Sociedade e Cultura

O mito de Lilith: uma análise da ideologia manifesta por Damares Alves

 

11/03/2019 10:24

 

 
Os primeiros dois meses do governo Bolsonaro já entraram para a história da República Nova: somos o País de fake news e golden shower. O mundo nos observa, incrédulo e surpreso, se perguntando como diante do desemprego e da recessão, o presidente “governa” pelo Twitter, com postagens pornográficas e falsas, demonstrando acentuada imaturidade. Talvez um termo o defina: regressão.

A psicanálise esclarece o sentido do termo regressão como um mecanismo de defesa inconsciente, que envolve, ante eventos estressantes, frustrantes ou até mesmo traumáticos, retornar à infância. Para o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), regredir envolve voltar a um estágio anterior do desenvolvimento sexual – em que pese o termo sexual aqui ter uma definição para muito além das relações sexuais, abrangendo todos os estágios de desenvolvimento psicológico habituais para nós, humanos – quando não se atinge a satisfação resultante do prazer em atividades do cotidiano. Essa breve explicação psicanalítica nos leva a perceber que não apenas o comportamento de quem ocupa, nesse instante, a Presidência da República, são emblemáticos quanto a regressão.

No último dia 8, data internacional de celebração das lutas das mulheres por igualdade, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, expôs como pretende agir para retirar o Brasil da quinta colocação no ranking mundial de feminicídios: conscientizar os homens, quando ainda meninos, da necessidade das mulheres de ser amadas. Abrir a porta do carro e presentear as mulheres com flores, foram métodos citados pela ministra para auxiliar nessa ofensiva contra o machismo, devendo, segundo ela, ser ensinados nas escolas.

Nesse ponto, sinto a necessidade, leitor(x), de regressar. Não como o fazem a ministra e seu presidente, obviamente. Somente para comentar que, no Dia Internacional da Mulher, estive conversando com uma professora a quem admiro profundamente pela inteligência. Apresentei a ela um ensaio que escrevi recentemente sobre a subjetividade feminina e ouvi, entre críticas oportunas e palavras sábias, que aquilo poderia se tornar uma tese. Fiquei surpreso! Sou ainda um simples graduando em Psicologia, em fase de conclusão, com expectativas e vaidades, vivendo entre o ansioso sonho de logo exercer a profissão e a realidade de observar um mundo retomando o caminho do obscurantismo. Olhando para nossa sociedade, me pergunto como posso enfrentar tamanhas trevas, segurando apenas a pequena vela acesa dos conhecimentos nos quais fui iniciado. Entre tudo isso, sinto, ainda, aos trinta e sete anos, a mesma emoção descoberta na infância: é tarefa essencial do ser humano servir a sociedade do seu tempo, contribuindo para seu progresso. Não há nada de heroico, tampouco de magnífico, em pensar assim. Simplesmente, esse é o dever que nos trouxe ao nascimento e certamente será a única coisa que levaremos após a morte: o sentimento de obrigação realizada com dignidade e respeito a quem buscou nosso auxílio, ou a imensa frustração de ter sido egoísta e pensado em exercer uma profissão apenas pelos benefícios financeiros.

Como disse, pretendia regressar e o fiz, mas não como o presidente e a sua ministra. Por isso, regressarei mais uma vez e de forma breve, a alguns trechos dos escritos mencionados anteriormente, os quais um dia podem resultar em tese, segundo a brilhante professora com quem aprendi coisas valiosas.

Conforme o gênese bíblico, a criação da espécie humana é o ponto alto da estruturação da Terra. Ao ser humano, de acordo com Gênesis 1:26, foi dado o domínio sobre todas as outras espécies. O relato é bastante específico: “Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles [mulher e homem] dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra.”[1] No versículo seguinte, a mulher surge, lado a lado, com o homem: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou”. Homem e mulher, portanto, foram criados juntxs por uma entidade superior, que logo em seguida, ordena sua reprodução e consequente predomínio sobre as demais espécies. Todavia, no capítulo 2, a narrativa bíblica apresenta novamente a criação da mulher, mas, como extensão do homem. Segundo Gênesis 2:18-19, “Iahweh Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda.” [...] Então Iahweh Deus fez cair um torpor sobre o homem e ele dormiu. Tomou uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois, da costela que tirara do homem, Iahweh Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem.”

            Comparando o primeiro e o segundo capítulo do relato, percebe-se a ruptura da narrativa: primeiro, o homem e a mulher haviam sido criadxs no mesmo momento, com o objetivo de ser a espécie dominante do planeta. Em seguida, porém, o homem é concebido sozinho, sendo a mulher gerada a posteriori; Deus criou-a com o intuito de ser uma assessora do homem, que, de forma coadjuvante, lhe fizesse companhia, desempenhando o papel de gerar a espécie. Talvez mais notável que descobrir a descontinuação existente entre os capítulos 1 e 2, seja a reação do primeiro homem: “Então o homem exclamou: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem!”” (Gênesis 2:23). A admiração do primeiro homem, ante a mulher e o trecho “Esta sim”, suscitam questões intrigantes: se aquela sim era parte do seu próprio corpo, antes dela, existiu outra? Caso afirmativo, quem seria essa primeira mulher, gerada antes daquela que saiu das costelas dele? A surpresa de Adão e essas questões, implicitamente, indicam a presença de uma mulher que já o acompanhava, antes de Eva ser criada. Uma mulher retirada do relato bíblico propositadamente, por representar um risco à narrativa bíblica, escrita por homens e para homens.

Presente nas principais obras da tradição judaica, a primeira companheira de Adão chamava-se Lilith. Criada por Deus à noite, ela foi apresentada a Adão, que se assustou com sua autonomia: Lilith reivindicou a igualdade de direitos, sobretudo, sexuais. Ela não desejava ficar por baixo durante o sexo – posição do missionário – o que irritou Adão. O desentendimento cresceu a tal ponto que Lilith, ao ver que não seria atendida em suas reivindicações, transpôs as normas, proferiu o tetragrama divino – YHWH – ganhou asas e deixou o Paraíso, rumando para o Mar Vermelho. Nesse trecho, a narrativa judaica demoniza Lilith, afirmando que ela ganhou autoridade sobre seu próprio corpo, mas, para isso, se tornou um fascinante demônio feminino que penetra nos sonhos dos homens, lhes sugando a energia sexual.

Por milênios, diversas vertentes do cristianismo deturpam o mito de Lilith e, através dele, demonizam a mulher. Nessas visões distorcidas, das quais a ministra Damares Alves é fervorosa seguidora, não apenas Lilith, mas Eva também é encarada como demoníaca: através dela, o pecado teria entrado no mundo. O mito de Lilith, por sua vez, nos mostra que, desde muito tempo atrás, as mulheres nunca desejaram uma posição passiva, de serem amadas. Antes, ele denuncia que a liberdade lhes foi tirada pelas imposições culturais que tem o claro objetivo de satisfazer a nós, os machos humanos. Para buscar soberania sobre si mesma, a mulher é obrigada a se transformar em demônio ou agir como Eva, enganando o primeiro homem, Adão, o qual, do alto da sua ingenuidade, não avaliou como certo ou errado comer do fruto proibido. Quanta pureza e falta de malícia, nós, homens, sempre tivemos, e como as mulheres são seres sutis e perversos...

Ter a porta do carro aberta e receber flores de um homem certamente nunca foram os (únicos) desejos das mulheres. Elas, em suas diferenças, reivindicam, através do feminismo, a condição de igualdade, que foi roubada de Lilith, tanto por sua demonização, quanto por sua ocultação do gênese bíblico.

Utilizar o poder público para ensinar aos homens o exercício de uma suposta gentileza, afirmando que as mulheres precisam ser amadas, parece, sob nossa percepção psicanalítica, uma evidente regressão da ministra, quando tinha 10 anos de idade e foi vítima de sucessivos estupros. Esse conjunto de ações que Damares visa implantar para, segundo ela, salvar as mulheres, demonstra a intenção, talvez inconsciente, de resolver experiências dolorosas e traumáticas vividas por ela mesma. Ocorre que tais medidas seguramente levariam às mulheres a uma modalidade de violação de direitos ainda mais cruel que os feminicídios: a subalternização através de um machismo cordial. Por isso mesmo, esperamos pela existência de mais Liliths reivindicando o óbvio: o direito das mulheres de ser tudo aquilo que desejam!

Armando Januário dos Santos: Sexólogo. Psicanalista em formação. Graduando em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br

[1] Bíblia de Jerusalém.



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