Sociedade e Cultura

Os obstáculos ideológicos ocultos à vacinação

Não somente as dificuldades de produção e distribuição, mas também ideologias de supremacia ocidental estão prejudicando esforços globais de vacinação

30/03/2021 11:04

Idosos recebem a vacina chinesa Sinopharm em um centro de vacinação montado em um centro de exposições em Lahore em 16 de março de 2021 (Arif Ali/AFP)

Créditos da foto: Idosos recebem a vacina chinesa Sinopharm em um centro de vacinação montado em um centro de exposições em Lahore em 16 de março de 2021 (Arif Ali/AFP)

 
Até agora, a maioria dos governos mundiais conseguiu lidar com a tempestade de covid-19. Inúmeras administrações que não foram capazes ou não estavam dispostas a implementar as medidas necessárias para proteger seus cidadãos do vírus mortal ainda estão no comando depois de um ano de pandemia. Isso, no entanto, pode mudar logo ao passo que alguns países entraram agora em uma corrida para vacinar seus cidadãos contra a covid-19, alcançar a imunidade de rebanho, e, finalmente, deixar essa emergência de saúde pública sem precedentes para trás.

Os governos ao redor do mundo estão cientes de que o jeito mais rápido e menos custoso de sair dessa pandemia é por meio da vacinação em massa. Eles têm estado sob imensa pressão para imunizar suas populações o mais rápido possível desde que as primeiras vacinas eficazes e seguras foram anunciadas em novembro de 2020.

No entanto, uma vacinação em massa rápida se provou ilusória para muitos países por diversas razões – muitas delas políticas ou até ideológicas ao invés de práticas. Injustiças que cercam a produção e distribuição de vacinas deixaram muitos países sem doses suficientes de vacinas para imunizar até os segmentos mais vulneráveis de suas populações. Certos países se esforçam para se envolver na chamada “diplomacia da vacina” e usar as vacinas que produziram ou obtiveram como ferramenta de poder para ampliar ainda mais a brecha entre aqueles que têm acesso a vacinas e aqueles que não têm. A desconfiança nos cientistas e nas elites políticas, enquanto isso, resultou em uma onda crescente de rejeição de vacinas, especialmente no ocidente.

Se esses obstáculos para ampliar a vacinação não forem rapidamente abordados, novas variantes continuarão a surgir e prolongar a crise salutar que já matou mais de 2.7 milhões de pessoas e devastou a economia global. O fracasso em chegar na imunidade de rebanho logo pode resultar em uma instabilidade política disseminada e na queda de diversos governos que até agora conseguiram permanecer no comando mesmo com seus muitos erros e equívocos.

A abordagem “eu primeiro” escolhida por países ricos e produtores de vacinas – que representam somente 14% da população mundial – não está simplesmente atrasando a vacinação, como também está preparando o caminho para o surgimento de variantes que são menos suscetíveis às vacinas.

Muitas nações ricas, do Reino Unido ao Canadá, acumularam doses suficientes para vacinar suas populações inteiras diversas vezes. Das 225 milhões de doses que foram administradas até agora, a grande maioria foi nas mãos de países ricos, enquanto a maioria dos países de baixa e média renda foi deixada esperando e assistindo.

De acordo com o diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, essa abordagem não é sustentável porque permite que o vírus se espalhe e se transforme em regiões que não têm acesso a vacinas, o que pode determinar a eficácia das vacinas existentes em todo os lugares. Empresas farmacêuticas e governos ocidentais bloquearam propostas de retirada de patentes das vacinas, tornando ainda mais difícil para muitos países de baixa e média renda imunizarem seus cidadãos.

A tendência dos países ricos de usar suas doses excedentes para reforçar suas próprias agendas políticas também está prejudicando os esforços para alcançar a imunidade de rebanho global por meio da vacinação. Israel, que somente recentemente começou a vacinar palestinos que vivem em suas ocupações, por exemplo, enviou milhares de doses exclusivamente para países que apoiam sua vontade contínua de ter Jerusalém reconhecida como sua capital pela comunidade internacional. Tais atos da chamada “diplomacia da vacina” fazem pouco para expandir o acesso à vacina para todos os necessitados e, ao invés, deixam as nações mais vulneráveis e menos politicamente conectadas à sua própria sorte.

Enquanto isso, a hesitação em relação a vacina está crescendo em muitos países e levantando questões sérias sobre sua habilidade de alcançar a imunidade de rebanho logo. O problema é particularmente severo no ocidente. Quase quatro em dez pessoas na França, mais de 25% das pessoas nos EUA, e 23% na Alemanha dizem que definitivamente ou provavelmente não serão vacinadas contra a covid-19, de acordo com uma pesquisa conduzida pelo Kantar Public em janeiro de 2021.

Essa hesitação é resultado de uma crescente desconfiança nas elites política e científica, bem como no retrocesso cultural causado pelas redes sociais. As redes manipularam muitos para acreditar que vetores tradicionais de poder e legitimação não são mais úteis na interpretação dos fatos. A informação não passa mais por filtros confiáveis de mediação antes de chegar ao público, ao invés, está sendo imediatamente entregue às massas por meio das redes sociais. Lidando com muita informação não verificada e com necessidade de ser interpretada, as pessoas facilmente se tornam vítimas de vieses, teorias da conspiração e fake news em seus esforços de não seguir cegamente elites que elas acreditam ter agendas ideológicas ocultas.

A ilusão da transparência ideológica que essas tecnologias fornecem é responsável pela desconfiança abraçada por muitos sobre a eficácia das vacinas que foram aprovadas por agencias de saúde governamentais e pela OMS. O ativismo antivax operou nas margens da sociedade política por um bom tempo. Mas ao passo que a pandemia aumentou as suspeitas e medos sobre as ações do monopólio farmacêutico e das elites políticas, esses grupos que há tempos usam as redes sociais para disseminar suas mensagens surgiram como jogadores importantes na luta global para pôr fim à pandemia.

Os preconceitos contra as vacinas que foram desenvolvidas em países não ocidentais é outro grande obstáculo que atrapalha os esforços globais pela vacinação. Muitos ao redor do mundo, e especialmente no ocidente, dizem que se recusariam a tomar qualquer vacina que não tivesse sido desenvolvida por uma corporação/nação ocidental.

Esse preconceito é enviesado não somente pela natureza autoritária desses governos, como muitos acreditam, mas também pela ainda existente ideologia da superioridade ocidental. De acordo com pesquisas recentes, a maioria dos cidadãos estadunidenses e europeus está mais inclinada a tomar vacinas ocidentais simplesmente porque as consideram como sendo superiores independentemente de evidências científicas.

Embora a China e a Rússia terem começado a imunizar seus cidadãos no ano passado antes de publicar os resultados de eficácia dos testes clínicos da fase três, o que inevitavelmente levantou preocupações legítimas, essas vacinas desde então se provaram seguras e eficazes. O jornal médico The Lancet publicou em fevereiro os resultados de testes finais mostrando que a Sputnik V, a vacina russa, tem uma taxa de eficácia de 91.6%. Ao menos 25 países ao redor do mundo, enquanto isso, aprovaram e estão administrando a Sinopharm, uma das vacinas chinesas, com resultados satisfatórios parecidos.

Essa convicção na superioridade científica e tecnológica ocidental é tão estabelecida que não parece mais ideológica. As nações ocidentais ficaram tão consumidas por sua própria aparente superioridade que elas não conseguem nem imaginar o sucesso não ocidental no desenvolvimento de vacinas. Além disso, essa noção infundada, que tem raízes em séculos de colonialismo e na Guerra Fria, também influenciou comportamentos públicos em alguns países não ocidentais e conduziu a suspeitas infundadas sobre as vacinas que estão atualmente disponíveis para uso lá.

Se queremos encerrar essa pandemia, devemos perceber e confrontar a ideologia oculta de superioridade ocidental como obstáculo crucial à vacinação em massa. Devemos também reconhecer como o esgotamento da interpretação da informação conduzido por atores políticos que estão à margem nas redes sociais está posicionando as massas contra vacinas seguras e eficazes.

Iniciativas como o programa global COVAX da OMS – que busca fornecer diagnósticos, tratamentos e vacinas de covi-19 de maneira igualitária para países pobres – não conseguem ter sucesso se a comunidade internacional ignora ou falha em abordar essas questões.

Somente conseguiremos superar essa pandemia e evitar mais mortes e devastação econômica se nos comprometermos a vacinar quanto mais pessoas conseguirmos, o mais rápido que conseguirmos, em cada esquina do mundo. Líderes políticos, e especialmente aqueles de países e produtores de vacinas, precisam entender esse fato. Se continuarem a permitir ideologias ocultas e campanhas de desinformação nas redes sociais para prejudicar os esforços pela vacinação, estarão colocando em risco a saúde o bem-estar não somente dos seus próprios cidadãos, mas também de toda a comunidade global.

Santiago Zabala é professor de filosofia na Universidade Pompeu Fabra

*Publicado originalmente em 'Al Jazeera' | Tradução de Isabela Palhares



Conteúdo Relacionado