Sociedade e Cultura

'Nem Freud explica': O sentimento de culpa e a busca por um pai autoritário

 

27/07/2020 12:10

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
:: Leia mais: Especial 'Nem Freud Explica...' (CLIQUE AQUI)

Paulo é eleitor do Bolsonaro e tentava me convencer que a eleição do atual presidente foi necessária uma vez que a esquerda era excessivamente liberal na pauta dos costumes, colocando em risco os valores da família. Ele reproduz a mensagem de Bolsonaro no Twitter: “Enquanto a esquerda busca meios de descriminalizar a pedofilia, transformando-a em uma mera doença ou opção sexual, eu apresentei um PL que aumenta em 50% a pena para esses crimes” (sic). Esta estratégia de Bolsonaro é conhecida pelos estudiosos das ciências humanas: ao associar a pretensa defesa de um comportamento bizarro e abjeto a um grupo específico, tenta-se transferir a reação emocional negativa ao conteúdo desta aberração à imagem daquele grupo opositor que deseja-se atacar ou depreciar.

Adiciona-se a isso um benefício secundário: o controle da pauta - todos passam a falar de forma passional sobre o tema. De um lado, aqueles que acreditam nas fake news e estão indignados com esta suposta intenção diabólica da esquerda, de outro, aqueles que tem algum grau de informação sobre a realidade protestam de forma diametralmente oposta pela audácia de acusar seu grupo de algo tão descabido e inverossímil. Mas o objetivo é atingido de forma extremamente eficaz: as mídias sociais são completamente dominadas pelos discursos inflamados sobre o tema.

O controle da pauta obviamente visa realizar um objetivo diversionista: uma tática para distrair a atenção de um tema que se deseja esconder ou tirar do foco. Pesquisadores que investigam este modelo de propaganda política afirmam que na verdade este seria o objetivo primário desta ação tática, dentro de uma estratégia maior: a contínua e ininterrupta campanha presidencial. Outros ainda acreditam que o verdadeiro objetivo é formar um grupo de eleitores coesos e mobilizados que garantiriam a consolidação da extrema direita no Brasil e consequentemente formar uma base eleitoral sólida e suficiente para eleição de deputados e senadores.

Mas porque algumas mensagens específicas e muito bem calculadas, ao serem postadas nas mídias sociais tem este poder de tergiversar? Porque estes subterfúgios são tão eficazes?

Voltemos a Paulo. Este brilhante advogado durante sua adolescência era um evangélico praticante quando, aos 17 anos, se envolveu com uma mulher mais velha de sua igreja. Eles passaram a ter um tórrido caso amoroso. Paulo relata com vergonha como algumas vezes ele saia do motel e ía direto para o culto tocar guitarra e cantar louvores ao senhor. Num deles a letra dizia: “Seja meu canto, o padrão daquilo que eu falar, no procedimento daquilo que eu fizer” (sic) O super ego de Paulo o torturava pela consciência da evidente contradição entre seus atos e seus valores religiosos. Seu sentimento de culpa encontrava satisfação nas constantes e intermináveis ruminações a respeito dos castigos que ele acabaria por merecer em razão de seus atos libidinosos e pecaminosos.

Paulo, aos 40 anos, ainda hoje sente-se culpado pela violência com que seus desejos sexuais tomam o controle de suas ações em detrimento dos seus valores familiares e cristãos.

Ora, se Paulo não consegue controlar suas próprias forças libidinais interiores, nada melhor do que lutar pelo apoio de um líder que promete trabalhar para realizar este controle exterior: os abusos de uma sociedade que se tornou perigosamente permissiva com práticas pecaminosas.

Isso lembra a narrativa de um jornalista que, ao visitar uma cidade de interior, veio a descobrir que todos os bares da cidade eram obrigados a fechar as 21 horas em razão de uma lei municipal criada pelo prefeito. Este prefeito andava as voltas com um conflito familiar: seu filho após atingir a maioridade insistia em desobedecer o pai e ficava até tarde bebendo com os amigos nos seus bares preferidos. Não podendo conter seu próprio filho, decidiu legislar para cidade inteira.

Uma amiga pessoal viu seu filho entrar na USP e se desinteressar pelas 6 horas diárias que eles passavam sábado e domingo nos cultos evangélicos. Ela, eleitora de Bolsonaro, estava convencida que a suposta balburdia inventada e descrita por Weintraub nas universidades federais era a mais pura representação da verdade. Ora se ela fosse deputada federal certamente faria um projeto de lei na tentativa de controlar o comportamento do próprio filho através do controle de todas universidades federais do país.

Essas notícias falsas não são escolhidas aleatoriamente, elas são criadas sob medida para encontrar eco nas mentes em conflito dos eleitores de Bolsonaro, ao mesmo tempo que cumprem a função de desviar o foco de investigações dos escândalos de corrupção envolvendo seus filhos, suas práticas quando ainda era deputado e a própria campanha à presidência com suspeitas de uso ilegal de propaganda política via mídia sociais financiada por grupos de grande poder econômico.

A grande habilidade das técnicas de comunicação da família Bolsonaro é falar diretamente para estas mentes atormentadas: filhos culpados que anseiam desesperadamente serem libertos de seus impulsos pecaminosos pelo grande salvador; ou ver devidamente punidos aqueles em que projetam a realização de suas fantasias ardentemente desejadas, porém proibidas.

De acordo com Maria Rita Kehl esse tipo psicológico aspira por uma autoridade atenta ao seu bom comportamento, seus desejos são “tão ameaçadores que ele invoca não o pai da Lei, mas o velho patriarca castrador, tornado obsoleto nas democracias modernas”. (in Ressentimento, 2004) O que Kehl não contava é com a obsolescência programada do pai da horda primitiva. Quando a sociedade falha em construir discursos simbólicos alternativos e consistência imaginária suficientes que possam funcionar como espaço potencial para soluções mais criativas para os conflitos neuróticos, o laço perverso retorna e domina a cena.

Julio Cesar Nascimento
Psicanalista
Psicólogo pela Universidade de Brasília - UnB
Especialização em Teoria Psicanalítica pela PUC - SP
Mestre Psicologia Clínica pelo Núcleo de Psicanálise da PUC - SP
Professor do Curso de Formação do Centro de Estudos Psicanalíticos
Professor da Casa do Saber



Conteúdo Relacionado