Sociedade e Cultura

O evangelho segundo o smartphone

 

28/05/2019 17:16

 

 
Jean M. Twenge, professora da San Diego State University, tem vários livros estudando as diferenças culturais entre gerações. Não tenho nenhum conhecimento razoável nessa área – na verdade, só tenho conhecimentos fora do razoável. Mas para um leigo como eu ela sugere algumas coisas instigantes. Pelo menos, acho, diminuiu minha enorme ignorância.

O primeiro livro que me caiu no colo foi o Generation Me – Why Today’s Young Americans Are More Confident, Assertive, Entitled – And More Miserable Than Ever Before (2006, Atria Books).

O título não é apenas longo, ao modo barroco. É um veredito assustador. A Geração Me é a geração do “tudo para mim”. O autor explica sua cronologia. Depois da geração pós-guerra (baby boomers), vem a Geração X (1961–81), os Millennials (1982–99), que ela chama de Generation Me. A pesquisadora sublinha a relevância dessas datas e dos eventos técnicos que as marcam. Porque teriam implicações culturais revolucionárias. E mudariam o perfil dos jovens dessa nova era. Os membros da tal Geração Eu têm a mais elevada autoestima de qualquer outra geração, mas também são mais vulneráveis a depressões. São mais livres, mas também mais cínicos. Têm a expectativa de atingir seus sonhos, mas também têm enorme ansiedade com relação ao futuro.

Depois do diagnóstico, que é de arrasar, o livro termina com uma lista de recomendações para que a vítima se livre ou se vacine diante dos males que podem levá-la ao precipício. Por exemplo, limitar a exposição à TV e ao entretenimento – que podem divertir e, também, deprimir.

Reparei que essa geração tinha a ver com a excessiva exposição ao info-entretenimento gerenciado pela TV. Esse me pareceu um ponto a guardar na memória. Porque logo depois da Geração Eu vem a Geração Igen, examinada no livro seguinte: iGen: Why Today’s Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, more tolerant, lrdd happy - and completely unprepared for adulthood. Atria Books, NY, 2017

O título continua longo. E continua assustando o leitor.

A expressão “Igen” é uma evidente alusão ao mundo dos iPads, iPods e iPhones. Ou, em termos mais amplos, à tralha tecnológica que gira em torno da Internet, a rede mundial que se tornou pública e comercial na metade dos anos 1990.

A pesquisadora descreve sinteticamente essa nova tribo juvenil:

“Nascidos em 1995 ou depois, eles cresceram com celulares, tiveram uma página Instagram antes que começassem a escola e não têm memória de um tempo em que não houvesse Internet. Os membros mais antigos da iGen eram adolescentes precoces quando o iPhone foi lançado em 2007 e eram estudantes do ensino médio quando o iPad entrou em cena, em 2010.”

Feita essa descrição, ficamos quase convencidos de que a “Apple tem um monopólio sobre a adolescência”, já que, dizem as sondagens de mercado, dois em cada três adolescentes americanos têm um iPhone.



A pesquisa pode ter distorções, mas se substituirmos iPhone, marca específica, por smartphone, genérico, teríamos algo mais convincente, avassalador. E isso cria uma “tribo” totalmente nova. Ela é inteiramente distinta no que diz respeito ao modo como gasta seu tempo, como se comporta, como encara religião, sexo, política. “Eles socializam de modo inteiramente novo”, diz ela.

Muita gente costumava dizer que “as crianças estão ficando adultos muito rapidamente”. Ela nega:

“Contrariamente à ideia predominante de que as crianças estão crescendo mais rápido do que as gerações anteriores, iGen'ers estão a crescer mais lentamente: os jovens de 18 anos agem agora como costumavam agir os de 15 anos costumavam, e os de 13 anos parecem ter 10 anos. Adolescentes são fisicamente mais seguros do que nunca, no entanto, eles são mentalmente mais vulneráveis.”

E isso tudo dependia de um evento ou conjunto de eventos precisamente definidos, eventos técnicos. Ela se pergunta quais. O momento chave não era a famosa e impactante quebra econômica de 2008. Eureka, diz ela: 2001-12 era exatamente o momento em que a maioria dos americanos começava a possuir celulares que acessavam a internet, os smartphones. A Igen é fruto disso.

A posse do smartphone cria uma vida diferente. Diferente da TV ou do computador (mesmo o portátil), ele permite operações em praticamente qualquer lugar, basta ter o sinal para conexão. O Orkut dos desktops, masturbação mental das lanhouses, poderia ser substituída por outros modos, distribuídos, de “tirar sarro” em rede.

O iPhone foi introduzido pela Apple em 2007, então, os iGen’ers são a primeira geração a ingressar na adolescência com smartphones. Em 2004 surgira o Facebook – e os Igen podiam “viver” uma vida paralela dentro das redes sociais. Em 2005, surgia o YouTube, a plataforma da imagem em movimento. E no ano seguinte o Twitter, as pílulas verbais. E em 2009, finalmente, uma plataforma desde o início pensada para o fone móvel “smart”, o WhatsApp. Os espaços de troca, socialização e captura de informações eram completamente alterados em um intervalo de cinco anos.

Como no outro livro, depois do diagnostico severo, quase apocalíptico, a autora parece cultivar a missão de curar os “doentes”. Por isso o ultimo capitulo se chama nada menos que “Understanding – and saving – Igen”.

Como disse mais lá em cima, minha ignorância nesse campo de pesquisa é enorme e sequer tenho como julgar sua precisão. Mas algumas questões instigantes esses livros fazem surgir.

Faz um tempo, publiquei nesta coluna um artigo em que replicava os achados de um livro de Larry D. Rosen, Mark Carrier e Nancy A. Cheever. - Rewired - Understanding the iGeneration and the Way They Learn (Palgrave MacMillan, 2010)

Na ocasião chamei atenção para o encurtamento dos tempos, algo que voltei a enfatizar recentemente. Não me canso de repetir essa ideia, porque me parece quase que recitar a tabuada – a compreensão desse “crescendo” tem que fazer parte de nossa percepção automática. Ele pode ser resumido nesta sequência: a massificação do rádio demorou mais de 40 anos, a da TV e do telefone foi de 20 e 15 anos respectivamente. Mas o essencial está no final da lista: redes sociais como Facebook e YouTube atingiram essa dimensão em cerca de dois anos.

Talvez o novo mundo dos Igen e seus smartphones nos façam perceber o que vem por aí. E amanhã estejamos, quem sabe, iniciando uma nova interpretação do Genesis. No oitavo dia, fez-se a internet. E o espírito de Deus reinou sobre a face das águas. Ou não.

Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes é professor aposentado, colaborador na pós-graduação em Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp

*Publicado originalmente no Jornal da Unicamp




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