Sociedade e Cultura

O cor de rosa de Jesus

 

05/11/2020 11:14

Jesus Norberto Gomes (Reprodução)

Créditos da foto: Jesus Norberto Gomes (Reprodução)

 
A propósito das recentes declarações do presidente Bolsonaro em visita ao Maranhão, cabe reparar que se tivesse real interesse pelo Estado, não faria declaração descabida e preconceituosa sobre o Guaraná Jesus, ao qual, por sua cor, associou a coisa de boiola (?).

Ampliando o que disse Graham Greene sobre o ingênuo, diria que o ignorante é um leproso sem guizo. Ele espalha o mal e contamina sem aviso.

Contudo, o episódio oferece a oportunidade de se conhecer melhor a origem do produto envolvido.

Seu criador, Jesus Noberto Gomes, foi farmacêutico e empresário maranhense. Nasceu em 1891 na cidade de Vitória do Baixo Mearim. Muito jovem, foi para São Luís estudar. Sem formação superior, comprou uma farmácia onde exerceu a função de prático. Ajudou a criar a faculdade local de farmácia e se formou. Expandiu seus negócios com um laboratório farmacêutico que produziu os primeiros injetáveis para uso medicinal no Estado. Ganhou prêmios, internacional e nacional, com seus produtos. Tornou-se o maior produtor e fornecedor farmacêutico no Maranhão e em 1927 lançou uma linha de bebidas gaseificada, recreativa e nutraceutica, dentre os quais a Cola Guaraná Jesus. Sempre primou pela utilização de produtos naturais de alta qualidade em sua fabricação. Os negócios cresceram industrialmente. Em 1936, Jesus foi preso acusado de tramar contra o governo federal. Um suposto levante que ocorreria em São Luís, que no conjunto foi chamado intentona comunista.

Jesus e Jandira, sua mulher, nem no Estado ele se encontravam, em viagem pelo Rio e São Paulo. Apesar de empresário já rico, permaneceu 10 meses preso, em São Luís, primeiro, e depois no Rio de Janeiro. Foi absolvido pelo Tribunal de Segurança Nacional por total falta de provas.

Voltou ao Maranhão, fez crescer a sua empresa, criou formas progressistas de relação com seus funcionários, dividindo lucros, incorporando-os na sociedade, espontaneamente pagando o décimo terceiro salário quando este ainda não era obrigatório. Era chamado de comunista, diziam que tinha pacto com o diabo. É possível desde já entender porquê.

Incentivou artistas locais. Trouxe o que de mais moderno havia para o seu negócio: conceitos sanitários, processos produtivos e maquinários.

Faleceu em 1963, sem ver em funcionamento a nova planta industrial construída.

Seu nome permaneceu no refrigerante criado, que se tornou símbolo, identidade e orgulho do povo maranhense.

Como o slogan comercial à época reclamava, a Cola Guaraná Jesus representava o Sonho Cor de Rosa das Crianças. E do próprio Jesus, que acreditava no desenvolvimento social e econômico do seu Estado e da sua gente.

Alcio Luiz de Jesus Gomes
Médico e neto de Jesus Norberto Gomes



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