Sociedade e Cultura

O que Meryl Streep e Felipe Neto têm em comum?

 

21/06/2020 13:03

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
:: Leia mais: Especial 'Nem Freud Explica...' (CLIQUE AQUI)

Assistindo a entrevista do influenciador digital Felipe Neto no programa Roda Viva fiquei muito esperançoso com o fato de que finalmente alguém falou com bastante clareza algo que parte do universo político se recusa a aceitar: a maior habilidade do atual governo são suas técnicas de comunicação.

Felipe fez um diagnóstico muito preciso da estratégia de comunicação do governo que, segundo ele, optou em focar num público específico com o objetivo de manter uma base de apoio sólida e consistente de eleitores - Bolsonaro nunca deixou de ser candidato e seus apoiadores nunca deixaram de se comportar como eleitores, ou melhor, como cabos eleitorais. De acordo com este jovem comunicador, Bolsonaro e seus filhos sabem como falar para esta parcela específica que representa 30% da população brasileira:

“Por que essa base de apoio ao governo não se abala e não diminui? A comunicação é fundamental, esse governo sabe se comunicar com essas pessoas. Feita de uma maneira legal ou questionável (não vou usar o termo ilegal)… a equipe de comunicação do presidente não está preocupada com planos de governo, falar sobre medidas de solução, está preocupada em inflamar, vive da promoção do caos, do desespero e do medo. É disso que ele se alimenta. (…) nada de braçada dentro dessa forma de se comunicar, uma forma terrível para quem realmente entende o que está sendo dito ali, mas que funciona.” (sic)

Seu argumento central é muito difícil de ser aceito por qualquer um que se perceba como consciente, não alienado, especialista ou bem informado, a saber, todo aquele que se representa como narcisicamente superior: o estilo de comunicação do governo é reprovável sob diversos aspectos, mas funciona, é eficaz. Este jovem perspicaz que possui nada desprezíveis 38,5 milhões de seguidores vai além: o governo “nada de braçada” (sic) ao usar esta metodologia de comunicação. Sim! Como dizia Freud: há método na loucura. Eu diria: há sempre método e rigor em toda manipulação eficiente. E se tem uma coisa que o manipulador sabe fazer é ser fiel ao seu método e disciplinado no cumprimento das tarefas que seu método exige. Freud fazia uma diferença entre discurso manifesto que pode parecer irracional, sem lógica - no caso do Bolsonarismo, “sem noção”, “ele é muito espontâneo, fala umas besteiras sem pensar” - e conteúdo latente, aquela parte do discurso que não está explícita no enunciado, mas pode ser deduzida das regras de enunciação e que se comunica diretamente com o inconsciente dos interlocutores. Não há nada de espontâneo nos Twiter’s de “Bolsonaro”. O grupo responsável pela propaganda política digital de Bolsonaro segue estratégias muito específicas de psicologia social e utiliza todo um arsenal de técnicas avançadas de comunicação para mídias sociais.

Felipe faz uma crítica ao analisar os adversários políticos de Bolsonaro:

“Tudo errado! Oposição desunida e está aprendendo agora a usar as mídias sociais. É preciso compreender onde essas pessoas podem ser impactadas pela comunicação.” (sic)

Outro diagnóstico certeiro: a esmagadora maioria dos opositores e analistas políticos estão preocupados em demonstrar como são absurdas as informações ou desinformações amplamente divulgadas pelo governo. Ao centrarmos nossas análises no que o governo faz de nefasto na sua comunicação, esquecemos de investir energia na tarefa de compreender como as pessoas são influenciadas por esta modalidade de discurso que tanto menosprezamos. O foco em atacar e desmerecer as estratégias de comunicação do governo, sobretudo classificando-as de anti éticas e inverossímeis (o que é verdade), nos impede de constatar um fato: essa comunicação é eficaz. Sem aceitarmos esta evidência, princípio de realidade, não podemos fazer a pergunta: como dissecar, decifrar, analisar estas estratégias e investigar os mecanismos através dos quais elas adquirem eficácia?

Talvez por ser uma atriz que dedicou sua vida a fazer seu público julgar suas interpretações convincentes, Meryl Streep, expressou opinião semelhante sobre Donald Trump em seu discurso no Golden Globes:

“(…) there was one performance this year that stunned me, it sank its hooks in my heart, not because it was good, there is nothing good about it, but it was effective and it did its job (…)” (Meryl Streep, 2020)

Ela passa a descrever a imitação que Donald Trump fez de um repórter deficiente, como o presidente dos Estados Unidos conseguiu fazer com que as pessoas rissem e ao destruir o mensageiro anulou os efeitos de sua mensagem. Ele criou assim todas as pré condições para caracterizar a terrível cena como bullying. Ela alerta para seus efeitos performativos:

“(…) it kind of gives permission for other people to do the same thing. Disrespect invites disrespect, violence incites violence, when the powerful use their position to bully others, we all lose. (…)” (ibid)

Aqui ela descreve um fenômeno conhecido das ciências sociais: o líder tem o poder de estimular seus seguidores a imitar seus comportamentos ou mesmo induzi-los a ir mais longe ainda e fazer o trabalho sujo sem que o macho alfa precise sujar suas próprias mãos.

Ela conclui fazendo o mesmo convite de Felipe Neto aos atores e comunicadores presentes na cerimônia:

“Tommy Lee Jones said to me: Isn’t it such a privilege Meryl just to be an actor? Yeah it is! And we have to remind each other of the privilege and the responsibility of the active empathy.” (ibid)

É incrível a semelhança entre as análises de Meryl Streep e Felipe Neto. Ela também julga que não há nada de bom - no sentido ético - na performance do presidente, mas reconhece que a estratégia de comunicação de Trump foi eficaz e que alcançou seu objetivo. De acordo com Meryl e Felipe, todos comunicadores que possuem muitos seguidores precisam se posicionar e enxergar esta tarefa como uma responsabilidade da qual aqueles que dominam a arte de influenciar seu público não podem se furtar.

Quando era estudante de psicologia na Universidade de Brasília em 1986 uma pesquisa sobre doação de sangue concluiu que não eram discursos cientificamente embasados ou eticamente nobres que aumentavam o comportamento de doar sangue. O discurso mais eficaz para fazer os sujeitos dessa pesquisa saírem de uma palestra e se dirigirem para a ambulância estacionada na frente do auditório era aquele que abordava as crenças afetivas e irracionais dos voluntários. Essa técnica de análise de discurso e pesquisa-ação é muito desenvolvida nos Estados Unidos e menosprezada pelos psicanalistas. O que não faz o menor sentido pois Freud sempre sublinhou o poder da palavra daquele que encarna o líder simbólico, sobretudo quando sua fala é dirigida para a parte mais inconsciente, irracional e reprimida do psiquismo humano. Toda a teoria do ato analítico é baseada em fenômenos psíquicos análogos aos efeitos performativos do discurso bolsonarista.

Intuo que por inveja e despeito muitos políticos e vários intelectuais se recusam a fazer uso das mídias sociais. “(…) a negação somente entrará em cena em um nível superior, tendo então a função de substituta do recalque” (Freud, 1915) Negar as evidências da eficácia em promover mudança de comportamento através das mídias sociais é semelhante a opinião daqueles que se recusavam a usar o telefone pois acreditavam que isso iria diminuir a presença física dos amigos e entes queridos, quando na verdade pesquisas revelaram mais tarde que aqueles que se falavam com mais frequência através daquela invenção demoníaca, visitavam mais uns aos outros. Quando a oposição vai aceitar a necessidade de compreender e usar as estratégias digitais e as mídias sociais nas quais os Bolsominions “nadam de braçada”?

Dizem que esta frase é atribuída a Nelson Rodrigues: “Se os homens de bem tivessem a ousadia dos canalhas, o mundo estaria salvo.” Ousadia com ética também pode ser muito eficaz!

Julio Cesar Nascimento
Psicanalista
Psicólogo pela Universidade de Brasília - UnB
Especialização em Teoria Psicanalítica pela PUC - SP
Mestre Psicologia Clínica pelo Núcleo de Psicanálise da PUC - SP
Professor do Curso de Formação do Centro de Estudos Psicanalíticos
Professor da Casa do Saber



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