Sociedade e Cultura

O passado de uma ilusão: o que acontece quando uma pandemia atinge uma sociedade doente?

 

24/04/2020 11:13

(Quino)

Créditos da foto: (Quino)

 
“Cuzão que não concorda c’o holocausto brasileiro,
Vive no condomínio, limpa o rabo com dinheiro.”
Facção central, A marcha fúnebre prossegue

Vivemos em uma sociedade doente. Essa doença tem um nome simples: ‘desigualdade extrema’. O nome é simples, mas são diversas e complexas as suas características, dentre elas: o racismo estrutural crônico, a insensibilidade moral endêmica e o colonialismo intelectual congênito. O Covid-19, como séria doença biológica, se alastra em uma sociedade que padece de uma séria doença social, e, na realidade, tanto permite tornar essa patologia social muito mais visível quanto, infelizmente, já dá mostras de que irá agravá-la, especialmente por conta da depressão econômico-social que já se insinua. Assim como o vírus pode se tornar mais sério e levar à morte os indivíduos contaminados que possuem doenças crônicas anteriores (as atualmente chamadas ‘comorbidades’), podemos prever que, no campo coletivo, a pandemia gerará efeitos econômico-sociais ainda mais nefastos quando afeta nossa população, que padece de sérias comorbidades sociais prévias. Portanto, a grave situação de saúde pela qual estamos passando se agrava ainda mais quando se soma a uma grave situação social, ocultada no imaginário social, especialmente da maioria conservadora e protofascista da classe média, não apenas por seu perfil econômico, mas também por sua função social primária de ‘capitão do mato’ entre a ínfima elite da ‘Casa grande’ e a maioria da população que habita a ‘Senzala’.

Há várias causas de nossa doença socioeconômica, a desigualdade extrema; mas é sobretudo aquilo que podemos chamar de totalitarismo de oligopólios sua causa principal. A definição mais simples desse totalitarismo é: a mega-acumulação de riquezas nas mãos de uma ínfima parcela da sociedade, o que não pode ser feito sem violência em massa e manipulação de significados dos fatos sociais compartilhados. Note-se: a acumulação de riquezas não se resume à acumulação financeira a níveis estratosféricos (incluindo aí o sequestro de quase metade do orçamento para pagamento de uma dívida pública nunca auditada), mas também a acumulação agrária (metade das terras agricultáveis na mão de menos de um por cento dos proprietários), a acumulação imobiliária (que alimenta tanto as condições horríveis das periferias quanto aumenta a população dos sem-teto), a acumulação midiática (a maioria dos meios de comunicação de massa na mão de poucas famílias e corporações), a acumulação intelectual (boa parte da população não tem acesso ao conhecimento), dentre outras formas de acumulação que seria ocioso mencionar aqui. Em suma: vivemos no país dos mega-oligopólios.

E se alguns descarados dizem que não somos os país mais desigual do mundo segundo certos rankings, nós certamente somos o país mais desigual do mundo quando consideradas as riquezas do país, concentradas em sua maior parte nas mãos de menos de 1% da população. Os frágeis atenuantes dessa desigualdade obtidos nos últimos cem anos através de lutas sociais duras estão sendo destruídos pela implantação do neoliberalismo em nosso país desde o governo do traidor da sociologia, Fernando Henrique Cardoso; uma implantação que teve um ritmo atenuado nos governos petistas, mas que voltou com multiplicada violência nos governos Temer-Bolsonaro. A união entre as diversas camadas das políticas de morte (necropolítica), aplicadas sobremodo aos excluídos, e das diversas camadas das políticas de manipulação de significados (semiopolítica), aplicadas a todas as camadas da população, poderia ser chamada, no caso brasileiro, de necroliberalismo: a aplicação do capitalismo neoliberal (que, em essência, promove a desigualdade) em um país já assolado por extrema desigualdade, a qual resulta na mais nova forma do totalitarismo dos oligopólios, regime tirânico que representa os cinco séculos de genocídio em massa da população pobre, seja esse genocídio praticado pela exclusão, seja pela violência estatal ou privada de todos os tipos, desde a intimidação psicológica até o assassinato em massa.

O modo como setores do governo e da sociedade brasileira estão lidando com a pandemia de Coronavírus são um espelho que reflete com uma clareza repugnante a doença social que já estava implantada em nossa sociedade. Diferente do que uma parte hipócrita das mídias pretende dizer (por puro interesse próprio), o atual governo é o mais legítimo representante do necroliberalismo brasileiro, ou seja, da última versão do totalitarismo oligopolista que tem assassinado direta ou indiretamente milhões de pessoas desde a chegada dos colonizadores europeus. A novidade do atual cenário consiste no fato de que, com a depressão econômico-social que se aproxima, as políticas de empobrecimento da classe média, que vinham sendo implementadas a conta gotas desde FHC, serão agora aceleradas, principalmente via sistema financeiro.

Com a eclosão da pandemia do Coronavírus, revela-se uma realidade nua, crua e indigesta: a parcela majoritária da classe média brasileira, de feição conservadora e protofascista – parcela que travestiu o gozo sádico de seu ódio aos pobres no discurso moralista da anticorrupção lavajatista que culminou no golpe de 2016 – irá agora pagar caro (com a vida ou com o bolso) por ter requentado a azeda versão “tradição, família e propriedade” da sociedade brasileira. Para além dos incontáveis mortos pela pandemia (número aumentado pelas práticas genocidas que emanam do planalto), essa classe média irá amargar um período de séria depressão econômica (e, por certo, psicológica) que se seguirá inevitavelmente à pandemia. Os estados de outros países, tão admirados de modo basbaque por essa mesma classe média, estão implementando uma multidão de medidas para atenuar a inevitável depressão econômica. Em lugar de fazer o mesmo, e sendo coerente com sua crueldade secular, o estado brasileiro, como extensão direta de nossa elite genocida, está implementando medidas que claramente protegem e até ampliam, por transações financeiras escabrosas, a mega-acumulação de riquezas. Nesse sentido, assim como a pandemia de Covid-19 atinge virtualmente a totalidade da população e não, como outras doenças, apenas suas camadas mais pobres, assim também, a depressão econômica em sua configuração brasileira (agravada ao extremo pela elite nacional) não apenas atingirá de modo duríssimo os excluídos que compõem de 70 a 80% dos brasileiros, mas também atingirá em cheio a parte mais baixa da classe média, ou seja, sua maioria.

Não nos enganemos com a ladainha anunciada dia e noite pelas mídias hegemônicas e pelas redes sociais: o choro de carpideiras segundo o qual todos sofrerão e terão de fazer o seu sacrifício para o bem da nação. Para o tão célebre quanto oculto 1%, esta pandemia será uma pedra filosofal capaz de transformar morte em ouro, em um tipo horrendo de ritual para santificar e esconder mais um de seus assaltos à riqueza gerada pelos outros 99%. É o baixo clero de grotescas figuras dessa elite quem exprime seu real pensamento: alguns milhares de mortos (afinal, em sua maioria idosos) são um “baixo custo” para manter o moedor de carne humana da economia neoliberal. Contudo, o alto clero dessa mesma elite, embora simpatizando intimamente com o pensamento daqueles outros, sabe que há várias razões pelas quais as medidas de isolamento são economicamente aceitáveis e, se bem conduzidas, bastante rentáveis para o terraço do edifício social brasileiro. Dentre estas razões estão: (1) é mais fácil manter seu poder econômico e social ao dizer mentirosamente que a vida está acima da economia do que declarando claramente o inverso; (2) as falências em massa abrem espaço para o reordenamento, ampliação e surgimento de monopólios; e, sobretudo, (3) as “dívidas de guerra” são a justificativa irrecusável para medidas econômicas mais duras que permitirão, especialmente através de tenebrosas transações trabalhistas, contábeis e financeiras, concentrar ainda mais a riqueza e “expurgar” os mais fracos de dentro de sua classe, abrindo mais espaço para a acumulação e para os sempre bem-vindos colonizadores (“investidores”) estrangeiros. Por fim, mas não menos importante, (4) a quarentena das massas, milimetricamente regada com alguma esmola emergencial para sua parte mais vulnerável, e controlada com algumas medidas de endividamento da classe média, evita profilaticamente que, caso a pandemia fosse deixada à solta, essa multidão doente e depauperada tomasse a desagradável decisão de fazer barulho nos portões de Versailles, ou, movida pelo ódio justo, ousasse pôr em prática alguma indesejável Queda da Bastilha, o que exigiria ainda mais dinheiro para pagar polícias, milícias, milicos, advogados e juízes em nome da necessária “garantia da lei e a da ordem”, bem como para consertar algumas de suas propriedades danificadas.

Essas indicações mostram como o necroliberalismo brasileiro (associação diabólica entre necropolítica e semiopolítica) se estenderá rapidamente da parte mais pobre da população para uma parte ainda indeterminada daqueles que atualmente fazem ou acreditam fazer parte da classe média. Horrorosa ironia da história brasileira: o Coronavírus, elemento de morte concreta, revela as entranhas podres do necroliberalismo brasileiro em suas políticas de morte (violenta ou socioeconômica) e suas políticas de deformação de significados que agora usam as metáforas da guerra à pandemia para realizar, na realidade, uma guerra da elite (através de seus prepostos políticos, jurídicos e midiáticos) contra a grande maioria da população brasileira. Portanto, na intensificação e ampliação das políticas necroliberais que já estão em curso, uma parcela ainda indefinida da classe média que odeia os pobres terá, na expressão de Achille Mbembe, o seu “dia de negro”. O terror psicológico que o vírus biológico impõe a toda a população é uma metáfora perversa e profética do terror socioeconômico que se abaterá sobre a maioria da população, lançada em um nível de escravidão financeira sem precedentes em nosso país e, provavelmente, dentre os países ditos em desenvolvimento. Para quem não acredita nesse provável futuro dantesco, basta comparar com atenção as atuais e futuras medidas de precarização do trabalho e da renda, a falta de políticas de crédito para micro, pequenas e médias empresas (inclusive com o aumento dos juros por parte dos bancos) com as rápidas medidas de “salvamento” do sistema financeiro, incluindo a obscena medida que permite a compra dos “papéis podres” (ou seja, dos prejuízos) das instituições financeiras pelo Banco Central sem nenhuma contrapartida econômica ou social destas mesmas instituições.

Talvez uma parte da classe média conservadora e protofascista que apoiou e apoia o atual governo aprenda pelo sofrimento algo acerca da hedionda crueldade da elite brasileira, embora isso seja improvável, uma vez que a estupidez, a partir de certo estágio, perde as próprias condições de reconhecer a si mesma. No que tange à parte mais progressista desta mesma classe, uma perigosa narrativa ingênua (talvez formada para evitar o desespero ou a depressão) já circula: a ilusão de que, por alguma confluência astral miraculosa, a atual pandemia produziria, como que por geração espontânea ou mutação mística da consciência moral, o colapso do capitalismo mundial e do necroliberalismo tropical. A realidade indica exatamente o oposto: a maioria da sociedade dilacerada pela depressão econômica e pelo luto da pandemia clamará com redobrado desespero ao deus Mercado pelo retorno do crescimento econômico incondicional e aceitará pagar uma dívida duplamente impagável, impregnando-se dos estúpidos e simplórios bordões fascistas que oferecem inimigos imaginários para aliviar seus sofrimentos reais. E enquanto os cardeais do Mercado estiverem gozando em concílio a sublime podridão de seus lucros recordes, será uma parte dessa mesma classe média depauperada pela depressão econômica e psicológica pós-pandemia que se ajoelhará, brandindo as mãos juntas, para trabalhar e consumir, em fervorosa servidão voluntária, beijando os pés dos seus carrascos e torturadores. Em lugar de esperar por uma mágica transformação do necroliberalismo brasileiro, a parcela progressista minoritária da classe média deveria, finalmente, chegar ao que Max Weber chamou de característica fundamental da modernidade: o desencantamento do mundo. Em nosso contexto isso significa: encarar a estrutura totalitária da sociedade brasileira e sua causa primária: a mega-acumulação de riquezas, esforçando-se para agir politicamente na direção de derrubar essa tirania, antes que seja tarde demais, se já não o for...

O discurso e as práticas políticas genocidas exaltados e postos em ação pelo atual presidente e seus lacaios em relação à tragédia humanitária que está em curso entre nós desenham em traços grotescos a face mais visível do latente discurso e das práticas genocidas da elite brasileira, que já estão em curso há cinco séculos. No cenário atual, para preservar e ampliar seus oligopólios, a elite brasileira está impondo medidas econômicas e políticas que multiplicarão a depressão econômica desencadeada pela pandemia. Se atualmente a maioria da classe média consegue se defender do Coronavírus por meio de suas maiores ou menores possibilidades de isolamento, em breve a destruição social implementada pelo egoísmo criminoso da elite alcançará também estes, agravando ao extremo a doença crônica da sociedade brasileira: a desigualdade. Os atuais donos da Casa Grande lançarão também uma parte da classe média que os serviu, os admirou, os imitou e os defendeu na Senzala ou na vala comum. Em 2022 o calendário marcará os duzentos anos do ambíguo nascimento de um estado. Para quem tenha conseguido preservar ainda alguma sanidade mental, meditar sobre o passado de nossas ilusões conduzirá talvez a uma moral da história: a comemoração do bicentenário de nossa frágil independência será um espetáculo de luto e melancolia...

Nazareno Eduardo de Almeida
Professor de Filosofia
Centro de Ciências Humanas
UFSC





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