Sociedade e Cultura

O politizado carnaval do Brasil em 2018

Apesar das tentativas da emissora Globo de omitir as alusões políticas do carnaval, não puderam ocultar o 'olê olê olá Lula', as carteiras de trabalho rasgadas em alusão à reforma trabalhista que beneficia os empresários, as críticas às formas modernas de escravidão e tampouco a representação do presidente Michel Temer vestido de vampiro com uma capa de plumas e notas de dólar

14/02/2018 10:37

 

 
Por Victor Farinelli, para o El Desconcierto do Chile

O carnaval brasileiro desde ano ficou marcado por manifestações políticas de vários tipos, e embora isso seja uma tradição no país, o de 2018 vem com um tom um pouco mais forte, a favor (ou em contra) de algumas figuras e ideias.

Em muitas cidades do país houve manifestações de apoio a Lula, o grande favorito para as eleições presidenciais de outubro segundo as pesquisas, apesar de ser difícil a oficialização de sua candidatura após a segunda condenação judicial contra ele. Nas três cidades com as maiores festas carnavalescas do país (Recife/Olinda, Rio de Janeiro e Salvador da Bahia) se escutaram gritos e cantos a favor de Lula.

Por exemplo, um bloco carnavalesco de Copacabana (Rio de Janeiro) cantando “olê olê olá Lula”, uma das canções que marcou a campanha eleitoral de 2002, a primeira vencida pelo ex-presidente.

Na entrada do Morro da Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro, foi instalada uma faixa onde se lê claramente: “STF, se prender Lula o morro vai descer”.

O fato acontece poucos dias depois de que o favorito da direita nas pesquisas, o ex-militar Jair Bolsonaro, disse num evento para os grandes empresários brasileiros que sua solução para combater o crime organizado é fazer ações de guerra metralhando os morros do Rio de Janeiro, e começando justamente pela Rocinha. Um comentário que despertou aplausos entusiasmados dos representantes do Mercado, segundo um colunista de um grande jornal da imprensa brasileira.

Em outro acontecimento importante, uma pequena multidão de foliões invadiu o Aeroporto Santos Dumont do Rio de Janeiro, no último domingo, para fazer festa e aproveitar para gritar algumas consignas políticas, como o tradicional “Fora Temer” e “ei Crivella, vai tomar no c...”, contra o prefeito da cidade maravilhosa, Marcelo Crivella, que também é bispo evangélico e que tentou boicotar o carnaval deste ano com corte de gastos e outras medidas proibitivas.

Temer vampiro

Mas foi no tradicional desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro onde se viu o melhor exemplo de manifestação política deste carnaval, durante uma apresentação da escola Paraíso do Tuiuti.

A começar pelo tema que a escola decidiu abordar: a letra do samba perguntava “meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, e expôs as marcas dos anos de escravidão que ainda estão presentes na sociedade brasileira. O Brasil foi o último país da América a terminar com a escravidão legal e teve no comércio de escravos africanos uma das bases da economia do período colonial.

As fantasias da Paraíso de Tuiuti mostraram de forma crua a violência sofrida pelos escravos, usando a arte para compará-la com as situações ainda normalmente vividas pelas mulheres negras e homens negros brasileiros, revelando um racismo que contradiz o discurso da “democracia racial” que o país tenta projetar ao resto do mundo.


Porém, longe de ficar somente nos aspectos históricos e sociológicos, a escola de Tuiuti foi além, para fazer uma crítica política bastante mais atual, e com um alvo evidente: a recente reforma trabalhista promovida pelo governo de Michel Temer. Uma das alas do desfile mostrou pessoas vestidas de carteiras de trabalho rasgadas, como forma de criticar os direitos perdidos com as medidas de flexibilização, que favorecem os empresários e prejudicam os trabalhadores.


Em outra parte do desfile a crítica aponta diretamente ao golpe de Estado de 2016, e os mobilizados de direita vestidos com camisetas verde e amarelas, amarrados a mãos gigantes, retratados como os “manifestoches”, manifestantes que foram manipulados pelos meios de comunicação. A emissora Globo, que transmite o desfile para todo o Brasil e muitos outros países, tentou ignorar ao máximo essa parte do desfile da Paraíso do Tuiuti, e quando mostrava as cenas, os comentaristas simplesmente não mencionavam detalhes da fantasia, ou buscavam mudar de assunto com os tradicionais comentários sexistas sobre as passistas com os seios ou a bunda mais à mostra.

No final, o carro principal da escola trazia como fantasia destacada a um Michel Temer caracterizado como um vampiro, com uma capa feita de plumas e notas de dólar. Novamente, a emissora Globo tentou omitir ao máximo a alusão ao presidente, com comentários que não escondiam o claro constrangimento da transmissão oficial. Aliás, este vídeo mostra todo o desfile da escola Paraíso do Tuiuti, para que se possa ver não só a incrível apresentação da escola como também os comentários envergonhados da transmissão da Globo.

Apesar a não ser uma das escolas mais tradicionais do Rio de Janeiro (as consideradas cinco grandes são Portela, Mangueira, Salgueiro, Mocidade e Beija-Flor), todas as enquetes dos portais de notícias brasileiros dão a Paraíso do Tuiuti como a favorita do público, com votação sempre superior aos 60%. Durante a tarde de segunda-feira (12/2), o portal UOL, o mais visitado do Brasil, dava una preferência de 87% à Tuiuti.

Será preciso esperar para ver se a Globo, que tem uma grande influência sobre os jurados do desfile, permitirá que a voz do povo faça com que a Paraíso do Tuiuti seja campeã com um abordagem cuja ideologia claramente desagradou a emissora.



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