Sociedade e Cultura

O mundo pós-covid será igual ao mundo de antes, mas pior?

É claro que as dívidas públicas vão explodir, mas é possível fazer uma escolha política entre medidas injustas ou mais justiça social, pois "sempre existe uma alternativa"

20/05/2020 13:09

(Ilustração de Matt Kenyon/The Guardian)

Créditos da foto: (Ilustração de Matt Kenyon/The Guardian)

 
Já podemos imaginar que vão tentar nos embromar de novo... que a melhoria dos serviços públicos e a valorização das profissões na linha de frente ficarão, mais uma vez, para depois... que o mundo de depois poderá ser o mesmo de antes... mas piorado. E de onde viria essa piora? Primeiro, claramente, do mercado de trabalho, como evidenciado pelos impropérios de Geoffroy Roux de Bézieux (N.da T.: presidente do Medef, principal organização do patronato francês, equivalente à FIESP), três semanas antes do desconfinamento: “Teremos que questionar, mais cedo ou mais tarde, o tempo de trabalho, os feriados e férias pagas para apoiar a recuperação econômica e possibilitar, ao se trabalhar um pouco mais, um maior crescimento”. Taí, mais claro impossível.

Depois, mais sub-repticiamente, pela dívida pública... e isso será muito mais rápido do que pensamos. Nossa dívida pública aumentará entre 15% e 40%, dependendo da previsão. Isso não é específico da França, acontecerá em toda parte, pois foi necessário aumentar os gastos públicos para absorver o choque sanitário: na França, seguro-desemprego parcial, material de saúde, bônus aos profissionais de saúde, ajuda financeira a pequenas empresas, atraso ou cancelamento de encargos e impostos sociais para empresas em dificuldade. Que não nos enganemos: essas medidas eram absolutamente necessárias para minimizar os efeitos do confinamento sobre o aparato produtivo e teria sido necessário fazer duas vezes mais, como fizeram os alemães! E, à medida que o Estado gasta mais, suas receitas vão cair automaticamente, como resultado da grande recessão que já começou.

A crise da saúde, que desencadeou uma crise econômica sem precedentes, também se traduzirá em uma deterioração brutal nas contas públicas. É a vida, ou melhor, é a macroeconomia. Como administrar esse excedente da dívida pública? Afinal, em todo o mundo, os países enfrentarão as mesmas equações, a dívida pública global está em alta. E aqui há algo sutil a entender: o importante não é o estoque, mas o fluxo... ou seja, o valor a ser reembolsado a cada ano. Se este permanecer estável e sob controle, um país tem toda condição de absorver esse choque em quinze ou vinte anos.

É aqui que o Banco Central Europeu (BCE) entra em campo: ele ajudará comprando nossas dívidas públicas massivamente; ao fazê-lo, estabilizará a taxa de empréstimo, contribuindo para tranquilizar os credores para que aceitem a mesma taxa de juros de antes. Se funcionar como previsto, a dívida terá uma dinâmica sustentável e sua redução progressiva poderá ser alcançada através de dois motores. Primeiro: o crescimento econômico, que impulsiona a atividade produtiva e restaura as receitas tributárias. Para garantir a retomada da demanda, planos de estímulo serão provavelmente implementados até setembro. Segundo motor: os impostos, que devem repor as receitas tributárias se não matarem a demanda.

É nesse ponto preciso que paramos de fazer economia e começa a política. Em outras palavras, é aqui que decidimos entre políticas conservadoras ou progressistas. Afinal, que plano de estímulo escolher? Os incentivos à compra de carros, mesmo que elétricos, aumentarão as emissões de carbono na França, ao contrário dos incentivos ao isolamento térmico, à reforma sustentável de edifícios e ao desenvolvimento de transporte público gratuito. Em suma, podemos optar por retomar o crescimento sujo ou decidir que é hora de iniciar uma transição de verdade.

O mesmo vale para a tributação. Que impostos propor? O IVA e o CSG, esses impostos regressivos que afetam muito mais a baixa renda e os assalariados do que as rendas altas e os detentores de capital, terão efeitos desastrosos para a desigualdade. Inversamente, os impostos sobre altas rendas, sobre grandes patrimônios e multinacionais poderiam recorrer ao acúmulo de riquezas da população que se beneficiou largamente da globalização desde a década de 1980. Em suma, podemos escolher receitas públicas injustas ou decidir que é hora de restabelecer a justiça social tão deteriorada nas últimas quatro décadas.

Trata-se de escolhas políticas, não econômicas. Vão tentar nos dizer o inverso, defendendo que não há alternativa. Que é preciso salvar a indústria automobilística para salvar empregos. Que seria demagógico tributar os ricos e que correríamos o risco de impedir o crescimento econômico, fazendo-os fugir. Vão nos enganar se não nos mobilizarmos para definir claramente os termos do debate e defender nossos valores. Ah, uma última coisa, senhora mídia: e se parássemos de pôr apenas homens brancos nas capas dos números sobre o "Mundo pós-covid"?

Anne-Laure Delatte é economista

*Publicado originalmente em 'Libération' | Tradução de Clarisse Meireles





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