo “capitães cruéis” da mais banal envergadura, que sofrem e fazem sofrer com seu sadismo obsessivo, inclusive fazendo sofrer as massas. Por que não?

Entretanto, não sendo loucos, tais dignitários cruéis deverão ser afastados e responder criminalmente por seus crimes. Jamais devendo ser desresponsabilizados por suas ações genocidas, pois sabem perfeitamente o que estão fazendo. Com poucas exceções, como a Espanha que até hoje luta contra o esquecimento dos seus carrascos na sua longa justiça de transição para a democracia, a maioria dos países caçou seus monstros. Sugiro ver ou rever o maravilhoso e terrível “O silêncio dos outros”.

Mas esse não é o meu ponto principal, como já disse anteriormente, pois desejo destacar a importância da dívida simbólica, de seu reconhecimento mesmo que inconsciente, e de sua transmissão de dons e de valores éticos na cadeia simbólica transgeracional e planetária, pois somos todos elos, à nossa revelia.

Frequentemente a esquecemos, pois somos aturdidos pelo frenetismo e pela sedução do consumo, pela eficácia da ciência e da tecnologia, o que nos rouba palavras e autoridade. Vale lembrar que não a temos apenas com nossos descendentes, mas também com aqueles com quem não temos uma “pátria comum”, no belo dizer de Maurice Blanchot em “Conversa infinita” quando ele se refere ao radicalmente outro. Aos invisíveis, aos indesejáveis, aos descartáveis, aos matáveis, aos refugiados das guerras do mundo. E finalmente à Natureza, com quem temos uma dívida enorme. Vez por outra ela nos envia cartas promissórias como a Carta do Clima e a Carta da Pandemia. Somos devedores e culpados (Schüldig, palavra de Freud e de Niesztche) por não reconhecermos esta dívida com ela. Pior, por nos termos transformado em seus predadores irresponsáveis, verdadeiros bárbaros.

Assim como os pais, do seu lugar de autoridade de transmissores, podem (ou podiam?) fazer a transmissão da dívida simbólica a seus filhos, que depois fariam aos seus, sob o risco de não haver diferenciação de lugares de onde se fala e cairmos na confusão dos papéis, funções, direitos e deveres, os governos democráticos também precisam fazer a transmissão da governança, do desejo de governar inscrito no reconhecimento da Constituição do seu país, na Lei simbólica que rege determinada nação, de modo a haver autoridade e respeito à diferença de lugares públicos, ou funções. Realizando renúncias e acatando deveres, fazendo dons incondicionais ao povo (renda mínima, educação universal, saúde universal, politicas habitacionais dignas, liberdade de expressão, respeito às diferenças) para que não haja rupturas do pacto democrático que beirem a ruptura civilizatória, como no Brasil de agora, no qual a barbárie organizada ou legalizada já sobrepuja a civilização com seus interditos, e tenta destruir a Cultura que é por excelência a forma sublimada pela qual tentamos nos indenizar pelo sacrifício de nossas pulsões.

Ora, os dois últimos golpes, o parlamentar de 2016, e o militar de 1964, incluídos na vertigem inacreditável de golpes desde a proclamação da república, interromperam a transmissão da dívida simbólica da governança/desejo de governabilidade que um presidente eleito democraticamente transmite ao outro eleito pelo desejo do povo. Qualquer interferência na transmissão legítima (seja ela por golpe, fake news, influência externa) dessa governabilidade repercute sobre a autoridade do eleito nas urnas e instala o caos da indiferenciação dos lugares, das falas contra falas, da confusão, do vácuo da ausência de líderes, e da violência que se exacerba com a “cassação” (autoritária) dessa transmissão simbólica, redundando num retorno no real de uma violência degradante que é proporcional ao somatório de usurpações e de omissões seculares de todas as mazelas brasileiras que vem sendo jogadas cinicamente há séculos pelos governantes para debaixo do tapete. Minorias e maiorias sendo alvos de biopolíticas de extermínio, de base racista, como condição sine qua non para seu funcionamento nas sociedades regidas pelo biopoder em curso desde o final do século XIX, segundo Foucault, em seus seminários no Collège de France, em 1976 (no imperdível livro “Em defesa da sociedade”), e que se multiplicaram esse fortificaram com o neoliberalismo dos últimos quarenta anos.

Na pandemia que assola o mundo e toma proporções escandalosas neste país feito de omissões e da ganância que sempre falou mais alto do que o espírito público e a responsabilidade imposta pelo cargo, o representante de extrema-direita que se elegeu presidente por atos de pirataria eleitoral em outubro de 2018, vetou no dia 4 de junho um repasse de verbas proveniente do Ministério da Cidadania – verba do Bolsa Família para o Nordeste -, que poderia chegar a R$ 89,9 milhões para o combate à pandemia, contrariando o pacto federativo, a necessidade urgente de investimento público neste momento horripilante onde o número de mortes diário pela covid-19 nos é ocultado pelo absurdo que ele representa numa pandemia sem ministro da saúde (1476 mortes em 24h em 4 de junho) e sem prestar socorro efetivo à população. Destinou-o à SECOM, para pagar despesas de propaganda educativa!

Dominado por sua obsessiva preocupação com as finanças do país e diante de uma recessão inexorável, Bolsonaro só pensa no teto da Dívida Pública. É incapaz de reconhecer a dívida que ele contraiu com todos os brasileiros ao se tornar presidente da república! É o mais alto posto da nação que precisa ser ocupado com a dignidade que a autoridade inerente a este cargo exige. Infelizmente Bolsonaro não tem autoridade nem dignidade, nem pode, segundo o raciocínio que venho desenvolvendo, pois recebeu a dívida de governança do país, o posto de presidente da república, das mãos de um traidor, do usurpador Michel Temer. Acumulamos rupturas traumáticas que obstaculizam a transmissão dessa dívida nos mais variados contextos. Daí talvez o descompromisso, a falta de ética, a indiferença, a própria corrupção na política, onde a cadeia da dívida e do dom certamente não se cumpre (Marcel Mauss, “Ensaio sobre o dom”, 1925).

O presidente age em tudo diferentemente dos demais chefes de Estado, com exceção de Donald Trump. Governantes e governados de todas as partes do mundo souberam se posicionar diante deste desconhecimento radical e do alto e rápido contágio do novo coronavírus, permanecendo humildes e reconhecidos à Ciência, à coragem dos médicos, dos enfermeiros e dos demais colaboradores dos serviços de saúde e dos serviços essenciais que se expuseram ou deram suas vidas, respeitando as instruções de seus ministérios da saúde articulados quase sempre à OMS, ao impor as medidas estritas de isolamento social e testagem em massa. Graças a essa experiência maior de reconhecimento e transmissão da dívida simbólica entre governantes e governados, e entre governos, o que muito contribui para o nascimento da solidariedade como forma espontânea de justiça dentro da sociedade civil, muitos países começam a sair de forma responsável do isolamento social após terem atingido os parâmetros científicos para tal.

Foi emocionante ouvir o discurso de Angela Merckel aos alemães, ao mundo, no início das medidas de isolamento. Trata-se de uma grande Estadista que não se omite diante da dívida da Alemanha contraída com o mundo na Segunda Guerra. Entretanto, ela não se posiciona como “Schüldig”, que em alemão, como lembra Freud e Niestche, significa culpada e devedora. Ela fala e age como transmissora da dívida, devedora e responsável pelos rumos da Alemanha, com os demais países da Europa, junto aos refugiados do mundo, pois é uma Communitas de primeira linha, como pretendo mostrar mais adiante. Communitas é aquele que se expõe ao reconhecimento da dívida com o outro, de forma coletiva.

Justamente como exemplo coletivo desse reconhecimento da dívida que os governantes precisam fazer junto a seus governados, e aos outros governantes e governados do mundo, Alemanha e França responderam recentemente com um dom: a proposta de um Fundo de Recuperação Econômica para os 27 países da zona do euro. Esta proposta econômica e humanitária vai socorrer países que foram diferentemente afetados pela pandemia, correndo o risco dos mais ricos pagarem pelos mais pobres. Essa é uma proposta coletiva, supranacional, e não um salve-se quem puder. Esta iniciativa deve ser celebrada como exemplo de soberania diante das políticas austericidas em vigor antes da pandemia, pregadas pelo neoliberalismo. Bom começo.

A presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, médica, mãe de 7 filhos, encampou a proposta da dupla franco-alemã e ampliou-a, “apresentando rapidamente na última semana de maio o plano de criação de um fundo de recuperação econômica de € 750 bilhões (cerca de R$ 4,4 trilhões), sem precedentes. O pacote de estímulo fiscal busca oferecer ajuda para que as 27 nações do bloco consigam superar a recessão mais profunda da história recente, desencadeada pela pandemia da Covid-19. Desta proposta ampliada por Ursula Von der Leyen, € 500 bilhões (R$ 2,9 trilhões) seriam ofertados na forma de subsídios, buscando não aumentar a dívida dos países. Os outros € 250 bilhões (R$1,5 trilhão) seriam disponibilizados como empréstimos com taxas de juros reduzidas, que começariam a ser pagos após 2027. Para financiar o projeto, que ainda precisa ser aprovado por todos os países-membros, o bloco vai assumir uma dívida conjunta inédita em seus 60 anos, pegando no mercado empréstimos que poderão chegar aos € 750 bilhões” . Como ela, Ursula, disse ao expor o plano e diante de uma recessão de 8-12%: “Ou vamos cada um por si, deixando países, regiões e povos para trás, ou aceitamos uma união entre os que têm muito e os que não têm nada, caminhando juntos por essa estrada” (O Globo, 28 de maio).

A Itália, dona de uma das maiores dívidas públicas do planeta e um dos países europeus mais afetados pela Covid-19, será a maior beneficiária. Quando atingiremos uma maioridade próxima a isso se nem o Mercosul ou o BRICS vingaram diante da destrutividade do Capitão?

Estas novas propostas de Estado Social, diante da exposição feita pela Covid-19 da frágil situação da maioria dos sistemas de saúde do mundo, golpeados pelo neoliberalismo de forma sistemática nos últimos anos, precisam ser escorados por reformas fiscais justas, afirma Thomas Piketty (em Cartas de Paris: A bolsa ou a vida, Leneide Duarte-Plon, Carta Maior 17/4/2020), que exijam o registro financeiro internacional para acabar com o regime de livre circulação de capital com a evasão de divisas, em vigor a partir dos anos 80-90. Só assim será possível taxar as fortunas dos bilionários e das grandes empresas multinacionais. Esta livre circulação impede inclusive às administrações fiscais frágeis dos países pobres de desenvolver um imposto justo e legítimo, o que mina gravemente a construção do Estado.

Precisamos saber se, como seres de consciência planetária, agora, pela dor e pelas perdas, desejamos isso de fato. Isto é, a diminuição das desigualdades. Mais adiante falo porque faço esta interrogação de nosso desejo de communitas... ou de continuarmos como immunitas. Antecipando, immunitas não diz respeito à imunidade tão desejada contra o vírus, mas a estar imunizado contra o reconhecimento da dívida com o outro.

Na verdade, é possível pensar agora, mais do que nunca, o quanto esse sistema capitalista neoliberal rouba dos homens suas características ontológicas, simbólicas, éticas. Na ausência desta transmissão da dívida simbólica, e de uma eventual doação (como muitos fazem!) só a força da lei fiscal autorizada pelos Estados nos permitirá realizar a taxação das fortunas, a criação de uma renda mínima universal, criar políticas de Saúde Universal (como o nosso SUS heroico), e de moradia digna para os trabalhadores. Isto já foi possível e é maravilhoso nos inspirarmos no filme “O espírito de 45”, de Ken Loach, onde podemos ver o primeiro-ministro inglês, o trabalhista Clement Attlee, pensar e realizar no pós-guerra a construção do Estado Social numa democracia liberal, passando como um trator sobre os conservadores de Winston Churchill.

Este é o posicionamento que desafia hoje os pessimistas, oriundos de Estados pós-democráticos, destruídos e desiludidos pelas políticas de austeridade, como Yanis Veroufakis, economista e membro do parlamento helênico, ao dizer que nunca foi provável que o espírito de solidariedade que animou e reanima as populações afetadas pela Covid-19 (haja vista as manifestações ininterruptas contra o racismo nos EU na vigência da pandemnia) se traduzirá no uso do poder Estatal para fortalecer os fracos e vulneráveis. Esta posição, aparentemente pessimista, encontra eco em um grande pensador moderno que aprecio muito, Georges Bataille, que no seu livro “A parte maldita – um livro de economia geral” (1930), cuja escrita foi inspirada justamente na questão do dom de Mauss (1925), ele contrapõe a abundância e o excesso à noção do dispêndio. Este gasto desnecessário ou não produtivo é regido pelo princípio da perda que em muito se aproxima da elaboração da pulsão de morte por Freud, pois é perda compulsória da produção, pura perda, e assim não servirá aos famintos e degradados do planeta, preferindo grandes destruições às grandes distribuições...Diz o próprio Bataille em 1930, inspirado em Mauss quando este descreve as orgias de dons durante as Cerimônias do Potlatch, quando eram feitas grandes destruições de bens (os dons oferecidos), realizadas entre tribos originárias pelo prazer da conquista da supremacia através do puro desperdício de riquezas ou simplesmente pelo desejo de humilhar quem tinha menos. Eu posso!

O sistema financeiro, me parece, gira assim, e apesar da abundância e do excesso dos bilhões concentrados nas mãos de alguns, isto não se traduzirá numa diminuição das desigualdades. A não ser na lei, na raça das lutas contra as desigualdades efetuadas pelos movimentos sociais pressionando governos e uma mudança gradual de mentalidade contra o sadismo do capitalismo financeiro. Esta elaboração aproxima-se do que disse Philippe Descola (Carta Maior, maio 2020) sobre a pandemia como um Fato Social Total (como o Potlatch acima), também baseado em Mauss (Ensaio dobre o dom, 1925), onde num fato social total se destroem os excedentes da produção, no caso, vidas humanas, de fato transformadas em mercadorias descartáveis, destruíveis.

O conhecimento, e não apenas o científico, precisará vir em nosso socorro. Conhecer, por exemplo, o pensamento do filósofo italiano Roberto Espósito que em seu livro “Communitas – origem e destino da comunidade”, prefaciado por Jean-Luc Nancy, faz com este último uma passagem essencial que nos compete realizar neste momento pandemia/pós-pandemia, e da qual nos deram excelente exemplo aqui Angela Merckel, um Emmanuel Macron arrependido e Van Der Leyens.

Que rumo tomar senão escolher a ação do homem contemporâneo na direção do outro homem? Tornar-se communitas como aquele que se expõe contemporaneamente e coletivamente ao múnus, ao dom compulsório que tem que ser feito, e que vem do reconhecimento da dívida com o outro nesta cadeia de transmissão da dívida simbólica. Diferentemente dos modernos (os immunitas), que se imunizaram contra este reconhecimento da dívida e, portanto, do dom, preferindo o caminho do individualismo (do liberalismo e do neoliberalismo), os communitas prosseguem articulando pensamento e ação nos movimentos sociais e coletivos contemporâneos desde os anos 90, afirmando sua própria humanidade agora tocada pela infelicidade e pela morte planetaria e rápida de milhares de pessoas.

Para finalizar, neste momento de muitas dúvidas, precisamos fazer um resgate de toda a inércia, omissão e compactuação submissa diante das elites de todo tipo que espoliaram o Brasil e o seu povo durante séculos. Bolsonaro é um bom judas. Precisa ser impedido, julgado e condenado pelos crimes que realizou, autorizou, estimulou ou deixou fazer, assim como outros algozes. Witzel, por exemplo, que, esperamos, será devidamente impedido e condenado.

Ou viveremos como povo envergonhado que não faz ou que não luta para que o Estado reconheça sua dívida social, nunca liquidada, tendo apenas iniciado o seu reconhecimento nos governos do PT, com a maioria do povo brasileiro, os pobres, os famintos, os sem teto, os negros, os indígenas, saqueados desde sempre, moradores de rua, presidiários que morrem empilhados e sem julgamento, para não falar dos desaparecidos e torturados, assassinados da ditadura militar. Os seus carrascos, os capitães cruéis dos sistemas de repressão, estão soltos por aí, disfarçados até de evangélicos, como o delegado que mandava os corpos dos torturados e assassinados para um forno fora do Rio de Janeiro, e que deu motivo ao filme “Pastor Cláudio”, onde um homem comum, convertido, fala do que fez como qualquer carrasco nazista faria, apático (sem pathos), alegando cumprir ordens, ou seja, era a própria banalidade do mal descrita por Arendt.

Mais recentemente somos cúmplices diários e há décadas do extermínio de negros, jovens negros, pobres, nas periferias e comunidades por uma polícia militar terrorista que entra nas periferias com seu aparato de terror para matar inclusive DURANTE A PANDEMIA, 145 OPERAÇÕES pelo menos, e das milícias que engrossam agora suas fileiras para apoiar um governo fascista e, portanto, incapaz de reconhecer esta dívida, pelo contrário, fazendo a transmissão do ódio como afeto maior do vínculo social.

Rio, 5 de julho de 2020

Glaucia Dunley



Conteúdo Relacionado