Sociedade e Cultura

Ousemos declarar o capitalismo morto - antes que ele nos destrua

O sistema econômico é incompatível com a sobrevivência da vida na Terra. É hora de criar um novo

27/05/2019 15:05

Refugiados na fronteira greco-macedônia em 2016.

Créditos da foto: Refugiados na fronteira greco-macedônia em 2016. "No século 21, o aumento do consumo de recursos se igualou ou superou a taxa de crescimento econômico". (Dimitar Dilkoff/AFP/Getty Images)

 
Durante a maior parte da minha vida adulta, lutei contra o "capitalismo corporativo", o "capitalismo do consumo" e o "capitalismo de compadrio". Demorei muito a perceber que o problema não era o adjetivo, mas o substantivo. Enquanto algumas pessoas rejeitaram o capitalismo alegre e rapidamente, eu o fiz de forma lenta e relutante. Em parte porque eu não via uma alternativa clara: ao contrário de alguns anticapitalistas, nunca fui um entusiasta do comunismo de estado. Também era inibido por seu status religioso. Dizer “o capitalismo fracassou” no século 21 é como dizer “Deus está morto” no século 19: uma blasfêmia secular. Requer um grau de autoconfiança que eu não tinha.

Mas à medida que envelhecia, pude notar duas coisas. Primeiro, que é o sistema, e não qualquer variante do sistema, que nos está nos levando inexoravelmente ao desastre. Segundo, que não é preciso apresentar uma alternativa definitiva para dizer que o capitalismo está fracassando. A afirmação basta por si só. Mas exige o esforço de desenvolvimento de um novo sistema.

As falhas do capitalismo surgem de dois de seus elementos definidores. O primeiro é o crescimento infinito. O crescimento econômico é o efeito agregado da busca de acúmulo de capital e de obtenção de lucro. Sem crescimento, o capitalismo entra em colapso, mas o crescimento infinito em um planeta finito leva inexoravelmente à calamidade ambiental.

Aqueles que defendem o capitalismo argumentam que, à medida que o consumo muda de bens para serviços, o crescimento econômico pode ser dissociado do uso de recursos materiais. Na semana passada, um artigo de Jason Hickel e Giorgos Kallis, na revista New Political Economy, examinou essa premissa. Eles descobriram que, embora tenha ocorrido uma relativa separação no século 20 (o consumo de recursos materiais cresceu, mas não tão rapidamente quanto o crescimento econômico), no século 21 houve uma reassociação: o crescente consumo de recursos até agora foi igual ou superior à taxa de crescimento econômico. A dissociação necessária para evitar a catástrofe ambiental (uma redução no uso de recursos materiais) nunca foi alcançada, e parece impossível enquanto houver crescimento econômico. O crescimento verde é uma ilusão.

Um sistema baseado no crescimento infinito não pode funcionar sem periferias e externalidades. Deve haver sempre uma zona de extração – da qual os materiais são retirados sem pagamento integral – e uma zona de descarte, onde os custos são despejados na forma de resíduos e poluição. À medida que a escala da atividade econômica aumenta e o capitalismo passa a ter impactos sobre tudo, da atmosfera ao fundo do oceano, todo o planeta se torna uma zona de sacrifício: todos nós habitamos a periferia da máquina lucrativa.

Isso nos leva ao cataclismo em uma escala inimaginável para a maioria das pessoas. A ameaça de colapso de nossos sistemas de suporte à vida é, de longe, algo maior do que a guerra, a fome, a epidemia ou a crise econômica, embora provavelmente incorpore as outras quatro. As sociedades podem se recuperar desses eventos apocalípticos, mas não da perda de solo, de uma abundante biosfera e de um clima habitável.

O segundo elemento definidor é a suposição bizarra de que alguém tenha direito a uma fatia da riqueza natural do planeta tão grande quanto possa pagar. Esse confisco de bens comuns causa três outras rupturas. Primeiro, a disputa pelo controle exclusivo de bens não reprodutíveis, que implica em violência ou em leis que retiram direitos da população. Segundo, a miserabilização de pessoas causada por uma economia baseada em saques contínuos no espaço e no tempo. Terceiro, a tradução do poder econômico em poder político, uma vez que o controle dos recursos essenciais leva ao controle das relações sociais em torno deles.

Recentemente, no New York Times, o Nobel em Economia Joseph Stiglitzprocurou distinguir o bom capitalismo, que chamou de "criação de riqueza", do mau capitalismo, que chamou de "apropriação de riqueza" (da qual se extrai renda). Entendo a distinção. Mas do ponto de vista ambiental, a criação de riqueza é apropriação de riqueza. O crescimento econômico, intrinsecamente ligado ao uso crescente de recursos materiais, significa subtrair riqueza natural tanto dos sistemas vivos quanto das gerações futuras.

Apontar tais problemas é se expor a uma enxurrada de acusações, muitas das quais baseadas na seguinte premissa: o capitalismo tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza – agora você quer empobrecê-las de novo. É verdade que o capitalismo e o crescimento econômico que ele impulsiona levaram à prosperidade um grande número de pessoas, ao mesmo tempo em que destruíram a prosperidade de muitos outros: aqueles cuja terra, mão-de-obra e recursos foram tomados para alimentar o crescimento em outros lugares. Grande parte da riqueza das nações ricas era – e é – construída sobre a escravidão e a expropriação colonial.

Assim como o carvão, o capitalismo trouxe muitos benefícios. Mas, como o carvão, causa hoje mais mal do que bem. Assim como encontramos meios de gerar energia melhores e menos prejudiciais do que o carvão, precisamos encontrar meios de gerar bem-estar melhores e menos prejudiciais do que o capitalismo.

Não há como voltar atrás: a alternativa ao capitalismo não é nem o feudalismo nem o comunismo de estado. O comunismo soviético tinha mais em comum com o capitalismo do que os defensores dos dois sistemas gostam de admitir. Ambos são (ou eram) obcecados pelo crescimento econômico. Ambos estão dispostos a infligir níveis surpreendentes de danos na busca desse e de outros fins. Ambos prometeram um futuro em que precisaríamos trabalhar apenas algumas horas por semana, mas, ao contrário, exigem um trabalho brutal e sem fim. Ambos são desumanizantes. Ambos são absolutistas, insistindo que o Deus deles é o único e verdadeiro.

Então, como seria um sistema melhor? Não tenho a resposta completa e não acredito que alguém tenha. Mas acho que vejo um esboço surgindo. Parte deste esboço é traçada pela civilização ecológica proposta por Jeremy Lent, um dos maiores pensadores de nosso tempo. Outros elementos vêm da economia do donut de Kate Raworth e do pensamento ambiental de Naomi Klein, Amitav Ghosh, Angaangaq Angakkorsuaq, Raj Patel e Bill McKibben. Parte da resposta está na noção de “suficiência privada, luxo público”. Outra parte surge da criação de uma nova concepção de justiça baseada neste princípio simples: toda geração, em toda parte, deve ter o mesmo direito a desfrutar da riqueza natural.

Acredito que nossa tarefa seja identificar as melhores propostas de muitos pensadores diferentes e transformá-las em uma alternativa coerente. Como nenhum sistema econômico é apenas um sistema econômico, e se intromete em todos os aspectos de nossas vidas, precisamos de muitas mentes, de várias disciplinas – econômica, ambiental, política, cultural, social e logística – trabalhando em colaboração para criar uma maneira melhor de nos organizar, que atenda às nossas necessidades sem destruir nosso planeta.

Nossa escolha se resume a isso. Paramos a vida para permitir que o capitalismo continue, ou paramos o capitalismo para permitir que a vida continue?

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Clarisse Meireles

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