Sociedade e Cultura

O jogo do dokei dokein (tentar)

 

01/11/2020 12:29

(Arte Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte Carta Maior)

 

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Polla ta deina kouden an-

Throupou deinôteron pelei
Há muitas coisas formidáveis no mundo,
Mas não há nada mais formidável do que o homem

(canto do Coro em Antígona, tragédia de Sófocles, no verso 332)

O homem é verdadeiramente, a definição da cultura como oposta à natureza, ele cultiva a fala e as ciências sublimes, ele sabe preservar sua morada dos gelos do inverno e dos dardos da borrasca, ele sabe não se molhar (Claude Lévi-Strauss).

A população chilena em 1988 no dia 5 de outubro, convidada a se manifestar em plebiscito sobre a permanência do general Pinochet no poder, diante de uma “democracia de baixa intensidade”, como era conceituada pelos cientistas políticos à época, respondeu com um forte Não, dia que ficou conhecido como o “Dia do No”.

Em 25 de outubro de 2020, 30 anos depois, os chilenos se manifestaram em um referendo inequívoco em favor de uma nova assembleia constituinte, diante de uma constituição cunhada no período da ditadura militar que foi alterada 33 vezes, uma constituição neoliberal que dava sustentação à privatização das políticas públicas. Povos indígenas, os mapuches, mulheres, movimentos feministas de todos os tipos se manifestaram por uma assembleia constituinte popular. A representante Mapuche Gabriela Curinao, secretária de organização da Associação de Mulheres Rurais e Indígenas que agrega mulheres do campo, urbanas e indígenas dos povos originários disse: “... o levante do povo chileno está fortemente sustentado pela luta das mulheres indígenas”.

Há vinte anos o movimento das mulheres mapuches vem crescendo, o que nos lembra de um tempo em Antígona de Sófocles, de um tempo entre-duas -mortes. O movimento e a resiliência das mulheres mapuches nesses 20 anos nos lembra de gestos que chegam ao limite, ao Até, ao horizonte. Antígona é aquela que por seu desejo viola os limites de Até.  Se Antígona de Sófocles trata do tempo entre-duas-mortes, o referendo do Chile em outubro trata do desfecho do tempo entre-duas-mortes, a 1ª morte do ditador “no dia do No” e a 2ª morte do ditador Pinochet no dia do plebiscito por uma nova assembleia constituinte popular.

Antígona representa esse limite radical, momento em que as palavras e a linguagem e o significante entram em jogo, em que algo pode ser dito. Fora da linguagem não há limites, não há lei, não há bem e mal. A linguagem escande tudo o que ocorre no movimento da vida.

E é a poesia mapuche de Graciela Huinao, a primeira indígena a ocupar uma cadeira na Academia Chilena de Letras em 2014, que restaura a história do povo chileno, um conflito que atravessa séculos inscrito na história do Chile e dos mapuche. Em entrevista ao Brasil de Fato, Graciela fala de “um conflito pelo reconhecimento de suas terras, cultura e língua”. A língua-mãe dos mapuche, a língua de Graciela e do povo mapuche, o mapudungun (em português, som da terra), que era escutada como a língua do inferno enquanto o castelhano era a língua celestial. Graciela diz: “...quando eu vim para Santiago (capital do Chile), algo me faltava, era a minha língua materna. No entanto, eu tinha alguns sons do mapudungun na mente, ao escutar meu pai falar com a minha vó ou com algum amigo no campo. E eu estudei o mapudungun aqui em Santiago...com Clara Antinao, uma linguista, por sete anos.”

Se Antígona é uma tragédia grega de 422 AC, a terceira peça da trilogia tebana, lida por Lacan no Seminário 7, a ética da psicanálise, Antígona no entre-duas-mortes, a poesia de Graciela Huinao atravessa séculos de cultura e de língua-mãe quechua no  para-além do horizonte, no para-além do tempo. E ressoa na história do Chile como a vida que corre de modo resiliente “entre-duas-mortes”, através do som da terra, o mapudungun.

La vida y la muerte se hermanan

Por Graciela Huinao

Al mirar atrás
puedo ver el camino
y las huellas que voy dejando.
A su orilla árboles milenarios se alzan
con algún cruce de amargas plantas.
Pero es equilibrada su sombra
desde la huerta de mi casa.
Allí aprendí a preparar la tierra
la cantidad de semilla en cada melga
para no tener dificultad en aporcarla.
Es tu vida
– me dijo- una vez mi padre
colocándome un puñado de tierra en la mano.
La vi tan negra, la sentí tan áspera.
Mi pequeña palma tembló.
Sin miedo – me dijo-
para que no te pesen los años.
La mano de mi padre envolvió la mía
y los pequeños habitantes
dejaron de moverse dentro de mi palma
El miedo me atravesó como punta de lanza.
Un segundo bastó
y sobraron todas las palabras.
Para mostrarme el terror
a la muerte que todos llevamos.
De enseñanza simple era mi padre
con su naturaleza sabia.
Al hermanar la vida y la muerte
en el centro de mi mano
y no temer cuando emprenda el camino
hacía la tierra de mis antepasados.
Abrimos nuestros dedos
y de un soplo retornó la vida
al pequeño universo de mi palma


Lamngenwenngei chi mongen ka chi la

Wiñokintulu iñche
pepi pen chi rüpu
ka pen ñi pünon ñi elnien(…)


Ivanisa Teitelroit Martins é psicanalista, do movimento de mulheres na década de 70, delegada pelo Brasil convidada pelo governo cubano na Conferência das Mulheres da América Latina e do Caribe em 1984

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