Sociedade e Cultura

O confinamento que ''liberou nossa imaginação''

O filósofo Bernard Vasseur se pergunta sobre o que a crise sanitária revelou e que aspirações dela nasceram. Ele viu crescer a exigência por um mundo "pós-capitalismo" que Marx chamou de comunismo

28/07/2020 14:57

Bernard Vasseur (Magali Cohen)

Créditos da foto: Bernard Vasseur (Magali Cohen)

 
Que lições vamos tirar da crise sanitária e suas consequências? Em qual direção iremos? Para qual "sistema"? Aqui estão as perguntas feitas, logo no começo, por um pequeno livro didático e preciso. Seu autor, Bernard Vasseur, após um diagnóstico minucioso, oferece sérias de reflexão.

A "nação startup" (que expressão é mais orientada ideologicamente?) sofreu o pleno flagelo da pandemia e seu líder ficou tão perturbado, tão perplexo que falou em "guerra". Uso curioso desta palavra em tais circunstâncias. [Macron prometeu, em 2018, transformar a França em uma "nação startup"]

A que rupturas nas relações diplomáticas, e portanto, em resumo, no diálogo, o Sr. Macron realmente queria se referir? Ele queria, parafraseando Clausewitz, continuar fazendo política por outros meios? Pois sim, é disso que se trata - pelo menos em segundo lugar, porque, em primeiro lugar, ele deixou as responsabilidades para os mandarins, uma maneira conveniente de se endireitar. Suas ordens, por fim, foram contraditórias, como Vasseur observa com razão: "Vá votar", "Vá trabalhar", mas acima de tudo, "Fique em casa". O presidente-geral enviou "soldados desarmados" para a linha de frente.

Em resumo, "o mundo de cabeça para baixo do confinamento", aquele com o cenário invertido, abriu nossos olhos, explica nosso autor - e nós desejamos que ele esteja dizendo a verdade ao apostar em nossa tomada de consciência. Ele "liberou nossa imaginação". Por isso, ele nos exorta a pensar no "depois", não no dia seguinte, mas no "sistema posterior": pós-capitalismo.

Tudo acontece, basicamente, como se o vírus estivesse fazendo política, apesar de tudo:

"O que dizemos sobre a Covid-19? Que devemos considerar a explosão imobiliária e demográfica (considerável e rápida) da cidade chinesa de Wuhan: que essa densificação urbana levou a explodir seus limites e a desenvolver nos arredores os espaços entregues ao agronegócio, à instalação de firmas e empresas e ao traçado de redes viárias imponentes; que para liberar esses espaços foi necessária a destruição de milhares de hectares de florestas; que os pobres camponeses, violentamente despojados por esse maremoto, de suas pequenas propriedades foram, assim, afastados do centro da cidade; que estes últimos, para sobreviver, começaram a caçar animais selvagens na floresta, cujo consumo se tornou uma moda no mercado de Wuhan (o pangolim era uma mercadoria destacada não pela medicina tradicional chinesa ou pelas superstições milenares, mas por uma campanha de marketing, tudo o que há de mais moderno).”

O resto, infelizmente, sabemos bem. Acrescentemos ainda que os riscos de morbidade do vírus são aumentados por estilos de vida “valorizados” pelo capitalismo. mais "atual": sobrepeso e obesidade ligados à má alimentação, poluição que enfraquece os sistemas respiratórios ... A Covid-19, portanto, se sai bem na política.

Ela vota no capitalismo global, que, como Vasseur ressalta, ainda vence dos dois lados: os hospitais tratam os trabalhadores que produzem riqueza, mas são os Estados-nação que arcam com o custo dos cuidados e não o capital privado.

De modo que os lucros são sempre privados e as despesas sempre socializadas, ou dito de outra forma, públicas. O capital assume lucros sem pagar custos. E as empresas farmacêuticas "tirarão proveito da dádiva" ao colocar a futura vacina à venda.

Em O Capital, Marx escreve que: "a produção capitalista somente desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social na mesma medida em que destrói as fontes de toda a riqueza: a terra e os trabalhadores”.

Pensar no “sistema posterior”, para Vasseur, significa reverter as coordenadas: privilegiar o que é socialmente útil, reencontrar um espaço de soberania econômica em que “a produção não pode ser realizada ignorando-se as necessidades sociais”, dar prioridade ao desenvolvimento dos seres sobre a produção das coisas, colocar em primeiro plano “o ser relacional e não o ter-singular”.

Utopia? Como assim? Pelo contrário, grande razão.

Um livro à venda na loja Humanity: “Après la crise sanitaire ? L’après-capitalisme” (Após a crise sanitária? O pós-capitalismo)

*Publicado originalmente em 'l'Humanité' | Tradução de César Locatelli



Conteúdo Relacionado