Sociedade e Cultura

O povo da Covid-19

 

31/07/2020 13:18

(Alexandre Schneider/Getty Images)

Créditos da foto: (Alexandre Schneider/Getty Images)

 
Em poucos dias o Brasil chegará a 100 mil mortos pela covid-19. Sabemos que esse número pode ser muito maior. Não é possível falar sobre o aumento do número de mortos, sob o argumento da covid-19, sem refletir sobre a dor profunda que essa situação nos causa. Não podemos deixar de sentir o choro, a dor, o desespero dos doentes, familiares e amigos.

A chegada do vírus escancarou uma crise generalizada, mas nenhuma delas é tão contundente quanto a incapacidade, inabilidade e a indiferença de Bolsonaro de cuidar da população brasileira. Apesar do descaso gritante, ainda há um número significativo da população que parece ser aliada a ideia de acaso e fatalidade com a qual o governo tem atuado, e com isso se cala diante da naturalização de uma montanha de mortes diárias e da incompetência articulada de Bolsonaro.

Desde o rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019, do vazamento de petróleo no litoral nordestino e das queimadas criminosas na floresta Amazônica a conduta de Bolsonaro e a mesma: negação dos problemas e cumplicidade com a destruição do Brasil.

O começo de 2020 reservou para o mundo uma batalha imensa onde a dita humanidade é atacada por um vírus desconhecido e letal, que desafia as sociedades em todos os níveis. Mostra que mesmo tão separados e segregados estamos todos a mercê dos perigos comuns, embora as condições desiguais de existência favoreçam a poucos.

A batalha contra o Sars-CoV-2 no Brasil começou em meados do mês de março. Antes de termos sido apanhados pelo vírus, as emissoras de TVs alertavam para os perigos que se aproximavam. A TV Globo, trouxe uma campanha implícita: fiquem em casa e assistam a Globo, iniciando uma espécie de “guerrinha” do Jornal Nacional com o governo Bolsonaro. Temos que ter clareza que as diferenças entre esses dois atores sempre aparecem no mesmo espelho de identificação. Se por um lado, o jeito tosco do Presidente provoca repúdio a Globo, o mesmo não pode ser dito da aliança com as elites onde ambos aparecem de mãos dadas O que comprova isso é que, a emissora não deixou de apresentar as ações “solidárias” e “bondosas” das empresas privadas. Aliás, mais do que falar em cifras, apareciam imagens de doações de respiradores, equipamentos de proteção individual, testes da covid etc, enquanto os gastos públicos destinados ao combate da pandemia nas capitais e nos estados apareciam associados à corrupção. Ou seja, segue a apologia do Estado mínimo num momento em que as políticas públicas são de fato essenciais. O cenário de calamidade que aos poucos foi sendo construído constituiu um palco ideal para evidenciar a instalação de um necroestado, nitidamente genocida, que tem na política de negação e da indiferença, métodos eficientes para o amordaçamento social.

Diante da covid, os primeiros passos do governo foram marcados por inconsistências de posicionamentos com o então Ministro da Saúde, Henrique Mandetta, que mesmo sem planos e/ou estratégias claras, buscava seguir as orientações da Organização Mundial de Saúde, sobre a necessidade de isolamento social para conter a disseminação do vírus. O chamado isolamento social - direito de cada pessoa cuidar da saúde e da própria vida - foi motivo de zombaria pelo Presidente. Na sequência houve uma serie de absurdos: caminhadas, aglomerações, desrespeito diante de uma situação gravíssima, mas, sobretudo, uma vergonha internacional para qualquer cidadão com o mínimo de dignidade e responsabilidade social. Na sequência temos o fatal pronunciamento delirante de que a covid não passava de uma “gripezinha”, “resfriadinho”. Além criar uma ilusão no imaginário de muitas pessoas, essa fatídica fala foi mais um motivo de chacota internacional.

E não faltaram motivos para que a reputação do país fosse cada vez mais ao chão. As cadeiras dos ministérios dançaram de um lado para o outro, seja no caso do Ministério da Saúde, com Mandeta, Teich e o “interino” Pazuello, seja no Ministério da Justiça, da Cultura e da Educação. Diante da gravidade da pandemia e da mortandade por ela causada, quando precisaríamos da articulação máxima de todos os ministérios, de diálogos internos e externos, de uma grande aliança entre os diversos setores da sociedade assistimos, ao invés disso, o descaso, o desprezo pela vida e a apologia da morte em todos os sentidos.

Junto a pandemia os problemas do Brasil segue em curva ascendente. Se desde a prisão do Queiroz, Bolsonaro deixou de verbalizar algumas asneiras, isso não significa que ele tenha deixado de ser o tosco capitão comprometido com o programa de reformas neoliberais, como as privatizações, a flexibilização dos direitos trabalhistas, o desmatamento da Amazônia, o extermínio dos povos indígenas, a depreciação das universidades públicas, o desprezo pela cultura, pela educação, pela ciência etc. O fato é que segue em curso reformas que precarizam o trabalho, retiram direitos e amordaçam o futuro da população. Amazônia continua em chamas e o fogo prolifera-se a outros biomas. Hoje o Brasil vive um genocídio multissituado: seja na favela, contra a população negra e pobre, seja na Amazônia, contra a população indígena.

A pandemia que recebeu um tratamento neoliberal provoca sentimentos de culpa na população em todos os níveis. Os trabalhadores informais, que são impelidos a trabalhar, são acusados pelo aumento da transmissão do vírus; aqueles que se recusam a trabalhar são acusados pelo aumento do desemprego. O efeito retórico chega a ser surpreendente e ofusca na visão de uma parte da população, o descaso programado e o genocídio em curso.

Os negacionistas que nos governam são adictos do milagre da cloroquina. É comum que a crítica ao governo em diferentes níveis seja respondida com o mantra: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, tão ao gosto dos fundamentalismos. No ambiente de intolerância e ódio em que vivemos, tornou-se comum o uso de expressões ou palavras, que muitos sequer conhecem o significado, para se proferir agressões. Em pleno século XXI, a palavra comunista virou xingamento no Brasil. É irracional, mas e daí!?

Enquanto isso, uma parcela extremamente pobre do país é depositada em valas comuns, sem o direito ao ritual do enterro. No caso dos povos indígenas isso é ainda mais grave, pois interfere no sentido do grupo, no sistema de crença e na organização sociocultural. O abismo entre esses brasis que coexistem e em alguns momentos parecem misturados, fica evidente na ausência de um sentimento de comoção nacional diante da montanha de mortos da covid-19. Há uma permissão e aceite social de quem morre e de quem vive e agora mais do que nunca de como sente a morte.

Enquanto isso, a boiada vai passando – e uma elite imbecil, retrógada e ignorante mantem-se no poder. Os conchavos e as omissões se avolumam, a justiça amordaçada segue caminhando com investigações seletivas. No rastro do povo da covid-17 ficam milhares de famílias destroçadas, sonhos interrompidos e outros furtados. Não importa se eles são apoiadores do atual governo ou não. O fato é que as pessoas que se foram não levam a marca do acaso ou do acidente, são o povo da covid-17. Não podemos de forma nenhuma permitir a naturalização do genocídio. Muitas mortes poderiam ter sido evitadas, se a política do descaso, da negação e da indiferença com a vida, não tivesse sido o carro chefe desde o princípio.

É imprevisível o que sobrará do Brasil no pós-bolsonarismo, mas, se realmente queremos sair do pandemoinho em que nos metemos, precisamos expurgar a hipocrisia nossa de cada dia. O resgate no país que queremos passa por um busca individual, coletiva, social, política, cultural – um conjunto de ações e pensamentos que levem em conta coletividades. Já rasgamos a hipocrisia da igualdade, é chegado o momento de construir com sinceridade uma democracia radical e não a demo-cracia costurada, e que agora mais do que nunca se encontra em retalhos. Para isso o compromisso com a lucidez do pensamento torna-se essencial. Debates sinceros ensinamentos e aprendizagens honestas e comprometidas com futuros, para além de nós mesmos. Ou nos comprometemos com as futuras gerações, para um Brasil e consequentemente com um mundo menos injusto ou seguiremos perplexos diante dos absurdos.

Danielle Araújo é antropóloga e professora da Universidade Federal da Integração Latino-americana – UNILA

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