Sociedade e Cultura

O futuro não seguirá um roteiro já imaginado por Hollywood

 

22/04/2020 18:50

Apocalypse now: Roland Emmerich%u219s '2012' (2009) (Sony Pictures Entertainment/Kobal/Shutterstock)

Créditos da foto: Apocalypse now: Roland Emmerich%u219s '2012' (2009) (Sony Pictures Entertainment/Kobal/Shutterstock)

 
Frequentemente ouvimos que o que estamos passando agora é um caso real do que estávamos acostumados a ver nas distopias de Hollywood. Então, que tipo de filme estamos assistindo agora na vida real?

Quando recebi a mensagem de muitos amigos americanos de que as lojas de armas venderam todo seu estoque ainda mais rápido que as farmácias, tentei imaginar o raciocínio dos compradores: eles provavelmente se imaginavam como um grupo de pessoas isoladas em segurança, com sua casa bem abastecida e defendendo-se, com suas armas, de uma multidão infectada e faminta, como nos filmes sobre o ataque dos mortos-vivos. (Também se pode imaginar uma versão menos caótica desse cenário: as elites sobreviverão em áreas segregadas, como no filme de 2012 de Roland Emmerich, onde alguns milhares selecionados sobrevivem, com um preço de ingresso de US$ 1 bilhão por pessoa.)

Outro cenário na mesma linha catastrófica veio à minha mente quando li as seguintes notícias: “Os estados que têm pena de morte são induzidos a liberar medicamentos armazenados para pacientes com Covid-19. Os principais especialistas em saúde assinam uma carta dizendo que os medicamentos usados em injeções letais 'poderiam salvar centenas de vidas'.” Entendi imediatamente que o objetivo é aliviar a dor dos pacientes, não matá-los; mas por uma fração de segundo, lembro-me do filme distópico "Quando o amanhã chegar até nós", de 1973, que acontece em uma terra superpovoada e pós-apocalíptica, onde idosos desgostosos com a vida, em um mundo tão degradado, têm a opção de "voltar ao lar de Deus". Em uma clínica do governo, eles se sentam confortavelmente e, ao assistir a cenas da natureza intacta, adormecem de forma gradual e indolor … Quando alguns conservadores norte-americanos propuseram que a vida daqueles com mais de 70 anos fosse sacrificada para salvar a economia e o modo de vida americano, a opção apresentada no filme não seria uma maneira "humana" de fazê-lo?

Mas ainda não chegamos a isso. Quando o coronavírus começou a se espalhar, a ideia predominante era que tratava-se de um breve pesadelo que passaria com o clima cada vez mais quente da primavera: o filme era como o de um breve ataque (terremoto, tornado) cuja função é fazer-nos apreciar que bela sociedade em que vivemos. (Uma subespécie desta versão é a história de cientistas que salvam a humanidade no último minuto, inventando a cura bem-sucedida (vacina) contra um contágio, a esperança secreta da maioria de nós hoje.)

Agora que somos forçados a admitir que as epidemias permanecerão conosco por algum tempo, pelo menos, e mudarão profundamente nossas vidas inteiras, outro cenário de filme está surgindo aqui e ali: uma utopia mascarada de distopia. Lembre-se de O Carteiro, de Kevin Costner, um mega-fracasso pós-apocalíptico de 1997, ambientado em 2013, quinze anos após um evento apocalíptico não especificado, ter deixado um enorme impacto na civilização humana e apagado a maior parte da tecnologia. Segue a história de um vagabundo nômade sem nome que tropeça no uniforme de um ex-carteiro do Serviço Postal dos Estados Unidos e começa a distribuir cartas entre aldeias dispersas, fingindo agir em nome dos "Estados Unidos Restaurados da América"; outros começam a imitá-lo e, gradualmente, através desse jogo, a rede institucional básica dos Estados Unidos emerge novamente. A utopia que surge após o ponto zero da destruição apocalíptica é o mesmo Estados Unidos que temos agora, apenas recém purificado de seus excessos pós-modernos: uma sociedade modesta na qual os valores básicos de nossa vida são totalmente reafirmados.

Esses cenários ignoram a coisa realmente estranha das epidemias de coronavírus, seu caráter não apocalíptico: não é um apocalipse no sentido usual da destruição total do mundo, muito menos um apocalipse no sentido original de uma revelação até agora oculta. Sim, nosso mundo está se desmoronando, mas esse processo de desmoronamento simplesmente continua sem fim à vista. Quando o número de mortos e infectados aumenta, nossa mídia especula a que distância estamos do pico, já chegamos lá ou será em uma ou duas semanas? Todos nós aguardamos ansiosamente o pico das epidemias, como se esse pico fosse seguido por um retorno gradual à normalidade, mas a crise simplesmente continua. Talvez devêssemos reunir coragem e aceitar que permaneceremos em um mundo viral ameaçado por epidemias e distúrbios ambientais. Talvez, mesmo que a vacina seja descoberta, continuemos vivendo sob a ameaça de outra epidemia ou catástrofe ecológica. Agora estamos acordando do sonho de que as epidemias se evaporem no calor do verão e não há um plano de saída claro a longo prazo: o único debate é como relaxar gradualmente as medidas de quarentena. Quando as epidemias finalmente retrocederem, estaremos cansados e exaustos demais para termos algum prazer nisso. Que cenário isso implica? As seguintes falas apareceram no início de abril em um grande jornal britânico, descrevendo uma possível história:

"Reformas radicais, que revertam a direção política predominante das últimas quatro décadas, terão que ser colocadas sobre a mesa. Os governos terão que aceitar um papel mais ativo na economia. Eles devem ver os serviços públicos como investimentos, e não como obrigações, e procurar maneiras de tornar os mercados de trabalho menos inseguros. A redistribuição estará de volta à agenda; os privilégios dos idosos e ricos em questão. Políticas, até recentemente, consideradas excêntricas, como renda básica e impostos sobre a riqueza, terão que estar na agenda.”

Isto é uma repetição do manifesto trabalhista britânico? Não, é uma passagem de um editorial do Financial Times. Na mesma linha, Bill Gates pede uma "abordagem global" para combater a doença e alerta que, se o vírus puder se espalhar pelos países em desenvolvimento sem impedimentos, ele se recuperará e atingirá os países mais ricos em ondas subsequentes:

"Mesmo que os países ricos consigam conter a doença nos próximos meses, a Covid-19 poderá retornar se a pandemia continuar suficientemente grave em outros lugares. É provável que seja apenas uma questão de tempo até que uma parte do planeta infecte outra. Acredito firmemente no capitalismo, mas alguns mercados simplesmente não funcionam adequadamente em uma pandemia, e o mercado de suprimentos que salvam vidas é um exemplo óbvio".

Por mais agradáveis que sejam essas previsões e propostas, elas ainda são muito modestas: será necessário muito mais. Em algum nível básico, devemos simplesmente ignorar a lógica da lucratividade e começar a pensar em termos da capacidade de uma sociedade de mobilizar seus recursos para continuar funcionando. Temos recursos suficientes, a tarefa é alocá-los diretamente, fora da lógica do mercado. Assistência médica, ecologia global, produção e distribuição de alimentos, fornecimento de água e eletricidade, bom funcionamento da internet e telefones: isso deve permanecer, todas as outras coisas são secundárias.

O que isso implica, também, é o dever e o direito de um Estado de mobilizar as pessoas. Agora eles têm um problema (não apenas) na França: é temporada de colher frutas e legumes da primavera, e geralmente milhares de trabalhadores sazonais vêm da Espanha e de outros países para fazer o trabalho. Mas como as fronteiras agora estão fechadas, quem o fará? A França já está procurando voluntários para substituir trabalhadores estrangeiros, mas e se não houver número suficiente? A comida é necessária. E se a mobilização direta for a única maneira?

Como Alenka Zupancic colocou de maneira simples e clara, se a reação com total solidariedade às pandemias pode causar um dano maior do que elas próprias, isso não é uma indicação de que há algo terrivelmente errado, em uma sociedade e economia que não se pode sustentar tanta solidariedade? Por que deveria haver uma escolha entre solidariedade e economia? Nossa resposta a essa alternativa não deveria ser a mesma que: café ou chá? Sim, por favor! Não importa como chamamos a nova ordem de que precisamos, comunismo ou co-imunismo, como faz Peter Sloterdijk (uma imunidade coletiva organizada contra ataques virais), o ponto é o mesmo.

Essa realidade não seguirá nenhum dos roteiros de filmes já imaginados, mas precisamos desesperadamente de novos roteiros, novas histórias que nos proporcionem a todos uma espécie de mapeamento cognitivo, uma sensação realista e, ao mesmo tempo, não catastrófica, de para onde devemos seguir. Precisamos de um horizonte de esperança, precisamos de uma nova Hollywood pós-pandemia.

*Publicado originalmente em 'The Spectator' | Tradução de César Locatelli

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